Jogos Humanos | Boqnews

Ponto de vista

8 de janeiro de 2018

Jogos Humanos

O ano de 2018 chegou e o ciclo se renova.

Isso não é muito diferente no mundo dos games, 2017 foi um excelente ano e em breve retrospectiva: Nintendo ressurgiu das cinzas e se mostrou uma campeã nata, Sony PlayStation inovou em seus games com franquias novas e já aclamadas (Horizon Zero Dawn manda lembranças) e a Microsoft Xbox criou o console mais poderoso da nossa geração.

Para alguns, “nada de mais”, porém para o mercado isto abriu portas que somente neste novo ano vão mostrar ao que vieram.

Eu digo nesta coluna e repito o quanto games são muito mais que entretenimento, são material de cultura e aprendizado tanto quanto vários outros materiais. Ao que parece, as próprias companhias também começaram a enxergar isso recentemente.

The Legend of Zelda: Breath of the Wild (jogo do ano, cof cof) não só reinventou uma franquia de extremo sucesso, ainda fez os jogadores reaprenderem junto ao protagonista quais são os elementos que fazem deste game um épico.

Horizon Zero Dawn é outro que aposta no desenvolvimento da personagem principal, que no início não sabe muito sobre as circunstâncias de seu surgimento no mundo e se vê envolvida numa saga maior do que sonhava.

Gears of War 4, aclamado game de guerra, também investiu em 2017 em mostrar o legado dos antigos personagens com profundidade, mostrando um outro lado de suas vidas.

 

Dos pixels ao HD, Link e Zelda estão mais próximos das emoções que conhecemos do que nunca em The Legend of Zelda: Breath of the Wild. Fotos: Divulgação

Em busca do ‘humano’

O que as empresas estão percebendo hoje é que o maior fator que estão buscando hoje nos games é o “humano”.

Como assim? Atualmente não é só o seu sobrinho e filhos que jogam videogame.

Nem o adolescente “nerdão” que fica enfiado no quarto o dia todo com as janelas fechadas jogando.

Ou aquele tio chato que insiste em comprar e jogar apenas futebol.

Cada vez mais vemos videogames na casa das pessoas, das variadas idades e gêneros.

Somente em 2017, apenas citando os da nova geração, o PS4 vendeu aproximadamente 16 milhões de consoles; o Xbox One vendeu cerca 6 milhões e o Nintendo Switch passou as vendas de 9 milhões de aparelhos (pesquisa VGChartz).

E com o aumento de público, também se aumenta a exigência do material proposto.

Conforme foi acompanhado no ano passado, Star Wars Battlefront II, um dos games mais aguardados e que teve uma busca infinitamente maior por causa dos recentes filmes e por investir numa campanha de jogo offline (em comparação ao primeiro jogo que não possuía), foi bombardeado pelos fãs da franquia por tentarem incluir um sistema que não dá suporte à capacidade dos jogadores.

Mass Effect Andromeda (engraçado que ambos os citados são da Electronic Arts…acontece) foi criticado pelos erros da má programação do jogo e pela história ser rasa em comparação à saga anterior.

Street Fighter V foi inserido como “mais um jogo de luta”, quando nasceu dele o sucesso que o gênero faz hoje.

Conclusão: os gamers não estão mais aceitando “qualquer coisa”.

Não só pelo preço, mas também pelo conteúdo.

 

 

Star Wars Battlefront II gerou conflitos com o sistema de loot boxes, até foi catalogado como “jogo de azar” em alguns países

Quem está debaixo da máscara?

Jogos conhecidos antes por outros atributos, hoje tem de se adequar a esse “novo público”.

God of War, conhecido por sua brutalidade e por seguir apenas um rastro de sangue, envelheceu Kratos e colocou um filho ao seu lado, contando a saga do personagem como pai.

O novo Spider-Man, quais últimos games eram releituras dos filmes com mundo aberto e nada que chamasse tanta atenção vão mostrar uma história inédita com foco no Peter Parker.

A temática “quem é o herói por debaixo da máscara” já o faz ser aclamado a cada novo trailer que surge.

Wolfenstein II: The New Colossus inicia o game introduzindo as pessoas ao passado do protagonista e no desenvolvimento dele e dos personagens secundários.

Tudo para criar uma ligação entre eles e quem joga.

Não vemos este tipo de abordagem apenas nos games.

Em filmes, apesar das críticas, Star Wars em sua nova trilogia aproxima muito seu público dos protagonistas, mostrando que há muita coisa além do bem e mal. A linha de livros da Marvel explica muitas coisas sobre as motivações de cada super-herói qual não cabem em duas horas de filmes.

Este tipo de foco no enredo, de trazer o personagem ao centro com defeitos e qualidades próximas ao público ao invés de histórias mirabolantes ou vários personagens secundários trazendo mais diálogos ou ação dividida é o que está chamando atenção atualmente.

Como disse antes, o Jogo do Ano 2017 nunca ia se garantir com apenas mais uma história de salvar a princesa.

Ao invés disso, focaram em mostrar quem é o herói em sua essência, quem é a tal princesa, o que fazem deles personagens que importam e o que torna suas aventuras tão relevantes.

 

God of War trará uma saga mais contida entre pai e filho na mitologia nórdica.

Importância das histórias

Histórias são importantes, mas mais ainda são os personagens que as compõem.

O que é Tomb Raider sem a Lara Croft (que curiosamente, foram os primeiros a perceber essa tendência e refazer a saga do game desde o início com foco em Lara e sua origem)?

Ou jogos do Batman (série Arkham) sem o Bruce Wayne (série Telltale)?

O fator humano sempre é o que destaca as histórias e não é à toa.

A empatia e reflexão gerados nos aproximam desses personagens, nos fazem vê-los mais como nós e vermos pontos nossos como deles.

Na realidade que vivemos, precisamos de mais exemplos de virtudes e valores e é justamente isso que os games querem atingir hoje.

Saber que mesmo com defeitos, com certas qualidades e com ideias podemos também ser parecidos com esses grandes heróis.

Trazer para o gamer o que ele busca: conhecer a si mesmo.

Cabe a você apenas a decisão de onde buscará isso.

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