“Sodade de vancê” | Boqnews

Ponto de vista

16 de novembro de 2022

“Sodade de vancê”

Sempre gostei de Rolando Boldrin!

Como ator, ele atuou em vários filmes e, principalmente, novelas, sempre expressivo e eclético, presença e voz poderosos. Seu Barão Leôncio, em “Os Deuses estão Mortos” (TV Record, 1971) foi, em minha opinião, seu papel mais emblemático!

Também cantor e contador de “causos”, protagonizou vários programas sobre música e cultura regionais brasileiras em todas as principais emissoras de canal aberto: “Som Brasil” (TV Globo, 1981-1984), “Empório Brasileiro” (1984-1986), “Empório Brasil” (SBT, 1989-1990), “Estação Brasil” (TV Gazeta/Rede CNT, 1995-1996) e “Sr. Brasil” (TV Cultura, 2005-2022), seu mais longevo.

Num palco pequeno, a iluminação minimalista, com a plateia bem próxima, dava um ar intimista e aconchegante, como se estivéssemos numa “roda de viola” ou “galpão crioulo”, só que com um pouco mais de sofisticação cênica.

A proposta desses programas sempre foi a mesma: mostrar manifestações culturais das diversas regiões do Brasil, com Boldrin assumindo seu sotaque e vocabulário caipiras. “Vancê” que o diga!

O tema de abertura era velho conhecido: “Corre um boato aqui, donde eu moro, que as mágoas que eu choro são mal ponteadas…”.

Seus convidados incluíam grandes autores, instrumentistas fantásticos e intérpretes consagrados, trazendo clássicos da música brasileira tradicional, tão diversificada quando bela.

Mas também pontuavam artistas populares maravilhosos, de todos os rincões do país, trazendo seus ritmos, cores e danças.

Como seus programas eram precisos e preciosos, ainda mais em tempos onde estrangeirismos e indigência cultural proliferam e imperam, com poucas opções!

Quando Boldrin contava “causos” ou recitava poemas, imergia de tal forma nas estórias, que emocionava quem o via e ouvia do riso aberto às lágrimas, que também vertia, como se fossem suas: empatia poética!

Tive a vã esperança de ouvi-lo recitar um de meus poemas em seu programa. Enviei à produção do programa três: “O Destino das Pedras”, “Berrante e Viola” e “Benza Deus!”, em janeiro deste ano. Muita pretensão, a minha.

No entanto, meu filho, Guilherme Algon, teve melhor sorte: foi convidado a participar da produção do especial “Eu, a viola e Deus” (TV Cultura, 2022), celebrando os 85 anos de Rolando Boldrin.

Responsável pela edição, Gui teve a honra de trabalhar com o consagrado diretor João Batista de Andrade, amigo de longa data de Boldrin, que já o havia dirigido em “Doramundo” (1978), uma das obras mais marcantes de ambos.

O documentário conta um pouco da história desse notável e querido artista, que ainda aparentava estar em plena forma. Parecia que ainda viveria muito, com o mesmo vigor e brilho. Viveu só mais um ano…

Mas recebeu “flores em vida” em sua terra natal, São Joaquim da Barra.

Como diz o poema de Vinícius de Moraes: “Se eu morrer antes de você”, que Boldrin tão bem recitava, sua partida nos entristece por demais, mas lhe devemos o favor de não brigar com Deus por Ele tê-lo levado, e de seguir o conselho de orar para que nós vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. 

Rolando Boldrin soube viver e não consta que sua vida tenha sido “marvada”, como a da música e de personagens de alguns dos poemas sertanejos que declamou. 

Ainda seguindo os versos de Vinícius, foi cuidar de sua nova tarefa no céu. 

“Sodade de vancê”, Boldrin! 

E fica o recado para quem fale que ele não soube viver: 

Chegue lá, no céu, que há de encontrá-lo num cateretê: ele, a viola e Deus! 

Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras

Adilson Luiz Gonçalves
Adilson Luiz Gonçalves
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.