O imponderável na política | Boqnews

Ponto de vista

1 de julho de 2025

O imponderável na política

Na política há um fator incontrolável que não pede licença para entrar no saguão eleitoral e mudar o mapa dos votos. É o imponderável.

Pode ocorrer a qualquer momento em qualquer lugar. Acidentes ou incidentes graves, eventos de grande impacto, borrascas inesperadas se escondem na caixa das coisas imponderáveis.

Começo contando o caso do jumento no Piaui. Eleições de 1986, comício de encerramento de Freitas Neto, do antigo PFL, na Praça do Marquês.

Desde a manhã os carros de som convidavam o povo para o monumental show de Elba Ramalho.

Às 18 horas, praça lotada, a massa urrava: “Queremos Elba, queremos Elba!”. Os caminhões com os equipamentos de som só chegaram em cima da hora do comício.

Começou a cair um toró. Pipocos e faíscas. Os cabos, em curto-circuito, queimaram. Comício sem som?

Elba mostrou o contrato: “Sem som não canto”. Sob insistente apelo do candidato, propôs cantar uma música. Arrumaram um banjo para acompanhá-la.

Nem mesmo começara a cantar, passou a vociferar: “Imbecis, ignorantes, não façam isso”.

No meio da multidão, a cena constrangedora: alguns bêbados abriam a boca de um jumento, derramando nela uma garrafa de cachaça. Sob apupos, acabava o comício.

As pesquisas nos davam, às vésperas do dia das eleições – em 15 de novembro de 1986 – entre 3% e 5% a mais que o adversário.

Garantia do Instituto Gallup, por meio de Carlos Matheus, seu diretor, estabelecido em São Paulo. “Fiz e refiz”, dizia ele. Vibramos.

No dia da eleição, senti em Teresina um clima de velório. Acompanhei Freitas Neto às urnas. Pouco aclamado. Perdemos a campanha por 1%.

Concluí que um evento infeliz contribuiu para nossa derrota. Um showmício, que acabou sendo um caso de reversão de expectativas. O caso foi contado de boca a boca.

Às vezes, em minhas palestras, surge a pergunta:

– Professor, não pode haver um imponderável na política?

Respondo: Pode, sim. Por exemplo, um jumento embriagado no Piauí.

O fato é que a imponderabilidade permeia a história brasileira.

Quem imaginaria que um presidente, idolatrado pelo povo, viria a cometer suicídio? O suicídio de Getúlio Vargas é um dos mais emblemáticos da lista de casos imponderáveis de nossa história.

Em 24 de agosto 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, Vargas se matou com um tiro no coração, deixando uma carta-testamento na qual expressou suas razões. O evento teve grande impacto na política brasileira, levando a mudanças e reconfigurações no cenário político nacional.

A renúncia de Jânio Quadros, na tarde de 25 de agosto de 1961, foi outro ato surpreendente e inesperado que deixou a nação em choque.

Conhecido por sua postura populista e seu discurso contra a corrupção, Jânio assumiu o cargo com grande expectativa, mas seu governo foi marcado por medidas controversas e por uma série de divergências com as Forças Armadas.

O Congresso Nacional aceitou rapidamente a renúncia, mas a situação política se tornou ainda mais turbulenta.

Os ministros das Forças Armadas se opuseram à posse do vice-presidente João Goulart, alegando que ele não seria capaz de governar.

Em resposta, uma mobilização popular, conhecida como Campanha da Legalidade, ocorreu em diversas cidades do Brasil, defendendo a posse de João Goulart.

A renúncia de Jânio Quadros e a crise que se seguiu marcaram um momento crucial da história brasileira.

Outro evento que chocou o país ocorreu em 13 de agosto de 2014, quando um avião caiu em Santos, no meio da cidade.

A população ficou chocada ao descobrir que dentre as vítimas estava Eduardo Campos, que havia sido governador de Pernambuco por duas vezes e, em 2014, era o candidato à presidência da República com a 3ª maior intenção de voto do país.

O mais recente caso de imponderabilidade foi o atentado contra Jair Bolsonaro.

Em 6 de setembro de 2018, o então deputado federal Jair Bolsonaro sofreu um atentado durante um comício que promovia sua campanha eleitoral para a presidência do Brasil.

Enquanto era carregado em meio a uma multidão de apoiadores, o deputado sofreu um golpe de faca na região do abdômen desferido por Adélio Bispo de Oliveira.

Ao todo, Bolsonaro realizou quatro cirurgias relacionadas aos danos causados no atentado, que tem sido usado para a transmissão de teorias conspiratórias, tanto por apoiadores quanto críticos de Bolsonaro, e até por ele mesmo.

Apesar da facada e da abrupta mudança de rumos na campanha do candidato, que ficou impedido de ir às ruas e de comparecer a diversos eventos e debates, o ex-capitão foi o candidato mais votado no primeiro turno, em 7 de outubro de 2018, com 46,03% dos votos válidos, à frente de Fernando Haddad (PT) com 29,28% dos votos.

Os dois disputaram o segundo turno em 28 de outubro, no qual Bolsonaro foi eleito Presidente com 55,13% .

Em 30 de outubro de 2022, domingo, data do segundo turno do pleito, sob um clima tenso, repleto de expectativas e margem pequena para conceder a vitória a um dos dois candidatos representados por ideologias opostas, Lula venceu Bolsonaro com 2,1 milhões de votos de vantagem, alcançando votação recorde na eleição mais disputada da história do Brasil.

De lá para cá, o país vivencia intenso ciclo de polarização política. E assim deverá continuar nos próximos tempos.

Sob essa moldura, resta torcer para que não sejamos surpreendidos com o Fator Imponderável, que, vez ou outra, costuma nos visitar.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

 

Gaudêncio Torquato
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