Apaixonada e distraída | Boqnews

Ponto de vista

17 de janeiro de 2013

Apaixonada e distraída

Políticos amam o poder
em intensidade só comparável à paixão por si mesmos. Quando compartilham este
sentimento com outras pessoas, costumam se distrair e pisar em falso. A
prefeita de Guarujá, Maria Antonieta de Brito, escorregou como uma mulher
apaixonada. E, talvez por causa do amor, tenha se tornado uma pessoa distraída.

Recém-casada, a prefeita provavelmente ainda vive o clima
de lua-de-mel com o marido, o guarda municipal Flávio Lopes da Silva. E,
avoada, teria nomeado o cônjuge como ouvidor municipal. Flávio, funcionário
concursado, teria o salário multiplicado por três. Passaria a receber cerca de R$
6500 mensais.

Seria um presente de casamento para o marido? Ou uma piada
interna na política de Guarujá? Como em certas questões matrimoniais é preciso
meter a colher, a repercussão da história foi negativa dentro e fora da cidade.

A reação da prefeita indica que não se tratava de um mimo
apaixonado. Era política na acepção da palavra. A prefeita ordenou que a
nomeação do marido fosse revogada. Mais uma evidência de que a política
costuma, em momentos de crise, valer mais na bolsa de valores do amor.

É neste ponto que a novela ganha traços de uma trama de
Dias Gomes, autor de obras fundamentais para entendimento da política
brasileira, como “O Bem Amado.” A assessoria de imprensa da Prefeitura alegou
que “em razão do elevado número de nomeações (271) realizadas na referida data
a prefeita não se apercebeu da indicação do seu marido.”

Realmente, Maria Antonieta de Brito deveria estar com a
cabeça em outro lugar. E o cansaço leva à distração. Nomear 271 pessoas em um
só dia lota qualquer trem da alegria. É um dia típico de autor best-seller quando
autografa sua nova obra.

A nomeação do marido da prefeita de Guarujá subverte uma
lógica da política. O que fazer com a primeira-dama? Neste caso, primeiro-cavalheiro?
O machismo marca as relações de poder. Sobram para as mulheres cargos
honorários ou de menor importância nas teias da burocracia, como Fundo de Solidariedade.
Se a esposa chiar e tiver também força política, ganha uma secretaria, que os
homens julgam como “feminina”. Exemplos: Educação ou Assistência Social.

No episódio em Guarujá, o marido ficaria com um cargo que
os prefeitos costumam fingir que escutam, com o perdão do trocadilho. Ouvidoria
Municipal deveria ser, de fato, uma ligação direta com a população local, mas –
com ironia – reforça o deleite que os políticos tem com o som da própria voz.

Maria Antonieta caiu na armadilha das paixões. Distraída
ou apressada, a prefeita inseriu o marido numa lista maior que caravanas para
programas de auditório. Pensou que ninguém perceberia? Acreditou que um ato de
distração poderia ser visto por todos sempre como natural?

Se serve de consolo para não abrir rachaduras em seu
segundo casamento com Guarujá, Maria Antonieta não está sozinha no carnaval de
nomeações. Santos, São Vicente e Cubatão tiveram escolhas questionadas, seja
por formação inadequada dos beneficiados, seja por preferências religiosas ou por
nepotismo mesmo.  

Em um matrimônio eleitoral, políticos adoram esperar a
paixonite morrer e dar lugar àquela relação mais estável. Nesta fase, os
parceiros deixam de reparar lentamente um no outro, focalizam em seus próprios desejos
e – em certos lares – toleram os defeitos para manter o relacionamento em
inércia.

É a hora em que os eleitores são traídos no casamento de
fachada. Por distração, omissão ou conivência.
 

Da Redação
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