Gabriel Pierin

Gabriel Pierin criou o Era uma vez em Santos... nasceu como uma ideia, virou um projeto e será sempre uma obra inacabada. Resgatar e preservar a memória da cidade é um compromisso de todos aqueles que amam Santos, sua história e suas pessoas. Afinal, cada pessoa, cada lugar, tem sempre uma história para contar.

A história das civilizações e das epidemias: o que ela pode nos ensinar?

19 de março de 2020 - 12:36

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A caminhada do homem ao longo da história é marcada pelo desenvolvimento tecnológico e pela busca do conhecimento. Em contrapartida, o homem não conseguiu evitar os males que o afligem desde os primórdios da civilização, entre eles, a fome, as guerras e as epidemias. Uma situação contraditória, marcada por rupturas e permanências.

Um surto de varíola atingiu o Egito há mais de 3 mil anos. Essa doença atormentou o Japão no século VIII e foi uma das causas que levaram ao extermínio dos nativos da América, contagiados pelos espanhóis conquistadores. Os costumes e os valores da sociedade europeia mudaram o continente americano.

No mundo antigo, a malária já era conhecida pelos romanos. A doença causada por um mosquito acometeu a mais importante civilização da antiguidade. A técnica de drenar e aterrar pântanos controlou a proliferação do vetor. Atualmente, cerca de 250 milhões de pessoas em todo o mundo ainda sofrem desse mal, sobretudo nas regiões mais pobres, aprofundando os problemas socioeconômicos.

O movimento cruzadista, no período medieval, foi marcado pela disseminação da lepra. A Guerra Santa espalhou a doença pelo Ocidente. Estigmatizado, leproso virou sinônimo de pessoa desagradável, suja. O tratamento e o convívio melhoraram, mas a hanseníase continua como um problema público de saúde.

Na Baixa Idade Média, a Peste Negra levou cerca de 25 milhões de pessoas à morte. O desconhecimento e a falta de higiene varreram um terço da população europeia. A exploração da mão de obra ocasionou revoltas camponesas, desestabilizou o regime de servidão, enfraquecendo e causando o fim do feudalismo, entre outros fatores.

A contemporaneidade é marcada pelo crescimento das cidades. A ocupação desenfreada e a falta de planejamento dos novos espaços trouxeram efeitos devastadores. A cólera e a febre tifoide se propagaram rapidamente sobre a população dos principais centros urbanos do mundo, em pleno século XIX. A necessidade de controlar a poluição dos rios e do ar estimulou o desenvolvimento de novos equipamentos públicos de saneamento.

No início do século passado, a gripe espanhola matou mais pessoas do que a Primeira Guerra Mundial. A industrialização e a busca de novos mercados espalharam rapidamente a doença para outros continentes. A modernização e a regulamentação dos portos ajudaram na prevenção de novas epidemias.

Quando parecia que o homem tinha superado os graves problemas do século XX, pelo enfrentamento das guerras mundiais e dos conflitos decorrentes das contradições políticas e o mundo caminhava para uma nova geração que propagava a paz e o amor livre, a AIDS aterrorizou os jovens na década de 1980 e hoje acumula mais de 35 milhões de infectados. A conscientização e o desenvolvimento de novos medicamentos aliviaram o sofrimento e o estigma dos infectados.

O Coronavírus não foi o primeiro e, provavelmente, não será o nosso último combate viral. A luta pela sobrevivência é um instinto básico de todos os seres vivos, das bactérias aos humanos. O que nos diferencia é a nossa capacidade de pensar e agir. A inteligência e a consciência nos tornam únicos no planeta.

Temos uma grande oportunidade de refletir sobre o mundo que vivemos e a forma como nos organizamos. Reerguer nossa sociedade com valores humanistas é uma oportunidade urgente.

Devemos sair fortalecidos. Jamais ilesos. Qual é a cura e salvação que desejamos?