Do prato de luxo ao prato vazio: o abismo entre quem governa e o povo | Boqnews

Ponto de vista

8 de abril de 2026

Do prato de luxo ao prato vazio: o abismo entre quem governa e o povo

Rosana Valle

O País se viu, em plena Páscoa, em meio a manchetes e a imagens indiscutivelmente simbólicas: de um lado, a carne de paca, iguaria rara e cara, servida à mesa farta de quem governa o Brasil, sob o signo da Esquerda e em “defesa” da Justiça Social e do simples; na outra ponta, o vazio no prato de quem trabalha duro (isso quando tem ocupação laboral) e mal consegue alimentar a família e fechar as contas no fim do mês.

Não se trata, aqui, de figura de linguagem. Basta acessar jornais e portais para encontrar o óbvio escancarado: a desconexão entre o Brasil real, do povo, e o multiverso dos governantes.

É claro que há liturgias inerentes aos cargos, mas essas devem ser exercitadas tal qual o bom senso.

A fartura na mesa de quem se diz representante dos menos favorecidos pode ser mal interpretada, afinal, deixando ainda mais evidente o abismo da desigualdade social.

Vamos aos fatos: num aspecto, temos o brasileiro no supermercado, tentando “multiplicar os pães”, mas se rendendo, sem escolhas, à subtração.

O preço da carne subiu, nos últimos tempos, ao passo em que outros alimentos da cesta básica pressionam o orçamento.

Logo, a substituição de itens virou rotina. Muita gente já não compra o que gostaria, ou o que precisa, mas, sim, o que cabe no bolso – isso, quando compra!

Do outro lado, a primeira-dama do Brasil, Rosângela Lula da Silva, a Janja (PT), exibe nas redes sociais um almoço de domingo pascal com paca – roedor silvestre nativo das Américas, que gera de um a dois filhotes por gestação e se reproduz, apenas, uma ou duas vezes ao ano. Essa baixa taxa reprodutiva da espécie impede sua produção em escala industrial, diferentemente do que ocorre com bovinos, suínos e aves.

O crescimento lento deste animal também mantém a carne escassa no mercado. Logo, o quilo sai, em média, R$ 300.

Quando a concretude econômica não dialoga com o discurso oficial, quando o planejamento financeiro ignora prioridades evidentes e quando decisões institucionais levantam dúvidas legítimas, o problema deixa de ser ideológico – torna-se estrutural.

O alto custo é resultado da combinação de pequena oferta e demanda de nicho. Com restrição na produção, esta carne se toma produto voltado a circuitos gastronômicos seletivos, incluindo, ao que vimos, a mesa do atual presidente da República.

A crítica não é sobre o prato em si. É sobre o que ele simboliza: a distância abismal entre quem decide os rumos de uma nação e quem vive, de fato, as consequências dessas decisões.

E as recentes manchetes seguem causando assombro. Vejamos: numa nação com recorde de feminicídios, informa-se que os recursos destinados ao combate à violência contra a mulher não são plenamente executados — a aplicação não chega a 15% do total autorizado.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo, cresce o gasto com Publicidade institucional por parte da União.

Então, falta dinheiro para proteger as brasileiras, mas sobra para fazer propaganda? Ao meu juízo, essa escolha fala por si.

Não são fatos isolados. O que se delineia, ao que parece, é um padrão. A régua não é a mesma para todo mundo. O peso das deliberações no Brasil varia, seguindo a expressão popular, “ao gosto do freguês”.

Ou seria ao gosto dos amigos, dos parceiros, dos aliados, dos companheiros? Enquanto isso, a percepção de Justiça se desgasta.

Quando a concretude econômica não dialoga com o discurso oficial, quando o planejamento financeiro ignora prioridades evidentes e quando decisões institucionais levantam dúvidas legítimas, o problema deixa de ser ideológico – torna-se estrutural. Passa a ser uma questão de coerência.

O Brasil não precisa de mais narrativa. Precisa de conexão com a vida real. Porque, quem está na ponta não se abastece de discurso, mas, sim, de salário, de mercado, de escolhas difíceis, todos os dias.

E, quando quem governa perde essa referência, o distanciamento deixa de ser simbólico — torna-se concreto.

As respostas não estão escondidas. Estão nos títulos dos jornais e dos portais, nas redes sociais e no desânimo das ruas, para quem quiser ver.

E, neste momento, ligar os pontos deixou de ser escolha. É necessidade.

Rosana Valle
Rosana Valle, deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista e autora dos livros "Rota do Sol 1" e "Rota do Sol 2"
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.