Meio Ambiente
Luiz Nascimento

Jornalista e professor universitário

Calor intenso reforça alerta sobre mudanças climáticas

03 de abril de 2014 - 14:06

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Os moradores da Baixada Santista vêm sofrendo desde o final de 2013 com altas temperaturas, um desconforto ainda maior para quem anda de ônibus sem ar condicionado. Nesse aspecto, um comentário: quem cuida do transporte público em nossa cidade trata o munícipe como carga, o que é lamentável. E posso falar sobre isso porque tambémsou vítima dessa situação.  Mas, sigamos em nosso levantamento de informações e análise, já que o tema é mais abrangente.

A revista Guaiaó, número 1, de novembro de 2012, página 16, cita trecho interessante do livro “150 anos de Café”, de Marcelino Martins e E. Johnston, que nos relatam uma característica da região que precisa ser levada em conta: “O fato de Santos estar localizada numa baixada, sem proteção eficaz contra o mar, cria problemas. O calor da cidade pode ser sufocante, pois os ventos do mar não penetram muito no interior da cidade. Daí o incomodo”.

E nesse clima, a Dengue está se proliferando, um ambiente de Canícula (calor atmosférico), propício ao Aedes Aegypti (mosquito transmissor da doença). Sua multiplicação é muito rápida, pois entre 7 e 10 dias pode atingir a fase adulta, e se a fêmea estiver contaminada, ocorre a transmissão da doença. A cidade já contabiliza 378 casos confirmados, só neste ano. Estes números já são superiores a 2013, no mesmo período.

Esperamos que Santos não chegue ao absurdo de 2013, com 9.754 pessoas contaminadas, o que caracteriza uma epidemia (ou seja, quando são confirmados 100 casos para cada 100 mil habitantes, e segundo cálculos adotados pela Secretaria de Saúde do Estado, o Município tem uma população estimada em 420 mil pessoas).

Mas, as fêmeas do mosquito estão pondo seus ovos e com a água da chuva que virá, e que tanto esperamos, os ovos eclodirão e novas larvas surgirão. Assim, a aparência é a de uma tragédia anunciada.

Diante disso, o Poder Executivo Santista não pode só se preocupar, por exemplo, em contratar assessores, 50 para quatro diretores e o presidente, na CET, o que nos parece um visível excesso, diante de outras carências.

É necessária uma ampla campanha de educação! E uma campanha que vá além da Dengue e do momento de calor intenso e suas condições e necessidades especiais. Um movimento que desperte a consciência sobre problemas ainda maiores, que poderão ocorrer se não houver a compreensão sobre as mudanças que estão ocorrendo no planeta, provocadas pela ação do Homem.

Momento crítico e evidências

Mudanças climáticas já são cada vez mais consenso na comunidade científica. O trabalho de 1.327 pesquisadores climáticos, analisado nos parâmetros rígidos da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (ProceedingsoftheNationalAcademySciences), deixa claro que as atividades humanas têm contribuído para o processo de aquecimento do globo. Todos as informações deixam evidências de que a emissão de gases de efeito estufa configura-se no vilão do aquecimento global.

Por outro lado, em reação a essa constatação, grandes empresas ligadas às áreas de exploração de petróleo e carvão se tornaram as responsáveis por desacreditar publicações sérias, que vêm se colocando em defesa de uma nova ordem ligada as questões ambientais. Uma nova fase para a qual, felizmente, governos, comunidade científica e sociedade vêm cada vez mais mostrando interesse, numa luta contra as mudanças climáticas causadas pelo desequilíbrio da ação humana.

Para mostrar aos céticos elementos concretos, as pesquisas apontam, por exemplo, que os lagos na costa do Alasca vêm sofrendo alterações importantes nas duas décadas passadas, de 1991 a 2011. O estudo, publicado na revista Cryosphere, diz que a camada de gelo foi reduzida em 22% nos últimos 20 anos. Cristina Surdu, uma das pesquisadoras principais, diz estar perplexa: “Estou chocada ao observar uma redução de gelo tão dramática em um período de apenas 20 anos”.

Como prova de preocupação, de ação concreta e de um avanço, a ONU tem se mostrado como uma das entidades que mais se envolve nas questões climáticas e, como medida objetiva, acaba de nomear o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, como enviado especial para o encontro Cidades e Mudanças Climáticas, com o objetivo de ajudar o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon.

Bloomberg já vem atuando como o responsável pelo grupo C40, de Grandes Cidades para a Liderança do Clima, formado por várias cidades ao redor do mundo e que tem como atuação discutir a redução dos gases de efeito estufa. O próximo encontro foi marcado para este mês, em Johannesburgo.

Ban Ki-Moon deixou bem claro que “o enviado especial da ONU para cidades e mudanças climáticas precisa ser um visionário, para que sejam alcançadas metas ambiciosas, o mais rápido possível”.

Que assim seja, no âmbito internacional e nos níveis regional e local, no sentido de que as autoridades, lideranças e toda a comunidade possam evitar piores momentos em nosso meio ambiente, nosso planeta, nossa região, nossa cidade, embora os sinais e reflexos nocivos já estejamos sentindo diariamente na própria pele, quando saímos de casa e encaramos o sol, respiramos e percebemos a nítida redução dos recursos naturais.