Conversas e Distrações
Marcus Vinícius Batista

Jornalista e professor universitário.

Em defesa do gado (Crônicas de uma epidemia)

Confira a coluna do professor e jornalista Marcus Vinícius Batista.

06 de maio de 2020 - 14:38

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Depois de uma semana de reuniões contínuas, que incluíram a hora de caminhar e das refeições, decidimos que as pessoas passaram do ponto. Ruminamos ideias e percebemos que era hora de redigir um manifesto. Um manifesto para reverter nossa imagem bovina, nossos nomes sendo utilizados como carne de segunda. Nossos nomes usados em vão por gente que, aliás, querem nos ver abatidos.

Nós somos gado sim. E daí? Temos orgulho de sermos desse jeito: mansos, cordiais, educados, servis e com morte de data marcada. Somos seres de hábitos, condicionados a adotar comportamentos sempre iguais. Assim, somos fáceis de entender, binários mesmo, maniqueístas de carteirinha. Vida ou morte. Sim ou não.

Se o mundo for realmente mais complexo do que enxergamos, não seremos como os cavalos ou os burros, que distribuem coices como atos de rebeldia. Apenas olhamos, apanhamos de cabeça baixa e seguimos as ordens dos nossos pastores. Eles nos guiam pelas terras de meu Deus, com o som berrante que nos indica quando e onde tomar banho e onde descansar. Amém!

Não temos vergonha de andarmos como manada. É uma forma de proteção estar em grupo. Ninguém aqui tem opinião própria, individualizada. Somos corporativistas, unidos sem pensar. Ordem e obediência. Temos nossos ganhos, nossa velocidade, nosso ritmo de vida.

Somos sujeitos simples, que querem manter privilégios. Temos a mesma moradia. Comemos a mesma comida todos os dias. Bebemos o mesmo líquido. Pagamos nossa dieta vegetariana com a vida para satisfazer seus prazeres da carne.

A alimentação é ritual, idêntico ao de vocês, que pastam em caixas fechadas com tudo à venda. É o padrão de vida, com qualidade. Dizem pelos campos que poluímos o ar – tal do efeito estufa – com nossos dejetos. Não acreditamos porque não sabemos. Mas, e vocês, que também não sabem o que fazer com o lixo? O nosso, se quiserem, pode virar adubo. Basta deixar secar.

Vocês nos acusam de viver atrás de cercas. Os confinados são vocês. A cerca é nosso mundo. Essa é nossa opinião! Nós temos toda a liberdade dentro do curral, que não é o eleitoral. No nosso curral, podemos vigiar uns aos outros. Tudo é igual para todos. Portanto, nós somos os verdadeiros comunistas, na visão de vocês.

Não conseguimos entender porque muitos de nós desaparecem com o tempo. Desconfiamos dos pastores, mas – se for isso – não nos queixamos. Os pastores nos prometem o paraíso e, temos certeza, ele fica atrás daquele morro, lá no planalto. Ou no final daquele corredor bem apertado, onde se vê a luz antes do golpe. De marreta, claro.

Mastigamos, mastigamos e mastigamos sem compreender porque vocês se chamam de gado. Supomos que se trata de um elogio, uma homenagem pela companhia que fazemos, de sol a sol. Apenas não digerimos ainda porque adotam tamanha violência ao usarem nossos nomes entre si. Uma parte nos odeia, enquanto a outra faz muxoxo? Aprendam com a força do mugir, em uníssono.

Estamos acostumados a atravessar uma epidemia. Perdemos muitos, e daí? O que poderíamos fazer? Superamos a febre, que de vez em quando insiste em voltar, e a gripezinha da vaca louca, nome que discrimina o lado fêmea do nosso grupo. Até Vaca, vocês pronunciam como palavrão, em outro ato de preconceito.

Que se registre nosso protesto, atrás de um carro de boi, prática que vocês adoram! Somos gado de raça, outra ideia que vocês não entendem. E juntos somos fortes, acima de tudo.

Logo, logo, enviaremos este manifesto em três vias, com a mesma autenticação em brasa que marcou nosso lombo.

Atenciosamente,

Assinado: Boi (em nome do gado)