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Ponto de vista

Cadê o Sol que estava ali?
26 de março de 2026

Cadê o Sol que estava ali?

Alessandro Lopes

O primeiro dia em que o sol falhou não foi anunciado.

Ninguém avisou. Não houve manchete, nem decreto. Só uma ausência pequena, quase educada.

Eu estava no mesmo lugar de sempre, no mesmo horário de sempre, esperando o gesto antigo do mundo: o sol descendo inteiro até tocar o mar.

Mas ele veio interrompido.

Uma parte ficou presa atrás de um edifício recém-erguido, ainda com poeira nas janelas.

O restante tentou seguir, como quem atravessa uma porta estreita carregando o próprio corpo pela metade.

Eu não estranhei na hora.

Estranhei no dia seguinte.

E no outro.

Até perceber que não era o sol que estava diferente.

Era o caminho.

Na infância, nos anos 1950, o horizonte não era paisagem. Era acordo. Havia poucos casarões, espaçados, com jardins que deixavam o vento circular e a luz passar sem pedir licença.

O sol não precisava ser visto. Ele simplesmente acontecia.

A cidade, naquele tempo, ainda sabia recuar.

Depois, aprendemos a avançar sem saber parar.

Não foi erro. Foi método.

Vieram números antes dos edifícios: coeficientes, índices, permissões. O território virou cálculo. E o cálculo não reconhece o que não cabe nele. O horizonte, por exemplo, nunca coube.

O primeiro prédio alto parecia um acidente.

Mas não era.

Era um aviso que ninguém leu.

Nos anos seguintes, o aviso virou regra. Um edifício chamava outro, não por acaso, mas por autorização.

A orla deixou de ser linha e passou a se comportar como bloqueio. Um muro contínuo, caro, bem-acabado, aprovado.

E ninguém chamou de muro.

Foi ali que perdi o sol pela primeira vez.

Eu lembro do lugar exato. Um banco de concreto, quente ainda do dia, com ferrugem aparecendo nas bordas. Eu sentei, como sempre fazia, e esperei.

O sol não veio inteiro.

Eu levantei.

Dei dois passos para o lado.

Ele apareceu de novo.

Foi simples assim.

E foi aí que a gente começou a perder.

Porque naquele gesto mínimo, quase automático, eu aceitei uma perda que não era só minha. Ajustei o corpo para uma cidade que começava, discretamente, a reduzir o que era de todos.

Depois disso, nunca mais parou.

A perda ganhou ritmo.

Perdi o sol em parcelas. Primeiro um canto. Depois uma faixa. Depois a certeza de que ele não chegaria mais inteiro de lugar nenhum.

O pôr do sol virou técnica.

Quem sabe onde ficar ainda vê.

Quem não sabe, aprende tarde demais.

Hoje tenho muitos anos.

A orla deixou de ser linha e passou a se comportar como bloqueio. Um muro contínuo, caro, bem-acabado, aprovado. E ninguém chamou de muro.

Continuo caminhando. Não por saudade. Saudade ameniza demais o que aconteceu.

Eu caminho porque ainda não consigo aceitar que a cidade pode amputar o fim do dia e chamar isso de evolução.

O sol ainda aparece.

Mas não se deita mais no mar.

Ele bate nos prédios e volta. Escorre pelas fachadas. Fica preso em vidros que brilham mais do que aquecem.

Às vezes parece mais intenso, mas é uma intensidade vazia. Uma luz sem destino.

E ninguém estranha.

Essa foi a construção mais eficiente.

Não foram só os edifícios que subiram. Foi a nossa capacidade de aceitar menos. A cidade ensinou. A gente aprendeu rápido demais.

A verticalização não é o problema.

O problema é quando ela acontece sem pergunta.

Quando cada novo andar não responde a um projeto de cidade, mas apenas à possibilidade de existir. Quando o que é comum deixa de ser critério e passa a ser sobra.

Nós não só construímos edifícios.

Nós construímos obstáculos.

Outro dia, um menino parou ao meu lado.

Ficou olhando para frente, tentando entender por onde o sol ainda passava. Demorou mais do que eu demorava quando tinha a idade dele.

E perguntou:

“Ele sempre foi assim?”

Eu pensei em explicar. Falar de leis, de mercado, de décadas de decisões acumuladas. Pensei em dizer que aquilo era inevitável, que as cidades crescem, que o mundo muda.

Mas nenhuma dessas respostas era honesta o suficiente.

Então eu disse:

“Não. A gente foi deixando.”

Ele ficou em silêncio.

E continuou procurando.

Eu também.

Mas já não procuro o sol.

Procuro o intervalo que existia antes dele desaparecer por partes.

Procuro o espaço onde o dia conseguia terminar sem esbarrar em nada.

Porque o sol continua fazendo o mesmo caminho, todos os dias, com a mesma precisão.

Nós é que decidimos, pouco a pouco, colocar coisas demais no meio.

E agora, no fim da tarde, a cidade não escurece devagar.

Ela interrompe.

Como uma luz que alguém apaga antes da hora.

E talvez seja isso que mais pesa.

Não é que o sol tenha sumido.

É que a gente se acostumou a não ter.

Por isso a pergunta continua voltando, sem cuidado nenhum:

Cadê o sol que estava ali?

E, pior:

o que mais a gente já perdeu e fingiu que não era nada só porque ainda dava para dar dois passos para o lado?

 

 

Alessandro Lopes
Alessandro Lopes, Arquiteto e Urbanista, Pesquisador em Inovação, Sustentabilidade, Infraestrutura Urbana e BIM. Consultor Regional ICT Multiplicidades
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