Estação X
Diego Corumba

Jornalista especializado em games

Crise de Relacionamento

Quando um namoro entra em desacordo com o videogame, o que deve ser repensado? A forma como nos relacionamos com a tecnologia pode nos dizer quem somos e definir alguns aspectos que precisem ser avaliados.

24 de julho de 2017 - 12:07

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Aniversário, dia de ficar em casa e descansar. Namorada vem, almoçamos com minha família e durante a tarde, porque não uma partida de videogame? Como parte do projeto “Iniciativa Games” que proponho (leia como “empurro”) para ela, decidi pegar leve e ensinar a jogar Mario Kart 8 Deluxe, de Nintendo Switch, para conhecer os comandos, ambientação e tudo mais. Até aí, o sonho sendo realizado com sucesso. Então, prossegui para Super Bomberman R. Desafio simples: implantar a bomba e fugir dela. Não tinha erro. Só que eu reparei que havia mais fugas do que destruição. Quando questionada sobre a razão de não sofrer nenhum ataque, ouço a seguinte frase: “Eu não vou te matar”.

Bomberman é um game onde seu principal objetivo é explodir seus obstáculos, mesmo que sejam outros personagens.

Caros leitores, antes que se perguntem a conclusão disso, me deixem esclarecer algo. Eu nunca imaginei ouvir essa frase. No “contrato” não estava escrito que estava num relacionamento sério com o Shun de Andrômeda (se entendeu a referência, ganhou um ponto). Eu olhei bem profundamente nos olhos dela e pensei “O que eu faço?”. Brincadeiras à parte, devia ter esperado essa reação. Tive de convencê-la de que os Pokémon não MORRIAM quando acabava seu HP quando começamos a versão Alpha Sapphire (tirando aquele pequeno Raticate de Pokémon Red/Blue). Mas, como mostrar para uma pessoa que ela pode jogar algo sem “matar” as coisas ao redor?

Parando para analisar os fatos, reparei que 99% dos games são nessa pegada. Até mesmo os mais icônicos como Mario, Sonic, Crash, Bomberman, entre outros. Para uma pessoa extremamente pacífica, o que a levaria a matar os bichos inocentes que estão entre você e o chefão final? Convenhamos, aquele exército de Koopa Troopa, bichinhos e criaturas bonitinhas das fases não nos fez mal algum. Nosso problema são com os vilões. Teria como chegar para ela e dizer “Olha amor, para passar de fase você tem de pegar a bomba e explodir esses bichinhos que não tão fazendo nada”? Ou “Pula na cabeça da tartaruga, pega o casco dela e joga pra derrubar os outros”?

Não me entendam errado, eu AMO e VIVO disso. O alimento da minha alma é a devastação destes seres da minha frente, usando de todos artifícios que o jogo me oferece para mandar o que for para o espaço sideral. Mas eu acabei concordando com ela. Não há uma motivação REAL em aplicar a violência na maioria dos jogos. Se é o que está pensando, eu também sei que também não há como eles funcionarem sem isso de forma adequada. Estamos presos dentro de um ciclo? Ou isso é feito por causa da nossa natureza que precisa dessas coisas?

Jogos de guerra e  tiro são populares pela violência explícita que revelam durante o game. Battlefield 1 é uma demonstração real dos horrores da Primeira Guerra Mundial. 

Comecei a pensar e refletir sobre vários outros games, reparando que será bem difícil quebrar a barreira do pacifismo que ela possui (e, infelizmente, me afetou). Até o meu jogo favorito deste ano, The Legend of Zelda: Breath of the Wild, não escapa disso. Isso sem comentar Battlefield, Call of Duty, GTA entre outros que são conhecidos justamente por ter um teor violento e sem limites. Aceito a justificativa de que são jogos de guerra e crime, habituados a este clima. Mas não estamos meio sobrecarregados e sem muitas opções fora disso?

Aceito valer citar jogos de esportes como FIFA, NBA, Tony Hawk’s Pro Skater, jogos de corrida no geral que não apelam a este mercado. Porém, pensar que chegamos ao século XXI, com uma tecnologia absurda em relação a uma década atrás, com games cada vez mais elaborados e próximos da realidade…e não conseguimos transpor algo que seja agradável, de fato, a todos os tipos de pessoas me parece “preguiçoso”. Conheço a pessoa que tenho ao meu lado. Ela aceita os videogames e os enxerga como forma de cultura. Mas, pela maneira que ela vive, não vê a necessidade de pegar um simples “boneco” e matar o outro. E isso tem demais.

Antes que joguem pedras na minha namorada, atendo uma infinidade de clientes que buscam games que não tenham apelo violento e que sejam bacana para seus filhos ou netos. Pais que cresceram com Pitfall ou até mesmo Pac-Man e acreditam no potencial dos videogames como entretenimento. Até o mais “pacífico” de todos, da linha LEGO, envolve brigas e confrontos. O que eu indicaria nesse caso? Minecraft? (nada contra, mas também absolutamente nada a favor).

Nem mesmo a graça e simpatia de LEGO consegue escapar da fórmula

Como citei anteriormente, tenho Mario Kart 8 Deluxe como opção, Life is Strange (que apesar de ter uma briga aqui no começo e ali no final, não é o foco geral), Just Dance, Rocket League…mas nada duradouro ou que ofereça um aprofundamento que os games em geral possuem hoje. Devo assumir que tenho um problema com meu par romântico ou que o mundo dos jogos eletrônicos tem uma dificuldade qual não conseguem superar (e nem parecem estar tentando)?

Como disse, isso não é uma reclamação pessoal e íntima da minha parte, mas acredito fielmente na inclusão e união de gostos através de uma plataforma. E quando não vejo isso, independente para quem seja, acredito que existe uma falha. Para mim, falhas existem para serem revistas e cobertas. Se um dia minha namorada decidir matar e destruir e pilhar coisas no videogame, abraçarei esse lado (na maior alegria do mundo, confesso). Mas se a decisão dela hoje não é fazer nada disso, eu também tenho de aceitar. E qual é mesmo o problema da indústria eletrônica pensar dessa maneira?

A violência não resolve tudo, vivemos numa realidade onde nos é aconselhado desde crianças que saídas inteligentes e diálogo podem ser a resposta que procuramos. Que a guerra não causa bem para nenhum lado. Que os confrontos são necessários, mas não sem uma motivação forte ou sem desejo de progresso. Se propagamos isso nas nossas vidas, nas redes sociais, aos nossos filhos e crianças, qual o problema de cobrarmos um posicionamento de ao menos ter atenção para este público? Até mesmo no meio musical temos este debate, com “Where’s the Love” de Black Eyed Peas ou “Heavy” de Linkin Park. Assim como filmes, livros e todo material cultural que nos ajuda a desenvolvermos durante a vida. Se gritamos que videogame também é forma de propagar cultura, então é hora de começarmos a discutir o papel que os jogos desempenham na realidade que vivemos.