Memória Santista
Sergio Willians

É jornalista e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras. Também é membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

A peste em Santos

Os santistas foram salvos da peste bulbônica por dois dos maiores nomes da medicina sanitária do Brasil

04 de dezembro de 2015 - 08:00

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A situação da saúde pública em Santos estava muito ruim no final de Século XIX. Diante de sérios problemas sanitários, a cidade enfrentava epidemias das mais variadas espécies. As mais temidas eram as de febre amarela e varíola. Mas nada se compararia ao que aconteceria no apagar das luzes de 1899.

Após a abolição da escravatura (1888) e a instituição da República (1889), um novo cenário social surgia no Brasil. Nessa época, o processo imigratório, que ocorria principalmente por meio dos portos da então capital nacional, o Rio de Janeiro, e de Santos, deflagrou ainda mais o quadro caótico da saúde pública. Assim, somava-se às doenças locais, as que chegavam pelos porões dos navios que traziam estrangeiros ao Brasil.

Com as portas escancaradas para os males que afetavam outras partes do mundo, a peste bubônica, que figurava na lista das mais temidas de todas as doenças do planeta, aportava sem resistência na cidade santista. Responsável por  aniquilar um quarto da população da Europa no Século XIV, a “peste” ou a “doença dos ratos”, como todos a chamavam, tornava-se mais uma vez o pesadelo da humanidade.

Um terceiro grande ciclo havia sido deflagrado na província chinesa de Yunnan, época da rebelião muçulmana de 1855 e propagado lentamente pelos deslocamentos dos refugiados. O mal atingiu Cantão e Hong Kong em maio de 1894. Os portos do sul da China passaram a funcionar como centros de distribuição da peste, que tinha agora entre suas áreas potenciais de expansão os portos marítimos do Novo Mundo. Foi assim que, alcançando a América do Sul pelo Paraguai e Argentina, desembarcou na cidade de Santos em outubro de 1899.

Os primeiros casos – A primeira vítima santista da peste foi atendida como mais um caso de febre amarela. O médico Guilherme Álvaro chegou a descrever em seu trabalho “A campanha sanitária de Santos – Suas causas e seus efeitos”, que o inspetor sanitário, encarregado de dirigir a remoção do doente e a conseqüente desinfecção do domicílio, estranhou não só a rápida evolução da doença, como também o aspecto do cadáver, que então o era, nada se parecendo com o de um “amarelento” (como eram chamadas as vítimas da febre amarela).

Examinando-o, verificou que era portador de um tumor na região inguinal direita, não típica da febre. Alguns dias depois verificou-se o surgimento de ratos mortos em alguns pontos da cidade, principalmente nas proximidades da residência da vítima, moradora nas imediações do armazém da Cia. Docas destinado a receber bagagens dos passageiros marítimos.

Estava clara a situação. Ratos infectados com a peste deveriam ter descido dos navios e se metido na bagagem e , de lá, saíram para as ruas da cidade e infestaram outros ratos, dando o início de um pesadelo de enormes proporções.

A chegada do socorro – Mais casos foram surgindo pela cidade até que, em  6 de outubro, a Câmara Municipal, tentando acalmar os santistas, desorientados com os conselhos de seus médicos e de outros “entendidos” que não acreditavam na peste, resolveu suplicar pela presença do famoso médico sanitarista, Vital Brasil, do Instituto Bacteriológico de São Paulo, que veio a Santos para fazer integrar a Comissão Sanitária e comandar pesquisas especiais necessárias para erradicar a doença.

As notícias da epidemia em Santos alastrou-se e, para somar ao trabalho de Vital Brasil, somou ao time outro nome famoso,  Oswaldo Cruz, que logo tomou as rédeas da situação e apontou ser necessário tomar-se medidas radicais contra o mal, inclusive o expurgo pelo fogo, de todas as casas contaminadas.

Em 18 de outubro foi admitido, oficialmente, a epidemia de peste bubônica, o que deixou a cidade em estado de alerta.

Porém, com a magnífica estratégia elaborada por Oswaldo Cruz, Vital Brasil e outros da Comissão Sanitária, Santos conseguiu realizar o que parecia impossível: controlar e eliminar a doença da cidade. A última remoção de pestoso para o Isolamento foi feita em 28 de novembro, sendo este o último caso da doença do ano, ficando extinta a epidemia e declarado limpo o porto de Santos em fins de dezembro.

No balanço final, a doença que imaginavam que fosse a maior causadora de mortes na cidade, foi suplantada por várias outras, como a tuberculose, que matou só naquele ano de 1899 mais de 170 pessoas, contra os 14 óbitos da peste.

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Relatos do Terror

No seu livro “A campanha sanitária de Santos – Suas causas e seus efeitos”, lançado em 1919, Guilherme Álvaro faz minuciosa descrição de momentos de terror, enfrentados pela Comissão Sanitária, o qual participou, ainda jovem.

Tendo ficado encarregado de dirigir o expurgo das casas que tivessem fornecido doentes de peste, e das autópsias dos cadáveres duvidosos, presenciamos todos os serviços dali por diante e nos lembraremos sempre do que vimos no prédio nº 39 da Rua 15 de Novembro, cujos fundos davam para a Rua 24 de Maio, sob o número 60.

Daquela casa haviam saído com peste, para o Isolamento, do dia 14 ao dia 20, sucessivamente a criada Rosa Caseiro, o servente Joaquim Chaves, quatro pessoas da família Milone, e por fim o resto da mesma, para ficar de observação.

Ao abrirmos as portas do armazém onde funcionara o bar, deparamos com mais de 40 ratões mortos espalhados pelo solo, muitos já em decomposição, jazendo alguns sobre os balcões. No andar superior ainda havia ratos mortos, vários existindo na cozinha e na pequena despensa ao lado. Fizemos incinerar logo para mais de 60 ratos encontrados em todo o prédio, e dada a presença de pulgas que nos atacaram e aos desinfectadores, não compreendemos ainda hoje porque não fomos vitimados pela doença, que na véspera havia prostrado o dr. Vital Brasil, no Isolamento, onde trabalhava.

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*Texto reproduzido do site Memória Santista