Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Conluio à imoralidade

Os congressistas optaram pela submissão, preferindo se locupletar com benesses, cargos e espaços de poder

26 de outubro de 2015 - 06:00

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Evocando amplo direito de defesa, confiante no respaldo de correligionários e no cumprimento de acordos firmados com diversos partidos, sobretudo os que fazem oposição do Governo Federal, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, desfila toda a sua arrogância ao bradar sua disposição de permanecer no cargo até o final de seu mandato, apesar das evidências cada vez mais claras de seu envolvimento como um dos beneficiários dos recursos desviados da Petrobras, valores que acabaram em contas abertas em bancos na Suíça conforme atestado em documentos enviados pelo Ministério Público daquele país às autoridades brasileiras.

E, ao que parece, Cunha tem a certeza da impunidade, haja vista a falta de disposição demonstrada por boa parte dos deputados em dar sequência a um possível processo de cassação de seu mandato. Assim, fazem vistas grossas à atestada falta de decoro protagonizada pelo presidente da Casa, consagrando assim um verdadeiro conluio, onde poucos ainda dispõem de envergadura moral para acusar sem ser acusado. Como se isso, por si só, já não representasse total descrédito à Câmara Federal, soma-se também o melancólico desfecho da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada para apurar os crimes de corrupção na Petrobras, contraditoriamente conclusivo e enfático em destacar a inocência dos principais envolvidos na sórdida trama que denegriu a imagem do País e dilapidou o patrimônio pertencente a milhares de brasileiros.

Em ambas as situações, os congressistas optaram pela submissão, preferindo se locupletar com benesses, cargos e espaços de poder concedidos em contrapartida, deixando de lado o honroso compromisso que deveriam assumir na função: trabalhar como legisladores comprometidos em fiscalizar, elaborar e aprimorar leis voltadas a preservar os interesses da população. A dignidade, altivez e autonomia por vezes evocadas no intuito de salvaguardar o papel constitucional do Congresso, convenhamos, são substantivos que há muito deixaram de constar nos dicionários de grande parte dos deputados e senadores. Hoje são termos aludidos apenas nas retóricas de conveniência.
No entanto, o atual momento de decepção com as instituições representativas não pode frustar as perspectivas de um futuro melhor para o País que, há muito já se sabe, deve dedicar maior atenção à formação educacional das novas gerações, em todos os seus níveis. Sem ações consistentes nessa área torna-se impossível construir uma nação moderna e justa com seus habitantes, por meio da escolha de representantes qualificados e comprometidos com o bem comum. O Brasil pode e deve contrariar a tendência pessimista sublimando o estado democrático de direito, pois é esse, por certo, o único caminho possível para reaver a honestidade e a moral perdidas.