Meio Ambiente
Luiz Nascimento

Jornalista e professor universitário

Árvores são mais vida no ambiente em Santos

A remoção de árvores vem ocorrendo de maneira arbitrária e sem qualquer critério

01 de abril de 2014 - 12:14

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Para as pessoas que vivem em cidades grandes, que têm consciência ecológica e que estão acompanhando a destruição do planeta, morar bem é morar em locais próximos a parques e em ruas com muitas árvores e lagos, com marrecos e peixes.  Mas, nem sempre é possível encontrar um ambiente com todos esses atrativos.

Belém, capital do Estado do Pará, é um exemplo de cidade bem arborizada e cuidada. Há mangueiras plantadas por todas as ruas. Apesar do calor abrasador, o munícipe não sente toda a fúria daquela temperatura tropical e há uma preocupação do Poder Executivo com a preservação e conservação da vegetação urbana angiospermas.

Não é o mesmo que acontece em nossa cidade. A remoção de árvores vem ocorrendo de maneira arbitrária e sem qualquer critério. Na rua República Argentina com a rua Pernambuco, foi decapitada uma árvores da espécie Fícus. O mesmo aconteceu na rua Armando Salles de Oliveira com a Rua Paraguaçu, a árvore foi retirada e não se plantou nada de volta, como a legislação orienta.

Segundo a Administração Municipal, responsável pela escalpo, a razão é que “elas estão fora do padrão exigido pelo novo Plano de Arborização do Município de Santos”. Já de acordo com Segundo alguns entrevistados, a poda estava atrasada, e as árvores altas chegaram à fiação aérea, prejudicando a iluminação noturna.

Pelo código de postura do município de Santos, o Artigo 229, Parágrafo 2º, diz o seguinte: “Para que não seja desfigurada a arborização do logradouro, cada remoção de árvores importará em ponto cujo afastamento seja o menor possível da antiga posição”.

Vários moradores estão indignados com a atitude da Prefeitura. Alguns deles não quiseram se identificar porque sabem que “tem gente grossa por trás desse assassinato”. Preocupado com o que vi, entrei em contato com a Prefeitura para saber quem havia autorizado a retirada daquelas árvores. Pasmem, não tem nenhum pedido de remoção das árvores! O próprio Executivo mandou retirar as árvores, com o mais petulante argumento: elas estão fora de padrão.

Para o biólogo, com especialização em botânica pela USP, pesquisador e professor da Unisanta, Paulo de Salles Penteado, se todas as árvores “fora de padrão” forem retiradas vai ser um extermínio e a cidade vai ficar deserta.

Segundo ele, o estudo de dissertação de mestrado de Gabriela Meneghetti, que pesquisou a arborização das ruas da orla marítima da cidade de Santos em 2003, num total de 1.285 árvores pesquisadas, 60% são representadas por seis espécies: Ingá, Saboneteira, Chapéu-de-Sol, Flamboyant, Fícus e Guanandi, exatamente as que possuem sistema radicular inadequado e prejudicial ao calçamento e ou atingem a rede aérea ligada aos postes. O trabalho de Meneguetti nos aponta que, das 1285 árvores, 771 terão de ser retiradas por estarem “fora do padrão exigido pelo novo Plano de Arborização do Município de Santos”.

Esse tipo de postura vai contra o esforço mundial pela melhoria da qualidade de vida nas comunidades. Por exemplo, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano, “o mundo tem menos de uma década para mudar de rumo. Não há assunto que mereça atenção mais urgente, nem mais imediata (PNUD, 2008)”, quanto à questão da arborização das cidades.

Política ambiental justa para 2014

Mudando o foco, mas ainda na preservação da qualidade de vida e da Natureza, entendemos que os ambientalistas vão aproveitar o ano eleitoral para se organizarem em torno de uma exigência maior para empresas que não respeitarem o meio ambiente.

Medidas como tributação maior para aquelas que provocarem impacto ambiental e benefícios, como descontos no Imposto de Renda, àquelas que doarem recursos para ONGs ambientalistas. Pode parecer que as organizações estão legislando em causa própria. Mas, os ambientalistas querem investimento para reforçar o Ibama e a Funai, e vão cobrar do governo uma clareza sobre qual será a posição do Brasil na COP 21, Conferência Anual do Clima, prevista para Paris, em 2015.

Por outro lado, há, de certa maneira, medidas que nos deixam contentes. O Governo Federal e os nove estados da Amazônia Legal vão trabalhar para combater o desmatamento da região. Estão juntos para realizar esse trabalho o Ibama e as autoridades locais, e isso vai permitir a gestão florestal do bioma (conjunto de fauna e flora de uma região). A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, foi categórica: o acordo vai promover maior integração entre os governos locais e a esfera federal.

Na nossa América, 80% da população vive em cidades (PNUD, 2008) e o poder executivo nas pequenas não se preocupa com as questões ambientais, tanto que a cada dia nos deparamos com total abuso com as nossas árvores. Como dissemos acima, há poucos dias, passando ruaqs de Santos, notamos uma árvore degolada, e com muitas pedras jogadas em volta do tronco. Poderia citar mais exemplos, mas acredito que não será necessário.

Essa reflexão sobre vida e respeito ao meio ambiente encontra eco em trabalhos como o do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), organismo científico criado pelo governo brasileiro em 2009, para ajudar nas pesquisas sobre as questões ambientais. Em relatório do ano de 2013, o PBMC projeta que teremos um aumento de temperatura de 1grau Célcius (ºC) a 5º C, até o final desde século.

E estamos em pleno século 21, onde os temas ambientais estão sendo exaustivamente debatidos, para que o nosso planeta seja saudável para nós e para as futuras gerações; com respeito não só ao próximo, mas a todos os seres vivos que habitam o mesmo mundo.

Evitar a morte e atuar pela vida

Outros dados apontem que, até 2050, a poluição do ar será a principal causa das mortes prematuras por câncer de pulmão em nível global. Esta é a afirmação de uma equipe de especialistas da Universidade de São Paulo (USP), em recente artigo publicado pela revista Nature. Países em desenvolvimento são apontados como os mais vulneráveis a este mal.

Portanto, diante de quadro como esse, global e local, é de causar dor no coração ver a Prefeitura de Santos destruir o patrimônio da humanidade, as nossas árvores.

Plantar árvores pode parecer algo menor, diante de outros problemas ambientais, mas nos ajuda a proteger o planeta. Com elas, teremos mais oxigênio e sombra. É preciso que saiamos da zona de conforto, de observação do respeito, e passemos à ação em defesa da vida.

As árvores e as matas são a esperança do ser humano, ele precisa do verde para viver e se relacionar com o próximo. O vazio de uma área verde leva-nos a não celebrar a condição humana. Nossos sistemas de valores não podem ser objetivos, mas, sim subjetivos, como ressalta a ONU. Devemos compromisso com a equidade social, atualmente é necessário que o meio ambiente prevaleça sobro o meio econômico. Não podemos esquecer que a Rio+20 tratou de assuntos relevantes para a população mundial: poluição do ar, a produção de alimentos, o uso crescente de agrotóxicos e a escassez de água.

A questão é estarmos atentos, com senso crítico apurado, para avaliarmos as informações dos meios dominantes e atuarmos para a difusão da verdade.