Estação X
Diego Corumba

Jornalista especializado em games

Braços

Um jogo da Nintendo. Comandos de movimento. Você tem de usar o seu corpo para vencer. O que pode dar errado? Na coluna dessa semana, reflita se a técnica e habilidade contam no resultado final

15 de agosto de 2017 - 12:06

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Desde que adquiri um Nintendo Switch, tive belas surpresas com o aparelho da Nintendo. O primeiro jogo que peguei junto ao console foi The Legend of Zelda: Breath of the Wild, que literalmente me largou sozinho no meio daquela enorme Hyrule sem saber direito onde ir para me fortalecer e o que buscar. Simples assim. Já é um game finalizado, mas foi incrível descobrir pedaço por pedaço (mesmo sem ter completo ele 100%) junto ao herói Link. Super Bomberman R eu mal consigo fechar sozinho, diria que é um feito e tanto (apesar de eu ter QUASE conseguido uma vez), Mario Kart 8 Deluxe também me desafiou de formas que eu ainda nem ousei completar o modo 200cc. Por fim, veio ARMS…

A Ribbon GIrl pode parecer boazinha, mas é uma das desafiantes mais impiedosas do jogo.

Personagens carismáticos, comandos por movimentos do controle Joy-Con, apenas um game de luta, o que poderia dar errado caro leitor? A palavra “tudo” resolve essa questão. O tutorial achei um pouco “pesado”, apesar de ter pensado que estava apenas enferrujado. Quando o jogo inicia de verdade, você pode escolher dentre os vários modos e um deles é o Grand Prix. Para quem jogou Street Fighter ou Mortal Kombat na vida, é o famoso enfrentar lutador por lutador, subindo os degraus para encarar o grande chefão. Das sete dificuldades, escolhi a quarta. “Intermediário” ou “Normal”, imaginei. Nada muito “Fácil”, afinal de contas tenho mais de 20 anos jogando. Respeito, por favor. Me aventurar no “Difícil” de início também achei loucura, esforço desnecessário (após um dia de trabalho, eu trabalharia também no dia seguinte…). E o que aconteceu: não passei nem perto de ver o rosto da vitória. Vexame.

Caros leitores, juro que sentei, respirei fundo e cheguei à conclusão de que eu definitivamente estava enferrujado. Não era possível. Será que eu estava cansado demais? Falta de costume com comandos de movimento? Levantei da cama e fui tentar novamente. Nunca fui de me abater, foi só um “golpe de sorte” do videogame (com o perdão do trocadilho). E o “golpe de sorte” se repetiu outras cinco tentativas. Meus braços ardiam de tanto que tentei desferir meus socos corretamente antes de ser pulverizado pela Nintendo e seus jogos.

O olhar intimidador de Kid Cobra não foi o suficiente para me garantir a vitória nos ringues de combate de Arms.

Diminuí da quarta dificuldade para a terceira e me contentei em vencer alguns confrontos no modo mais simples. Usei tudo que podia para treinar. Vi as funções de cada braço e o que possuíam de vantagens/desvantagens. Como personagens diferentes podiam definir certos combates mais rapidamente perante outros. Que o modo “Treinamento” deste game se fazia necessário. Não apenas ele, existem outros modos como o “Vôlei” e “Basquete” que te colocam contra a parede de diferentes técnicas e suas utilizações em diferentes versões.

Antes que cheguem à conclusão que sou um péssimo jogador (o que me nego a admitir, sei que sou mediano, nada de espetacular, mas venço uma coisa ou outra a mais por aí), no dia seguinte estava intrigado. Me questionei mesmo. Nem sempre somos bons em tudo pessoal. Eu sempre fui feliz passando de fases, enfrentando tudo quanto é tipo de vilões, será que tinha encontrado meu limite? Arms me fez questionar tudo que aprendi sobre videogame e botar a mão na cabeça se encontrara minha primeira barreira real (coisa que imaginei acontecendo apenas com Dark Souls/Bloodborne da vida).

Para a minha sorte (ou não), eu nem fui o primeiro e nem o último que foi exterminado dos ringues no Nintendo Switch. Toda a comunidade online do jogo, em fóruns, discute a dificuldade absurda que o game impõe. Li relatos em críticas de pessoas que tiveram dificuldade de passar pelo tutorial (o que me fez respirar um pouco aliviado, confesso, passei de primeira), gente como eu que se viu obrigado a iniciar o game no 3º dos sete níveis de dificuldade e um tanto que estava se gabando de ter progredido.

 K.O.

Vendo todo esse cenário, a Nintendo me fez sorrir novamente. Desculpem o palavreado, mas essa infeliz consegue surpreender até onde imagina que sejam coisas bestas. Desgraça de empresa. Ela não estava falando “você encontrou uma barreira/nesse você é ruim”. Ela me disse “Você quer alcançar as maiores dificuldades? Tem de merecer”. Treinar. Usar os diferentes tipos de braços e ver o que se adequa melhor em cada confronto. Saber dominar o personagem que escolho. E essa escolha me fez gostar ainda mais de Arms. Alguém aqui ouviu o discurso do Rocky do filme? (famoso pelo motivacional que joga em nossa cara). É isso que o game me mostra. Posso ser o melhor. Mas tenho duas escolhas: sentar e reclamar ou treinar e não me deixar abater.

Na minha última empreitada com o game, consegui vencer um hall de sobrevivência contra 100 lutadores e um chefão ao final de todos. Isso nunca teria acontecido se não tivesse me preparado para enfrentar o desafio. E não é assim na vida? Na lição de moral de hoje, vemos que as dificuldades surgem para nosso crescimento, caro leitor. Assim como o He-Man no final de cada episódio, bem na cara-de-pau mesmo. Nada acontece sem que possamos tirar um aprendizado daquilo. Uma mão na cabeça de forçar você e eu a nos esforçarmos, lutarmos e nos superarmos. O jeito como estamos hoje não é bom, nem raspa perto disso. Temos de quebrar tudo e reconstruir. Ressurgir melhor, aprimorado. Mais capaz. [insira outro substantivo de empoderamento aqui].

Será que você conseguiria alçar seu caminho de vitórias até o chefão final, o campeão Max Brass?

Assim como The Legend of Zelda: Breath of the Wild renovou minha vontade de querer explorar e descobrir o que cada pedaço daquele mundo pode me oferecer, Arms me trouxe a renovação da vontade de me aprimorar. De compreender que nem tudo será me oferecido de mão-beijada e que tenho de lutar para conquistar meu “lugar de direito”. Literalmente, nesse caso. Um simples jogo, numa capinha colorida e sem pretensão alguma, também pode ensinar grandes lições. Te fazer repensar de que, por mais que alguns eventos são estáticos, um “sacode” tem de acontecer. Sair da zona de conforto nem sempre é para o pior. E uma certeza eu tenho, sair da zona do conforto sempre oferece uma mudança significativa. Que tal aceitar essas mudanças da vida?

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