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Opiniões

12 DE FEVEREIRO DE 2016

Carnaval confuso

Por: Da Redação

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O desfile da escola de samba Grande Rio iluminou velhos sentimentos presentes na cultura santista, que costumam ser negados em falsos exercícios de autocrítica. Provincianismo e bairrismo foram palavras usadas inúmeras vezes, em dedos apontados para outro, seja para esconder o fracasso do Carnaval, seja para encobrir a própria arrogância de quem se encaixaria em um dos dois comportamentos.

Não sou especialista em desfiles carnavalescos, embora tenha experiência em coberturas jornalísticas. Não vejo necessidade de discutir quesitos técnicos, notas ou avaliações de ordem subjetiva, que pouco ultrapassam o gosto pessoal – de muita gente que se passa por expert, inclusive – do que é feio, bonitinho ou lindo.

Não é preciso ser professor de História para notar que a escola de samba carioca afundou nos clichês, se apoiou em exemplos distorcidos de fundo midiático, como Roberto Carlos e Mamonas Assassinas, e desperdiçou a pesquisa histórica feita por profissionais da Fundação Arquivo e Memória de Santos. Esperava mais profissionalismo e sensibilidade de quem recebeu R$ 15 milhões para organizar um espetáculo.

Aí está o início do problema: o dinheiro. O problema em torno do Carnaval é muito mais profundo do que os adereços e suas cores.A retórica política e o marketing tentaram transformar um processo de compra e venda em homenagem. Não existem homenagens quando falamos de cidades ou países como tema de enredo. Existem ofertas de presente, desde que o aniversariante pague a festa, com bolo e velas.

Santos pagou, via empresas, para ser representado na avenida. É claro que as empresas fazem o que quiserem com seus investimentos, mas o que incomoda é, em primeiro lugar, a ação de pormenorizar a forma como a Grande Rio se interessou por Santos – prática recorrente de várias escolas de samba -, mas também a dúvida em torno do ímpeto para que recursos do mesmo nível sejam colocados em projetos culturais locais. Dos festivais aos grupos de artistas, todos passam anualmente por partos dolorosos para que suas ideias nasçam e cresçam como eventos concretos.

O desfile da Grande Rio também mascarou as contradições em torno da política pública de turismo, que pouco avança além de sustentar a fama de Santos como cidade de veraneio. No ano passado, ao cobrir o Carnaval daqui, ouvi de todo tipo de gente – era o mantra da ocasião – que o desfile deveria ser profissionalizado de vez, com atitudes em torno da festa em si, e não de posturas isoladas de escolas. Ouvi também, com muita curiosidade, as promessas de que o desfile estaria atrelado ao turismo, com ideias inúmeras de que os visitantes seriam atraídos para a passarela do samba, na Zona Noroeste.

De cara, a contradição na mudança de data dos desfiles. O servilismo travestido de marketing e traduzido no complexo de vira-latas ignorou qualquer potencial turístico da festa, em Santos. Antecipar em uma semana é, óbvio, descartar os turistas que viriam para o Carnaval. Ou alguém acredita que milhares de pessoas trocaram sua programação para ver o desfile das escolas de samba de Santos? As arquibancadas parcialmente vazias servem de evidência.

As incoerências tiveram um desfecho complicado na apuração das notas. Mais do que choradeira, as acusações de manipulação fizeram ruir o discurso de tudo bem. Mas as escolas não assinaram a contratação de jurados cariocas? Por que abandonaram a ideia de anos atrás, que envolvia cursos para a formação de um corpo técnico em Santos? Falar em dinheiro investido não é a garantia de vitória na avenida ou de desfile contagiante. A Grande Rio está aí para nos ensinar.

Quem sabe o Carnaval de 2016 ilumine cabeças provincianas e bairristas? Antes de pensarmos em realizar desejos megalomaníacos em ano de eleição, poderíamos nos concentrar em tapar os buracos do quintal de casa. Carnaval é um elemento essencial da nossa cultura e merece muito mais do que um sabonete de embalagem duvidosa na prateleira e vendido com palavras bonitas.

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