Gabriel Pierin

Gabriel Pierin criou o Era uma vez em Santos... nasceu como uma ideia, virou um projeto e será sempre uma obra inacabada. Resgatar e preservar a memória da cidade é um compromisso de todos aqueles que amam Santos, sua história e suas pessoas. Afinal, cada pessoa, cada lugar, tem sempre uma história para contar.

A Fabulosa História de José Luiz Tahan e da Livraria Iporanga

24 de outubro de 2017 - 14:15

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− Zé! Zé! Venha até aqui menino. Tenho um recado para você.

Era a voz da vizinha. Uma senhora do apartamento de frente.

− O que foi Dona Norma?

 − Olha! Ligaram dizendo para você ir trabalhar.

 − Tá! De onde ligaram? Eu fui em vários lugares pedir emprego!

− Ah…ligou aqui… um tal de Zé Pedro, Zé alguma coisa. Só isso que eu sei. – disse já impaciente Dona Norma.

 − Assim eu não consigo chegar no lugar…

− Pô! Você também quer tudo – Dona Norma encerrou a conversa.

Se existe destino, Dona Norma estava cumprindo o seu papel. Se tudo ou parte do todo é fruto do acaso, a obreira Norma lançou o jovem Zé à própria sorte.

O fato é que José Luiz Tahan, nascido em Santos, no ano de 1971, filho de uma professora e de um representante comercial, desejava ingressar na faculdade. O curso de Arquitetura era o que mais lhe atraía. “Tinha facilidade em desenhar, minha vocação sempre foi pra isso, mas não tinha histórico na família.” – explica.

Foi com essa vocação que Zé Luiz batalhou o seu primeiro emprego. Com sua pasta de desenhos embaixo do braço, correu em lugares que lhe atraíam e outros apenas pelo dito emprego.

Dentre os lugares que gostaria de trabalhar estava a Livraria Iporanga. A livraria lembrava seus tempos de criança e adolescência quando colecionava quadrinhos do Flash Gordon, Príncipe Valente e Asterix. As tardes de cinema, na Cinelândia, também lhe reservaram outras emoções. “Lá me salvou uma vez de levar umas porradas de uns moleques que arrumamos encrenca dentro do cinema. Depois que fugimos para a livraria, despistei os moleques.” – conta com ar de valente.

Quando pediu emprego na livraria, o balconista falou que não tinha vaga, mas gentilmente pediu que deixasse o telefone. Como não tinha, Zé deixou o telefone da vizinha, Dona Norma. Ironicamente foi o último lugar que retornou. Já sem esperanças, ouviu do mesmo balconista da livraria: “Olha não foi daqui, mas, mesmo sem precisar, volte amanhã. Vamos começar!”. Dessa vez o destino sorriu para ele.

Durante um ano, José Luiz Tahan desenvolveu um bom trabalho. A facilidade de se relacionar, vital para o ramo do comércio, projetou Tahan a novas investidas. “Ao final de um ano de trabalho, o Luigi (dono da livraria) me propôs sociedade.” Com o apoio da família e muito trabalho para pagar a sua parte na sociedade, Tahan tornou-se um dos donos da livraria.

O lado irônico de toda essa história só viria à tona cinco anos depois. Em um happy-hour, Luigi abordou o assunto da contratação em sua primeira investida de emprego na livraria: “Que história maluca a sua, heim?”. Zé Luiz respondeu desinteressado: “É… pouco maluca, né!?”.  Luigi então se deu conta da longa omissão: “Não, pô! Então eu nunca te contei? A primeira vez que você foi à livraria pedir emprego, tinha mais um cara no balcão, o Armandinho. Ele viu você pedindo emprego e se interessou em ajudar. Ele ia te oferecer emprego de garçom no bar dele… o Zeppelin”.

Zé Pedro… Zeppelin. Para quem achava que a Dona Norma não deu a mínima para ajudar o vizinho “Zé”, juízo errado.

Quando perguntado se sua história de sucesso no ramo literário se repetiria no Zeppelin, Zé Luiz não vacila em responder: “Eu ia beber o bar”. Brincadeiras à parte, Zé Luiz não se envaidece com a profissão de livreiro: “As pessoas idealizam muito o meu negócio. O meu trabalho, como qualquer outro, também é um ato de sobrevivência. Eu me dedicaria a outras coisas com o mesmo afinco”.

A livraria Iporanga nasceu bem antes do José Luiz Tahan. Em 1954, a Iporanga uniu-se a um grande empreendimento: os cinemas Iporanga, no bairro do Gonzaga, onde hoje existe outro homônimo, o Shopping Iporanga.

No início não tinha nome. Assim como a famosa rede de drogarias que fez história na cidade, a livraria era conhecida como livraria do Iporanga. De 1954 até o seu encerramento, a livraria passou por quatro diferentes formações. O fim das atividades ocorreu em 2004, sobrevivendo mesmo após o fechamento dos cinemas.

Na época dos cinemas Iporanga, o espaço do complexo era temático, como hoje existe nos shoppings.  Era tudo na rua. Tinha livraria, drogaria, floricultura, bomboniere, bar. Havia um calçadão generoso que as pessoas se aglomeravam para ir ver os filmes, comprar livros. Existia um intenso consumo cultural. Zé Luiz considera um processo natural o novo shopping no saudoso local, porém lamenta a perda de estimado valor arquitetônico para a cidade: “Era um prédio bonito, uma edificação dos anos 1950, em art-déco. A antiga estrutura poderia ter sido preservada”.

A livraria Iporanga com 50 anos de existência criou raízes com a cidade. A clientela era exigente, informada e evidente, adorava cinema, porque a livraria era uma “sala de espera luxuosa” entre as sessões dos filmes. Dentre as diversas personalidades ilustres que frequentavam a livraria, destaca-se o ex-prefeito David Capistrano. “Ele era um intelectual. Gostava de livros de história, política e clássicos”, lembra Tahan.  Mas também havia os indesejáveis. Atraídos pelo movimento de pessoas, mendigos, bêbados e arruaceiros também davam as suas caras. “Uma vez entrou um bebum. Estava eu e o Luigi na loja lotada, e o tal cara gritou: “Me fala aí: Quem descobriu o Brasil?”. Eu não acreditei na cena. “Não, não… sai daqui” – implorou o Luigi. O cara continuou: “Você sabe. Claro que sabe. Quem descobriu o Brasil?”. O Luigi enrolou o jornal que estava lendo, e foi pro fundo da loja desviando das pessoas. Foi quando o cara tomou folego e gritou com o triplo da força: “Não vai ver no livro, heim?!”. É o gostoso dos espaços pequenos. Duvido que uma megastore tenha essa galeria de pessoas exóticas” – Tahan se delicia com as lembranças.

A livraria Iporanga resistiu mesmo após o fim das exibições do cinema. O negócio do cinema acabou, as lojas fecharam e ficou apenas a livraria. Curiosamente o cartaz do último filme exibido permaneceu estampando o velho prédio com o sugestivo nome “A Fuga das Galinhas”. Zé Luiz brinca com o fato: “Até as galinhas se foram e nós ficamos”.

Se os últimos tempos revelavam uma incerteza com o futuro, a visita de um famoso cliente trouxe à luz o embrião de um novo projeto: a Editora Realejo. Pepe, o ponta-esquerda mais famoso do mundo, em uma despretensiosa visita à Iporanga, revelou sua intenção de ter publicado os seus escritos. Mas aí, já é uma outra história… uma recente, vitoriosa e viva história de sucesso de José Luiz Tahan.