Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Total abandono dos ideários

20 de outubro de 2014 - 15:36

Compartilhe

Apesar de aindar restar uma semana para a realização do segundo turno do pleito presidencial, o processo eleitoral em curso atestou, na prática, o total abandono dos ideais partidários no País, especialmente quando analisadas a formação das coligações que dão sustentação às candidaturas de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB).

Ao sabor dos interesses pessoais e regionais, despertados principalmente a partir do estabelecimento prévio de contrapartidas vantajosas e promessas de benesses futuras na administração pública, os acordos ora estabelecidos reúnem em um mesmo balaio posições híbridas e antagonismos históricos de lideranças políticas que jamais poderia-se imaginar estar ocupando, de braços dados, espaço em um mesmo palanque.

O oportunismo político, explicitado em todas as suas nuances pela propaganda eleitoral, tornam praticamente nulos os conteúdos dos pseudos programas de governo dos candidatos à Presidência. Na prática, as poucas propostas apresentadas até aqui revelam-se apenas termos de intenção adaptados aos interesses prementes dos eleitores.

A dualidade revelada por importantes representantes de partidos tradicionais, como o PMDB e PSB – só para citar dois exemplos -, que aderiram as duas candidaturas na medida e proporção de seus interesses, é uma demonstração inequívoca do desprezo aos princípios éticos e ideológicos que, na teoria, deveriam estar norteando a atividade política.

Sem parâmetros e limites para referenciar uma conduta coerente com os preceitos que deveriam reger a vida pública, os integrantes das legendas partidárias agem ao bel-prazer, convencionando seus interesses ao imediatismo das oportunidades oferecidas pelas possíveis vitórias nas urnas.

Da mesma forma, a excessiva personificação das candidaturas, como se vê no momento, favoreceu o surgimento de falsas lideranças e concentrou nas mãos de poucos as decisões de relevância para a sociedade, subtraindo assim a possibilidade de participação organizada das comunidades interessadas em contribuir para a implementação de projetos dirigidos à melhoria das condições de vida da população.

Nesse contexto, cabe ao eleitor, por sua vez, o entendimento de que o exercício de cidadania sobrepõe o simples ato de comparecimento às urnas. O papel de agente participativo e fiscalizador deve ser cumprido de forma efetiva e contínua, a fim de interromper a prática cotidiana do fisiologismo político. O desinteresse e a omissão tornaram férteis os espaços para a proliferação da corrupção e perpetuam a existência dos maus políticos, tornando mais distantes as soluções dos principais problemas enfrentados pela coletividade.

Assim, mais do que facultar a opção por esta ou aquela candidatura, o período eleitoral em curso deve representar um divisor de águas para a valorização de novos ideários políticos, que não incluam salvadores-da-pátria a serviço de poucos donos de partidos.