Nikolas Ferreira, a Psicologia das Massas e a função do herói | Boqnews

Opiniões

27 DE JANEIRO DE 2026

Nikolas Ferreira, a Psicologia das Massas e a função do herói

Luciana Inocêncio

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Deputado federal mais votado da história de Minas Gerais e o mais votado do Brasil nas eleições de 2022, Nikolas Ferreira (PL) monopolizou as atenções na última semana ao organizar a “Caminhada por Liberdade e Justiça”.

O parlamentar saiu de seu estado de origem, sozinho, na segunda-feira (19/1), e chegou seis dias e muitos quilômetros depois ao destino final, em Brasília-DF, acompanhado de milhares de pessoas que encontraram em suas palavras ou em sua agenda conexão.

Enquanto muitos se uniram ao jovem liberal na marcha, e outros, mesmo que à distância, admiraram e torceram pelo ato, houve quem criticasse – e até aí, tudo bem.

Afinal, Democracia, no sentido mais amplo da palavra, se forja, também, na discordância.

O interessante, contudo, é analisar como tudo isso se deu, entre idolatria e julgamentos, à luz da Psicologia.

Quando a dor coletiva se torna insuportável, a massa não pergunta quem é o mais virtuoso, ou quem tem menos pecados para representá-la.

Ela busca por quem suporta ocupar o lugar que ficou vazio, longe do perfeccionismo moral.

E, o vazio, aqui, é estrutural e acomete, geralmente, os extremos na estrutura Política.

Do ponto de vista da Psicologia das Massas, Sigmund Freud defendia que o comportamento coletivo não é uma simples soma de indivíduos racionais. Tal formulação é central.

Quando o indivíduo se insere de forma comunitária, ele não apenas se dilui nela; ele transfere para o comandante funções psíquicas que já não consegue sustentar sozinho — como esperança, ordem, direção moral e sentido.

Este líder passa, então, a funcionar como um eixo organizador do psiquismo coletivo. Historicamente, este mecanismo se repete. Não é moda; é estrutura. Tem método.

A figura de Jesus, por exemplo, pode ser compreendida — do ponto de vista psicológico, e não teológico — como alguém que ocupou lugar indiscutivelmente simbólico na humanidade, mesmo sem contar com aparato institucional, sem o apoio do Exército e sem o mínimo de proteção.

À época, Cristo encarnou um ideal que já não encontrava sustentação nas estruturas vigentes.

Na contemporaneidade, tal fenômeno reaparece em figuras que provocam, incomodam e polarizam, justamente porque ocupam um lugar que muitos recusam por medo das inúmeras consequências, incluindo as sociais, políticas e jurídicas.

Sim, para ocupar este espaço, é preciso mais que carisma! É imprescindível deter coragem e (arrisco) um certo flerte com a inconsequência.

Ainda na esteira da análise freudiana, enquanto homens são atacados, o mecanismo psíquico que os produziu continua ativo.

Indivíduos passam, mas os símbolos não se rendem; permanecem. Ideias não sangram e se preciso, elas mudam de hospedeiro.

Em algum momento da História, um líder, a exemplo de Nikolas e de outros tantos que o antecederam, pode até cair, mas sua função simbólica permanece disponível para ser ocupada novamente.

O que significa dizer que o instinto coletivo não desaparece. Ele atravessa o tempo.

Quando tentam silenciá-lo, ele se desloca. Quando tentam esmagá-lo, ele se reorganiza. Quando tentam apagá-lo, ele se multiplica.

 

Luciana Inocêncio é psicóloga, psicanalista, palestrante e escritora; especialista em Transtornos Graves das Psicoses, pelo Colégio de Psicoanalísis de Madrid (Espanha); especialista em Psicologia Hospitalar e em Especialidades Médicas, pela Universidade de São Paulo (USP); especialista em Psicologia Clínica e em Teoria Psicanalítica, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC); tem formação em Psicanálise, pela Escola Brasileira de Psicanálise; e formação em Psicologia | Bacharel e Licenciatura, pela Universidade Braz Cubas (UBC); é autora dos livros “Psicanálise Presente na Vida Cotidiana”, “As Aventuras de Elvis”, “A Comida como Fuga Emocional”, “O Poder da Terapia na Terceira Idade”, e “Narcisistas”

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