Linha imaginária | Boqnews

Ponto de vista

Linha imaginária

Há pouco mais de um século, uma obra iria mudar o perfil   da Cidade, cujos reflexos são sentidos até hoje. Em 1910, a Southern São Paulo Railway iniciou a construção da linha Santos - Juquiá ligando o porto santista ao Vale do Ribeira para escoamento da produção agrícola daquela região. Com o tempo, a linha tornou-se deficitária pela decadência agrícola daquela região até ser desativada. O serviço ficou restrito ao tráfego de passageiros, mas, aos poucos, a linha férrea foi perdendo espaço para as rodovias e, consequentemente, para os automóveis, até sua extinção e abandono absoluto, cujo trajeto bucólico ligando Santos às cidades do litoral sul ainda está guardado na memória de muitos.

Depois, o trecho passou a ser usado ligando Santos-Samaritá, na área continental vicentina. Com a extinção também dessa linha, o tráfego ferroviário passou a ser usado apenas pelos trens de carga rumo ao porto de Santos. Com o aumento do fluxo de carros nas ruas, os trens viraram um estorvo e risco, e assim o trajeto foi extinto há três anos.
Os trens sumiram, mas os trilhos não. Hoje, servem como museu a céu aberto enquanto o VLT - Veículo Leve sobre Trilhos, mais uma promessa do governo tucano, não sai do papel.

A linha férrea dividiu a Cidade entre os moradores que residiam antes e depois dela. Havia (e ainda há, mesmo em um volume bem menor) um certo preconceito em relação a quem mora atrás da linha (imaginária), especialmente no tocante à valorização dos imóveis, distância financeira que foi crescendo ao passar dos anos. Por exemplo, o preço do metro quadrado na Ponta da Praia é superior ao Campo Grande, mesmo que a proximidade com a praia deste último seja maior que em determinados trechos do outro bairro.

Este tipo de análise encontra respaldo no volume de empreendimentos acima de dez andares lançados desde o Plano Diretor em vigor, provocando uma concentração absurda em determinadas regiões, cujo reflexos estão sendo sentidos hoje.

Por exemplo: dos 252 empreendimentos lançados no período, 78% foram erguidos nos bairros da orla (não necessariamente próximos à praia), como José Menino, Pompéia, Gonzaga, Boqueirão, Embaré, Aparecida e Ponta da Praia. Ou seja, oito em cada dez lançamentos habitacionais ou comerciais. Os bairros intermediários (Marapé, Campo Grande, Vila Belmiro, Encruzilhada, Estuário, Macuco) ficaram com 11% do total, enquanto o Centro/Valongo/Vila Mathias/Vila Nova/Paquetá e Jabaquara ganharam 5%. A Zona Noroeste recebeu 4% e os morros (até eles foram objeto da cobiça vertical!), 2%. Por bairro, o líder disparado é o Gonzaga, com 53 novos empreendimentos verticais - quase 20% do total.

Portanto, diante desta constatação, só espero que ninguém culpe a extinta Shouthern São Paulo Railway por causa desta concentração de empreendimentos em determinados bairros da Cidade...

1 de julho de 2011

Linha imaginária

Há pouco mais de um século, uma obra iria mudar o perfil   da Cidade, cujos reflexos são sentidos até hoje. Em 1910, a Southern São Paulo Railway iniciou a construção da linha Santos – Juquiá ligando o porto santista ao Vale do Ribeira para escoamento da produção agrícola daquela região. Com o tempo, a linha tornou-se deficitária pela decadência agrícola daquela região até ser desativada. O serviço ficou restrito ao tráfego de passageiros, mas, aos poucos, a linha férrea foi perdendo espaço para as rodovias e, consequentemente, para os automóveis, até sua extinção e abandono absoluto, cujo trajeto bucólico ligando Santos às cidades do litoral sul ainda está guardado na memória de muitos.


Depois, o trecho passou a ser usado ligando Santos-Samaritá, na área continental vicentina. Com a extinção também dessa linha, o tráfego ferroviário passou a ser usado apenas pelos trens de carga rumo ao porto de Santos. Com o aumento do fluxo de carros nas ruas, os trens viraram um estorvo e risco, e assim o trajeto foi extinto há três anos.
Os trens sumiram, mas os trilhos não. Hoje, servem como museu a céu aberto enquanto o VLT – Veículo Leve sobre Trilhos, mais uma promessa do governo tucano, não sai do papel.


A linha férrea dividiu a Cidade entre os moradores que residiam antes e depois dela. Havia (e ainda há, mesmo em um volume bem menor) um certo preconceito em relação a quem mora atrás da linha (imaginária), especialmente no tocante à valorização dos imóveis, distância financeira que foi crescendo ao passar dos anos. Por exemplo, o preço do metro quadrado na Ponta da Praia é superior ao Campo Grande, mesmo que a proximidade com a praia deste último seja maior que em determinados trechos do outro bairro.


Este tipo de análise encontra respaldo no volume de empreendimentos acima de dez andares lançados desde o Plano Diretor em vigor, provocando uma concentração absurda em determinadas regiões, cujo reflexos estão sendo sentidos hoje.


Por exemplo: dos 252 empreendimentos lançados no período, 78% foram erguidos nos bairros da orla (não necessariamente próximos à praia), como José Menino, Pompéia, Gonzaga, Boqueirão, Embaré, Aparecida e Ponta da Praia. Ou seja, oito em cada dez lançamentos habitacionais ou comerciais. Os bairros intermediários (Marapé, Campo Grande, Vila Belmiro, Encruzilhada, Estuário, Macuco) ficaram com 11% do total, enquanto o Centro/Valongo/Vila Mathias/Vila Nova/Paquetá e Jabaquara ganharam 5%. A Zona Noroeste recebeu 4% e os morros (até eles foram objeto da cobiça vertical!), 2%. Por bairro, o líder disparado é o Gonzaga, com 53 novos empreendimentos verticais – quase 20% do total.


Portanto, diante desta constatação, só espero que ninguém culpe a extinta Shouthern São Paulo Railway por causa desta concentração de empreendimentos em determinados bairros da Cidade…

Fernando De Maria
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