Perda

16 DE OUTUBRO DE 2021

Uriel Villas Boas deixa legado em prol dos trabalhadores e luta pela igualdade

O sindicalista, advogado e jornalista Uriel Villas Boas faleceu hoje, aos 82 anos, em sua residência, no bairro do Campo Grande, em Santos.

Por: Fernando De Maria

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Todo ano próximo ao 1º de maio, dia do Trabalhador, ele me enviava um e-mail ou telefonava perguntando se dava para encaminhar um artigo comemorativo à data para publicar no Boqnews.

Ficava contente com a publicação, pois para ele as lutas dos trabalhadores – tão usurpadas nos dias de hoje – não poderiam ser esquecidas ou deixadas em vão.

E ele sabia bem os motivos. Afinal, sentiu na pele o quanto algumas das conquistas atuais foram conquistadas  com tanto suor e lágrimas dos trabalhadores.

Ainda mais nos tempos atuais, onde os direitos – quais mesmo? – foram jogados para debaixo do tapete pelos nossos legisladores.

E, pior, são raros os que querem resgatá-los. Ou defendê-los.

E os poucos que ainda o fazem estão dando adeus.

Foi o caso do advogado, jornalista, sindicalista e ex-vereador Uriel Villas Boas, sempre combativo, mas sereno nas suas falas na defesa dos trabalhadores, falecido hoje (16) pela manhã.

Um verdadeiro defensor dos direitos dos cidadãos desde que entrou na área sindical em 1968.

Aliás, época dura da ditadura militar, tendo atuado como dirigente do combativo sindicato dos metalúrgicos à ocasião, chegando à presidência anos depois.

Não bastasse, tarefa inglória em tempos de farda e coturno, ainda mais que a então Cosipa era estatal e supervisionada de perto pelos militares de plantão.

Fora Bolsonaro

Não é à toa que ontem (15), ele participara da plenária no ato Fora Bolsonaro.

Afinal, não se conformava com as perdas de direitos dos trabalhadores.

Aliás, o sindicato dos Jornalistas emitiu nota pública lamentando a perda do combatente cidadão. (leia a nota aqui)

Uriel participou da plenária do ato Fora Bolsonaro ocorrido nesta sexta (15), em Santos. Foto: Divulgação

Categoria, aliás, que ele tinha orgulho de defender, a ponto de ter cursado em dois momentos o curso de Jornalismo, acompanhando junto com os jovens alunos as discussões sobre nossa sociedade, direitos e deveres.

Foi uma oportunidade ímpar de discutirmos em sala de aula as questões sociais sob o viés jornalístico e social.

Bons tempos, aliás.

Apesar de poder garantir uma tranquilidade noturna naquela fase da vida, Uriel não se furtava de ir à faculdade para trocar ideias com os professores e colegas de classe, todos mais jovens que ele.

Palmeirense, brincávamos com o nosso time do coração.

Aliás, eram tempos de vagas magras, diga-se de passagem, com o trauma do primeiro rebaixamento da história do Palestra naquele início deste século.

Uriel Vilas Boas deixou um legado de lutas por causas sociais, seja no sindicato, seja como político. Ativo participante de programas de TVs, Uriel morreu em sua residência, no Campo Grande, em Santos, na manhã deste sábado (16). Foto: Divulgação

Câmara

Sua luta sindical, aliás, começou inicialmente com os metalúrgicos, posteriormente com os aposentados da categoria. Ou não.

Paralelamente, a atuação política-partidária garantiu-lhe, inclusive um curto, mas combativo mandato por pouco mais de 18 meses na Câmara de Santos.

Afinal, com a morte de Luzia Neófiti de Andrade (PT) em 14 de maio de 2003, Uriel ocupou o cargo no Legislativo santista até o final de 2004.

Além disso, reconhecia os problemas do sindicalismo na atualidade, mas sonhava também em resgatar a potência que a Baixada Santista – tão importante no cenário sindical brasileiro.

Aliás, participava ativamente – antes da pandemia – de reuniões na Agem – Agência Metropolitana da Baixada Santista como ouvinte mas, toda vez que tinha uma brecha, deixava registrada sua mensagem.

E expressava suas ideias. E ideais.

Infelizmente, nem sempre nossas autoridades tinham o interesse de ouvir as suas contribuições, sempre cristalinas e certeiras.

Uma pena.

Uriel (à direita) participava de diversos programas na mídia, como o Jornal Enfoque, que era veiculado na Santa Cecília TV e hoje é transmitido pela Boqnews TV nas redes sociais. Foto: Divulgação

Leitor assíduo

Assim, Uriel lutava por maior igualdade social, seja como sindicalista, vereador da Câmara de Santos  ou simples munícipe, participando ativamente com lúcidos comentários nos mais variados programas de televisão regional.

Sem contar nos textos enviados para as redações dos jornais locais e revistas de âmbito nacional.

Era também – ao lado do também combativo sociólogo Célio Nori, falecido este ano – um dos símbolos da Estação da Cidadania, casa aberta para troca de ideias e contribuições para uma sociedade mais igualitária.

Meu pai o conheceu na luta sindical no Sindicato dos Metalúrgicos nos anos 70.

Por ironia, acabaram virando vizinhos de quadra na Rua José Clemente Pereira, no Campo Grande, em Santos, no final da vida de ambos.

Ele sempre pedia para deixar exemplares do Boqnews na caixa do correios no seu prédio, o que fazíamos regularmente quando havia o meio impresso.

Quando meu pai ainda estava vivo até o ano passado, ele fazia questão de deixar o jornal por lá, caminhando com a dificuldade que a idade insistia em atrapalhar suas pernas.

Depois, fiquei com esta missão, mas com a pandemia o impresso cedeu espaço ao digital.

E assim, o envio ficou na nuvem, com um simples toque no celular.

Dessa forma, encaminhava ao seu whatsapp não só a edição digital, mas as reportagens que acreditava seriam de interesse dele.

Ele acompanhava, sem retorno, o conteúdo enviado.

Afinal, o duplo símbolo azul do whatsapp confirmava isso

Mas, no meu inconsciente, sabia que ele gostava mesmo era do papel, do impresso.

Na sexta (15), aliás, havia enviado uma que certamente o teria preocupado: a entrevista com dois professores sobre os rumos da economia e os impactos inflacionários.

 

Despedida

Infelizmente, o coração do velho guerreiro sindical parou aos 82 anos nesta manhã ensolarada de sábado, logo após o Dia dos Professores.

Em casa, seu coração parou hoje pela manhã.

Tentaram reanimá-lo, mas sem sucesso.

Era o fim de uma longa jornada de alguém que dedicou boa parte da sua vida à frente do sindicalismo, da igualdade entre as pessoas e da justiça.

Por ironia, o tempo mudou logo depois, com chuva, queda de temperatura e vento.

Seriam os céus chorando pela sua ausência?

De qualquer forma, aqui, caro Uriel, ela será muito sentida.

Certamente.

Vá em paz, meu caro.

E continue sua luta, agora em outra dimensão.

 

Confira alguns dos seus artigos publicados no Boqnews

Moradia – https://www.boqnews.com/sua-opiniao/moradia-tem-que-ser-prioridade/

1º de Maio – https://www.boqnews.com/sua-opiniao/o-1o-de-maio-sem-comemoracao-no-mundo/

Sindicalismo – https://www.boqnews.com/sua-opiniao/os-problemas-do-sindicalismo-brasileiro/

 

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