Memória Santista
Sergio Willians

É jornalista e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras. Também é membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Maurice Lègeard

Colunista aborda um pouco da história de Maurice Lègeard, um francês de nascimento e santista de coração, apaixonado pela Sétima Arte.

13 de setembro de 2015 - 06:00

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legeardLyon, França, 1895. Louis e Auguste Lumière, dois jovens irmãos engenheiros, comemoravam felizes o registro da patente do cinematógrafo (cinématographe), uma máquina capaz de registrar uma série de instantâneos fixos em fotogramas, criando a ilusão do movimento. Era o que se convencionou chamar pouco tempo depois de “fotos que se mexem”, a gênese do cinema, o invento que tornou os Lumière numa espécie de pais da Sétima Arte.

Lyon, França, 1925. Exatos 30 anos depois, na mesma cidade onde surgira a magia do cinema, enquanto as salas de exibição lotavam nas sessões de películas como “O Encouraçado Potemkin”, filme russo de Sergei M. Eisestein ou “The Gold Rush” (Em Busca do Ouro), protagonizada por Charles Chaplin, nascia um dos cinéfilos mais entusiastas que existiria na cidade de Santos, então um ponto bem distante da França, no litoral brasileiro. Maurice Armand Marius Legeard não poderia ter um início de vida mais conexo do que esse, revelando-se para o mundo no mesmo berço que o elemento que o moveu por toda sua vida.

Maurice cresceu em Paris ao lado da mãe, Mauricette, até que, em 1932, com sete anos de idade, foi levado para o além Atlântico, onde se instalaria na casa de uma tia, na turbulenta metrópole sul-americana de São Paulo. A capital bandeirante não vivia seus melhores dias, e o que se falava nas ruas era sobre a iminente eclosão de uma guerra civil, lastreada por anseios constitucionalistas. Dois anos depois, Mauricette resolve descer a Serra do Mar com o filho e se instala na cidade de Santos, mais especificamente no bairro Chinês, nas cercanias do Valongo e do Morro do Pacheco. Ali, Maurice construiria sua história, ligada à arte cênica e ao universo cuja origem se dera na sua terra natal: o cinema.

Lègeard, como diziam muitos de seus amigos, não era “flor que se cheirasse”, mas não no sentido do caráter, e sim na inquietação comportamental que lhe era peculiar. Era intolerante, polêmico, contraditório, anarquista de carteirinha. Mas, sobretudo, um amante da Sétima Arte. “Cinema, para ele, era sonho e realidade misturados, técnica, divertimento, indústria, pedagogia, comércio, fenômeno social e político. Era algo que se confundia com a dinâmica multifacetada da própria vida”, disse um de seus grandes companheiros, Cid Marcus.

Obstinado, criou em 1948, o Clube de Cinema de Santos e introduz na cidade películas que jamais chegariam aos olhos santistas não fosse por suas mãos, como peças do neorrealismo italiano e filmografia do Japão, Polônia, França, Índia, Inglaterra, Hungria, Rússia, Bulgária e China. Por muitos anos as sessões do clube aconteciam aos sábados à tarde e eram consideradas memoráveis.

Companheiro de Patrícia Galvão e Plínio Marcos, Lègeard também foi um dos partícipes da criação do Festival de Teatro Amador de Santos, o FESTA, em 1958. O teatro, aliás, era considerada sua segunda paixão, assim como a vida boêmia, uma marca incontestável do “irritante guerreiro”, como o chamava o poeta santista Narciso de Andrade.

Em 1980, Maurice, irritado com os rumos do clube e por divergências com outros associados, decide criar a Cinemateca de Santos e voltaria a ser o condutor de seu próprio caminho. Chegou a possuir um arquivo com mais de dez mil filmes, certamente um dos maiores e mais importantes do país. Também colecionava recortes de jornais e revistas com críticas de cinema. Suas exibições extrapolavam sua condição física, mas nunca se queixou pelo amor ao cinema. Chegou a promover cinco sessões semanais, nos cinemas e entidades profissionais e hotéis, sempre com o valor agregado das informações de cada filme.

Faleceu num domingo, 25 de maio de 1997, o clássico dia de cinema. Maurice não poderia escrever a palavra “FIM” em um momento tão simbiótico, tanto quanto o de ter nascido na célula matter do cinema mundial.