Banalização da morte | Boqnews

Ponto de vista

Banalização da morte
Dados do 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados recentemente revelaram um dado extremamente preocupante: no ano passado, oito pessoas foram mortas diariamente por policiais, totalizando 3.022 casos, um aumento de 37,2% em relação às 2.203 mortes causadas pelas forças de segurança em 2013. É uma taxa de violência letal, que figura entre as mais altas conhecidas no mundo, comparáveis a de regiões em estado de guerra. O avanço da criminalidade no País, perceptível principalmente nos grandes conglomerados urbanos, já suscita sentimentos de descrença e revolta na população, que cada vez mais demonstra apoio a medidas radicais e ao uso da força por parte da polícia. Pesquisa Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada esta semana, evidencia esse sentimento: metade das 1,3 mil pessoas consultadas em 84 municípios com mais de 100 mil habitantes, concordaram com a afirmação de que “bandido bom é bandido morto”, enquanto que 45% discordaram da afirmativa. Na quase totalidade dos casos, a matança no Brasil é justificada como sendo “autos de resistência”. A maioria das vítimas têm em comum o fato de morar em favelas e periferias. São execuções cometidas por policiais em serviço, fora do serviço, integrantes de esquadrões da morte ou de milícias, assassinos de aluguel e as mortes de internos nas prisões. Por mais de uma vez, organismos internacionais denunciaram o uso de força policial excessiva, estimulado por autoridades governamentais, que têm levado à morte de suspeitos de crimes, que deveriam ser apenas presos, e de pessoas inocentes atingidas nas proximidades dos locais de operação. Há consenso da necessidade de adoção de medidas duras contra o avanço da criminalidade, porém as ações não podem prescindir do respeito às leis e à preservação dos direitos humanos, sem o que se estará consagrando um estado de barbárie. A quantificação da violência deixa mais do que clara a urgente necessidade de priorizar profundas mudanças nas instituições policiais brasileiras, com o aperfeiçoamento dos métodos utilizados até aqui e, sobretudo, com a valorização e qualificação dos profissionais que atuam nessas corporações. Sem contar com infraestrutura adequada, com sistemas de formação deficientes e oferecendo salários incompatíveis com a realidade que a atividade requer, a polícia brasileira já assemelha-se a uma facção em meio aos conflitos urbanos estabelecidos, onde mata-se para não morrer. A sociedade brasileira não pode aceitar passiva a continuidade dessa triste realidade, sem exigir providências concretas das autoridades constituídas, ações que também devem incluir maior atenção às áreas sociais para tentar conter a guerra silenciosa que hoje, como se vê, está estabelecida na prática.
11 de outubro de 2015

Banalização da morte

Dados do 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados recentemente revelaram um dado extremamente preocupante: no ano passado, oito pessoas foram mortas diariamente por policiais, totalizando 3.022 casos, um aumento de 37,2% em relação às 2.203 mortes causadas pelas forças de segurança em 2013. É uma taxa de violência letal, que figura entre as mais altas conhecidas no mundo, comparáveis a de regiões em estado de guerra. O avanço da criminalidade no País, perceptível principalmente nos grandes conglomerados urbanos, já suscita sentimentos de descrença e revolta na população, que cada vez mais demonstra apoio a medidas radicais e ao uso da força por parte da polícia.
Pesquisa Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada esta semana, evidencia esse sentimento: metade das 1,3 mil pessoas consultadas em 84 municípios com mais de 100 mil habitantes, concordaram com a afirmação de que “bandido bom é bandido morto”, enquanto que 45% discordaram da afirmativa. Na quase totalidade dos casos, a matança no Brasil é justificada como sendo “autos de resistência”.

A maioria das vítimas têm em comum o fato de morar em favelas e periferias. São execuções cometidas por policiais em serviço, fora do serviço, integrantes de esquadrões da morte ou de milícias, assassinos de aluguel e as mortes de internos nas prisões. Por mais de uma vez, organismos internacionais denunciaram o uso de força policial excessiva, estimulado por autoridades governamentais, que têm levado à morte de suspeitos de crimes, que deveriam ser apenas presos, e de pessoas inocentes atingidas nas proximidades dos locais de operação.

Há consenso da necessidade de adoção de medidas duras contra o avanço da criminalidade, porém as ações não podem prescindir do respeito às leis e à preservação dos direitos humanos, sem o que se estará consagrando um estado de barbárie. A quantificação da violência deixa mais do que clara a urgente necessidade de priorizar profundas mudanças nas instituições policiais brasileiras, com o aperfeiçoamento dos métodos utilizados até aqui e, sobretudo, com a valorização e qualificação dos profissionais que atuam nessas corporações. Sem contar com infraestrutura adequada, com sistemas de formação deficientes e oferecendo salários incompatíveis com a realidade que a atividade requer, a polícia brasileira já assemelha-se a uma facção em meio aos conflitos urbanos estabelecidos, onde mata-se para não morrer.

A sociedade brasileira não pode aceitar passiva a continuidade dessa triste realidade, sem exigir providências concretas das autoridades constituídas, ações que também devem incluir maior atenção às áreas sociais para tentar conter a guerra silenciosa que hoje, como se vê, está estabelecida na prática.

Humberto Challoub
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.