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Opiniões

11 DE MARÇO DE 2022

Agir enquanto é tempo

José Renato Nalini

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Todos estamos comovidos com a destruição da Amazônia, embora negada por quem a patrocina. Mas também atentos ao que se faz contra os demais biomas. Nossa Mata Atlântica, a se reduzir drasticamente, o Cerrado tão esquecido quando se pensa no patrimônio ecológico brasileiro.

O Cerrado brasileiro tem mais de vinte milhões de hectares degradados. Neles, a expansão agropecuária poderia acontecer sem que houvesse necessidade de derrubar sequer uma árvore. Esse número não é dado do costumeiro “achismo”, porém resulta de um estudo: o Zoneamento das Pastagens Degradadas, feito pela empresa de pesquisa aplicada Agroicone em parceria como a The Nature Conservation e outras instituições.

O potencial desse estudo foi evidenciar que há espaço para o desenvolvimento das quatro cadeias produtivas do cerrado: soja, pecuária de corte, pecuária de leite e floresta comercial.

A degradação de pastagens no cerrado é uma pequena parte da degradação geral. De acordo com o Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás, há, no Brasil, quase setenta milhões de hectares devastados. Dos quais, 23,7 milhões estão no cerrado.

Esse estudo pode orientar as políticas estatais, mas precisa estar no radar do agronegócio, que tem lideranças lúcidas. Aponte-se o exemplo de Blairo Maggi, que de infrator ambiental, passou a ser considerado um amigo da natureza, mediante um raro caso de “conversão ecológica”.

O verdadeiro agricultor sabe que precisa da floresta em pé, senão não terá chuva, nem condições para continuar a explorar sua atividade rentável no agronegócio.

Talvez a inclemência das chuvas torrenciais recentes, na Bahia, Minas Gerais, Goiás, Rio e São Paulo sirvam de advertência para os ouvidos moucos. Assim como a seca no Sul, que causou a perda de quase cinquenta milhões de toneladas de soja.

Alguns passos têm sido dados, mas ainda tímidos e muito localizados. Um deles é a integração Lavoura-Pecuária-Floresta, que significa uma quebra de paradigma. O agricultor precisaria também se tornar pecuarista e protetor da floresta. Ainda são escassos os profissionais que dominam essa estratégia e capazes de instruir o produtor.

Ela aumenta a complexidade técnica e econômica do sistema e assusta o mais conservador, que prefere fazer o que seus avós e seus pais já faziam. Sem muita preocupação ecológica.

A customização é também difícil. Por exemplo, faltam gramíneas tolerantes à sombra, mas que precisam ser cultivadas junto às florestas, para nutrir o gado. Mas essa integração é o caminho para a instauração de uma nova mentalidade, que não precise eliminar a cobertura vegetal nativa, mas nela veja uma aliada para uma agricultura e uma pecuária mais sustentável.

Isso faz todo o sentido, quando se constata que o mundo civilizado está levando a sério a questão do aquecimento global. Deixará de comprar produtos oriundos de áreas desmatadas.

O caso chinês deveria tirar o sono do exportador brasileiro. A China foi hostilizada pelo governo e, de forma discreta e prudente, como a sua cultura, cuidou de estimular o plantio de soja nas regiões apropriadas, em seu território.

Simultaneamente, investiu na África, onde já possui imensa rede rodo-ferroviária e portuária, para se tornar independente da soja brasileira. Por fim, assumiu compromissos de também boicotar a produção antiecológica, confirmando a sua concordância com os compromissos assumidos no Acordo de Paris e na COP26 de Glasgow.

É urgente reverter essa tendência. Afinal, a soja brasileira ainda vai para a China, uma de nossas maiores compradoras, ao lado da União Europeia. Se o Brasil mostrar ao mundo que não só deixou de desmatar, mas que está recuperando áreas deterioradas, exibirá a maturidade que o abandonou nos últimos anos.

Sua reputação está seriamente abalada na comunidade internacional, mas é suscetível de ser recuperada, se houver resultado, como advertiu o grande gigante hegemônico que é a nação norte-americana.

O agronegócio é campeão quando se cuida de obter legislação favorável às suas pretensões. Suas lideranças precisam agora ir além, obtendo do governo exação no cumprimento de metas assumidas internacionalmente e mostrando que isso é essencial para continuar a ser o grande produtor de grãos, talvez o maior do planeta.

É agir enquanto é tempo, pois ele é implacável. Qualquer hesitação terá um custo incalculável em desfavor do futuro brasileiro.

José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022.

 

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