Ideias
Adelto Gonçalves

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Uma leitura brasileira de Pessoa, Bocage e Gonzaga

Em Quito, pesquisador Adelto Gonçalves discorre sobre a vida e a obra dos poetas em conferências para estudantes e acadêmicos

19 de junho de 2019 - 12:34

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Adelto Gonçalves Quito

O escritor Adelto Gonçalves no Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec) pouco antes do início da palestra. Foto: Arquivo pessoal

 

A convite da Embaixada do Brasil no Equador, o jornalista e escritor Adelto Gonçalves fez na segunda semana de junho duas apresentações de sua obra literária em palestras dirigidas ao público estudantil e acadêmico de Quito. Sábado, dia 8, no Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec), o pesquisador apresentou a um público formado por mais de 50 estudantes equatorianos de Português um alentado trabalho sobre sua trajetória literária que inclui nove livros publicados e uma nova obra a sair ainda neste ano pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Na segunda-feira, à noite, dia 11, participou, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrión, com o escritor Rogério Pereira, ex-diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do jornal mensal literário Rascunho, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário El Mercurio. Os dois encontros contaram com a presença e a participação do embaixador Joao Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa (1888-1935), Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Já Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.

De Fernando Pessoa, Gonçalves destacou que o ensaio “O ideal político de Fernando Pessoa”, que consta de seu livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória internacional interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.

Na introdução que escreveu para esta segunda edição, De Cusatis lembra que o fato de o ensaísta ter mostrado que o pensamento de Pessoa passava longe das hostes esquerdistas desagradou ao escritor Antonio Tabucchi (1943-2012), tradutor da obra de Pessoa para o italiano. Em artigo publicado no diário Il Corriere della Sera, de Milão, em 31 de maio de 2001, Tabucchi acusou De Cusatis de se basear num ignoto brasiliano (brasileiro desconhecido), como se lê à página 24 da edição atual de Politica i Profezia. De Cusatis destacou que “Adelto Goncalves é um ensaísta de prestígio e crítico, autor de uma biografia crítica do poeta português Tomás Antônio Gonzaga publicada em 1999 pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro”.

 

Adelto Gonçalves Quito

Plateia acompanha a palestra do escritor Adelto Gonçalves no Centro Cultural Benjamin Carrión: na primeira fila, o embaixador João Almino. Foto: Arquivo pessoal

 

Durante a apresentação, Gonçalves lembrou que Fernando Pessoa se definiu como “um conservador ao estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionário”. Mais: Pessoa era contra o comunismo, o socialismo, o catolicismo e o revolucionarismo. Mas nunca fez a defesa explícita da escravidão. “Seria um anarquista utópico, mas de direita, tal como se autodefiniu certa vez Gilberto Freyre (1900-1987)”, acrescentou.

Lembrou, porém, que Pessoa defendia que havia um imperialismo da cultura, ou seja, certos povos exerceriam influência sobre outros. “Como exemplo, citava a França”, disse, lembrando que esta posição política do poeta tem despertado protestos de intelectuais africanos para a decisão da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) de dar o seu nome a um programa de bolsas para estudantes. E que seria melhor optar por um nome mais consensual, como o poeta moçambicano José Craveirinha (1922-2003), Prêmio Camões de 1991, filho de pai algarvio e de mãe ronga.

Depois de fazer referência a escritores equatorianos como Jorge Icaza (1906-1978) e Jorge Enrique Adoum (1926-2009), Gonçalves destacou principalmente a vida de Tomás Antônio Gonzaga, lembrando que, em Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), corrigiu a informação do professor e filólogo português Rodrigues Lapa (1897-1989) segundo o qual o poeta, no exilio na Ilha de Mocambique, casara com a “herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócios da escravatura” e dedicara “as horas vagas ao rendoso comércio de escravos”.

“De fato, Gonzaga casou em 1793 com Juliana de França Mascarenhas, de 18 anos de idade, filha de Alexandre Mascarenhas, que era escrivão e subordinado ao poeta na estrutura judiciaria da comarca local. Mais: Mascarenhas morreria em 1793 e, portanto, Gonzaga não teria tempo de ajudar o sogro arredondar a fortuna, como disse Lapa”, observou.

“Além disso, Mascarenhas não era pessoa de muitas posses: tinha uma casa na ilha e outra no continente fronteiro que obtivera pelo casamento”, disse, ressaltando também que nas edições da Gazeta de Lisboa, de 1792 a 1810, Gonzaga, autor de Marília de Dirceu, só seria superado em número de citações por Bocage, que sempre viveu em Lisboa, com exceção dos quatro anos (1786-1790) que passou entre Rio de Janeiro, Goa, Damão e Macau”. Lembrou ainda que Gonzaga não participou do comércio negreiro, embora como advogado tenha trabalhado para grandes comerciantes de escravos. “Ele tinha cerca de 30 escravos para o trabalho doméstico. Já os grandes traficantes aparecem nas listas como proprietários de mais de três centenas de escravos”, disse.

 

Adelto Gonçalves Quito

Sonia Paredes, assessora cultural da Embaixada do Brasil em Quito, o embaixador João Almino, o escritor Adelto Gonçalves, sua esposa Marilize, e Katia Salvado, diretora do Ibec. Foto: Arquivo pessoal

 

De Bocage, Gonçalves destacou que, em Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), provou com documentos que o poeta não nasceu na Rua de São Domingos, atual Edmond Bartissol, em Setúbal, mas sim numa casa localizada à Rua das Canas Verdes, atual António Joaquim Granjo, na esquina com o Largo de Santa Maria. “Essa casa a mãe de Bocage herdara do avô, Leonardo Lustoff, comerciante, representante de interesses batavos em Setúbal, que fora cônsul da Holanda. Em 1771, o pai de Bocage, José Luís Soares de Barbosa, ouvidor em Beja, seria acusado de desviar a arrecadação da décima, ficando preso na cadeia do Limoeiro até 1777. A casa, sequestrada, iria a leilão em 1800. Da documentação referente à Rua de São Domingos, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, não há registro de que alguma família Bocage ou Barbosa tenha residido naquela casa. Até hoje, porém, a Câmara Municipal de Setúbal não se resolveu a adquirir o imóvel da verdadeira casa onde nasceu Bocage. E corrigir uma informação equivocada de quase século e meio”, concluiu.