O diálogo e o silêncio | Boqnews
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Opiniões

30 DE MARÇO DE 2020

O diálogo e o silêncio

Por: Marcus Vinícius Batista

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Não sejamos pretensiosos. Não sejamos arrogantes. Somos especialistas em queimar etapas, pulando degraus como crianças cheias de energia, mas sem as habilidades para sabermos a hora de parar e, por isso, tropeçamos e batemos o queixo no chão.

Na pandemia, passamos a recitar mantras como solidariedade e união. O discurso parece de beleza oca quando defendemos a crença de que, por estarmos há duas semanas em casa, compulsoriamente, somos capazes de mudar o mundo. Se mudamos a nossa rua, o fazemos por outras razões, anteriores à prisão domiciliar. A cadeia em família não consegue nos regenerar. Isolamento físico tende mais a produzir sofrimentos do que santos da vida moderna.

O primeiro sinal de nossas pretensões reside aí: incapazes ou desconfortáveis para alterarmos a nós mesmos, colocamos a luz na abstração do “mundo” – sei lá o que seja isso – para entoarmos poesia de gosto duvidoso.

O vírus já nos informou, explicou, repetiu, desenhou, pulou numa perna só e plantou bananeira para deixar claro que ele nos vê como hospedeiros, e não como seres especiais dotados de comportamentos nobres que implicam numa mudança de rota porque assim o desejamos, numa reprodução feliz de história da carochinha. Somos especiais, na ótica do vírus, talvez pelos motivos contrários. Ele nos enxerga como virulentos, ele se espelha em nosso passado, em nosso presente, para se alastrar como instrumento de destruição. Muitos de nós, é duro dizer, são escarrados como ele.

Sempre desconfio de quem fala de sentimentos nobres para se promover. Já notou que os exemplos de solidariedade e união dessa gente, inevitavelmente, os coloca no roteiro? Os falastrões costumam vestir sandálias que pesam toneladas, que se arrastam de vez em quando, com frequência paralisam os pés, amarrados pela própria língua grande do pregador.

Por que temos a necessidade de parecermos alunos avançados quando mal sentamos nas cadeiras e mal entendemos o que a professora fala? Mentira, nem professora temos. Fomos matriculados, nesta pandemia, numa escola em que temos autonomia para aprender e ensinar. E agora, que muitos alunos precisam de tutorial para seguir adiante? Como organizar a classe, se mais parecemos um bando de crianças, primeiro felizes, depois desesperadas, por estarmos sem a companhia de adultos numa ilha?

Poderíamos dar um passo atrás, retornar ao básico, abrir novamente a cartilha e ler em voz alta: lição 1. Situações de crise exigem fechar para balanço, que não representa folga de final de semana. Balanço é inventário, avaliação crua do que presta e do que não serve, do que podemos repetir, do que devemos enterrar, do que podemos por à venda e do que cheira mal devido à validade vencida.

Quando retornamos ao ponto de partida ou ao que julgarmos o início de nós mesmos, é essencial refletir. E refletir requer silêncio. Jamais devemos abrir a boca para tagarelar, muito menos optarmos pelo marketing de principiante, que se limita a oferecer as coisas boas da nossa prateleira, fingindo que o cliente não está vendo os vazios que nos denunciam como superficiais.

O silêncio nos ensina a escolher o que dizer, quando dizer e como dizer. Mais do que isso: o silêncio, quando entendido como lição, e não como intervalo entre grunhidos e berros, no permite adquirir a consciência de que, antes de falar, precisamos ouvir. Ouvir para aprender. Ouvir para descartar. Ouvir para entender que as palavras têm valor, peso, impacto e que não merecem a banalização pelo escoamento das cordas vocais ou dos teclados dos aparelhos eletrônicos. Ouvir para saber que as besteiras alheias são, muitas vezes, o eco do nosso lixo verbal. Saudades do Rubem Alves e do seu curso de “Escutatória”.

O silêncio é parte da nossa fala, é elemento revelador do nosso discurso. Assim, ele que dita o que devemos priorizar em tempos de isolamento físico. O diálogo é a arma que devemos manejar para sermos melhores; digo, individualmente, sem a pretensão de mudar alguém, quanto mais a vizinhança, quiçá o planeta.

O diálogo, dentro dos limites da escuta e da mudança de olhar entre os interlocutores, é libertador. Talvez por este caminho consigamos uma fagulha do que é ser solidário, do que é estarmos unidos em prol de uma causa. Não podemos confundir com nossas práticas de autoflagelação nas redes sociais, carimbadas pela pregação de falsos ouvintes, pela expectativa angustiante de que atingimos altos decibéis enquanto patinamos dentro da bolha virtual.

O diálogo é remédio amargo para a doença que nos acomete. Uma enfermidade que se espalhou como pandemia, antes de qualquer vírus numerado a cada mutação. Nossa doença nos deixa confusos. Precisamos falar cada vez mais e sermos surdos diante da réplica. Surdos porque estamos nos ocupando com o deleite de nossa própria voz, com o eco das nossas certezas que se provaram tão erradas a ponto de nos prenderem dentro de nossos casulos, físicos ou governados por algoritmos.

A aprendizagem depende de cada aluno, inclusive de fatores que não se consegue controlar. O tempo de aprender só dirá uma coisa: saberemos se avançamos ou reprovamos num prazo mais longo, posterior ao término da pandemia do coronavírus.

Quando rasgarmos as fantasias de bons samaritanos e andarmos de verdade em direção ao outro, é que viveremos para ver se os solidários, os unidos – e os defensores do diálogo – ainda estarão caminhando entre nós. Ou se poderemos dar as mãos a eles.

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