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Vinicius Carlos Vieira

Saiu da faculdade de jornalismo e descobriu que não sabia fazer mais nada a não ser escrever sobre cinema. Resolveu virar crítico. Hoje, é editor e crítico do site Cinema Aqui (@cinemaqui), além de ser produtor do Nerd Cine Fest. No twitter pode ser encontrada no @vinicvieira

Aquarius

Novo filme de Kleber Mendonça Filho vence polêmica e é um dos melhores do ano. Confira a crítica.

06 de setembro de 2016 - 17:33

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bannerDe modo simplista, Aquarius é de Sônia Braga e vice-versa. Mas de modo um pouco mais embrenhado e movido pela própria filmografia do diretor Kleber Mendonça Filho, Aquarius é sobre a total falência da sociedade. Uma falência bela, hipócrita, sensível e hipnotizante.

O filme começa em 1980, com uma jovem Clara (Braga) celebrando o aniversário de 70 anos da tia, ao mesmo tempo que festeja a vitória contra um câncer. O salto de tempo leva todos à atualidade, com a protagonista ainda morando no mesmo prédio (que dá nome ao filme), mas agora com uma diferença: é a única.

Uma solidão que para ela não é um problema, mas para uma grande construtora é o empecilho de demolir tudo e levantar mais um enorme prédio para rasgar o horizonte de Recife como uma atrocidade de metal e concreto.

E ainda que Aquarius seja sobre a luta dessa mulher pela dignidade de morar onde quiser e envelhecer onde bem entender, ali logo ao lado, na periferia da própria história, está essa vontade de ser um soco no estômago. Esse retrato de uma burguesia hipócrita que nem percebe o quanto é ridícula. Que luta pela própria justiça sem nem por um segundo enxergar a justiça daqueles que estão ao seu redor.

O diretor faz então esses dois lados andarem de mãos dadas na trama. Um realismo que incomoda à cada diálogo, mas ao mesmo tempo uma precisão técnica e visual que faz todos no cinema embarcarem em uma viagem que só os grandes cineastas conseguem. Com ele, você vive a vida de Clara, sejam as vitórias, ou até suas derrotas, mas sempre com ela.

aquarius-destaqueUma câmera quase simbiótica, que não desgruda dela por nada, nem quando quer acompanhar um grupo de personagens entrando no prédio. Ao mesmo tempo, não deixa impune essa falta de capacidade dela de perceber o quando ela própria é fruto de uma sociedade rachada. Daquelas que não vê o absurdo de um cano de esgoto separar os ricos dos pobres, ou até de aceitar que a empregada roube de vez em quando, “afinal, já exploramos ela”. Uma sutileza que cria uma personagem tão complexa que você nem percebe o quanto em certo momento ela corrobora com a possível corrupção de seu irmão.

Mendonça escancara as idiotices de uma sociedade que corrói seus alicerces como cupins e se entranha nos “andares escondidos”, como um câncer. Uma inquietação que marca suas obras (como O Som ao Redor) e aqui é a cereja do bolo.

Apenas a cereja, já que o prato principal é mesmo Sonia Braga, no auge de suas capacidades e mais do que nunca fazendo jus a seu título de musa do cinema brasileiro. Cada olhar, expressão, gesto e movimento é uma lição de como criar uma personagem complexa, arrebatadora e que sai como você do cinema e perdura em sua mente por algumas horas. Braga dá vida até a mais simples das cenas, e Mendonça sabe disso, deixando sua câmera ligada enquanto vê o espetáculo acontecer.

Uma parceria que, com certeza faz de Aquarius um dos grandes filmes que você terá a oportunidade de ver no ano.

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