Richard Wagner na mídia | Boqnews

Opiniões

23 DE DEZEMBRO DE 2021

Richard Wagner na mídia

Adilson Luiz Gonçalves

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Há poucos dias deparei-me com uma notícia veiculada num meio de comunicação, que exemplificou a que nível chegaram certas matérias jornalísticas.

Nela, quem a produziu criticou a banda da FAB por ter executado um trecho de uma obra de Richard Wagner (1813-1883), maestro, compositor, diretor de teatro e ensaísta alemão, considerado um gênio da música erudita, num evento público.

Justificou que Wagner tinha posições consideradas antissemitas e ter sido um ícone do regime nazista, que governou a Alemanha entre 1933 e 1945.

Para complementar, comentou que a FAB ainda não havia se manifestado sobre o assunto… Seria censura?

Não comentarei sobre o contexto do evento, mas sobre a referência a esse grande artista, de reconhecimento internacional. É fato que ele continua restrito em Israel, por sua obra ter sido usada em campos de extermínio, o que é compreensível, mas isso vem sendo questionado até lá.

Será possível separar a obra das opiniões de seu autor? Isso me fez lembrar do filme “Les uns et les autres” (França, 1981), aqui conhecido como “Retratos da Vida”.

Nele, um então jovem e brilhante concertista alemão era frequentemente convidado para tocar para Hitler. Tempos depois, mundialmente consagrado, ele é convidado para tocar nos EUA, numa grande sala de espetáculos, com todos os ingressos vendidos!

Um sucesso? Não! Ao entrar no palco, o teatro estava vazio e começou a “chover” panfletos que o acusavam de antissemita. Em função disso, ele precisou justificar o contexto do passado.

Esse filme também é emblemático em seu final, onde todos os personagens, de vários países, se juntam num evento, incluindo o concertista alemão, que tem como tema o “Bolero”, de Maurice Ravel que, de certa forma, sugere que as coisas vêm e vão ao longo do tempo, inclusive as feridas que alguns insistem em manter abertas, em vez de curá-las.

Isso fica mais evidente na coreografia de Maurice Béjart, executada pelo bailarino argentino Jorge Donn, cujo personagem fugiu da União Soviética. Um filme que merece ser visto e revisto.

Além de preconceituosa, tal notícia pode gerar consequências, em tempos de “lacrações” e “cancelamentos”.

Alguém pode querer banir o desenho da Disney, anterior à Segunda Guerra Mundial, que começa com Prelúdio ao 3º Ato de Lohengrin; ou o filme “Apocalipse Now” (EUA, 1979), por usar “Cavalgada das Valquírias”, do 3º Ato de “A Valquíria”, em uma de suas cenas mais icônicas; ou, no limite, a “Marcha Nupcial”, também da ópera Lohengrin, todas de Richard Wagner!

Para não ter dois pesos e duas medidas, também poderiam “cancelar” Dmitri Shostakovich e Serguei Prokofiev, que apoiaram a Revolução Russa; proibir apresentações do Balé Bolshoi e do Grupo Berioska, pois foram usados como parte da propaganda soviética, cujo regime também foi responsável por milhões de mortes, bem como de perseguição a judeus, com seus “pogroms”; ou o Circo de Pequim, por conta da Revolução Cultural, de Mao… e por aí vai.

Enfim, matérias jornalísticas com essa configuram-se, no mínimo, incoerentes e inconsequentes, além de patéticas.

É uma pena…

Faz lembrar de um filme que vi recentemente, “Chamada Explosiva” (Índia, 2021), uma ficção que aborda limites do uso tendencioso ou inconsequente de meios de comunicação.

Adilson Luiz Gonçalves é escritor membro da Academia Santista de Letras.

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