Djamila Ribeiro, a filósofa que deu voz às falas das minorias sociais | Boqnews
Foto: Reprodução/Djamila Ribeiro/ Instagram
13 de julho de 2026

Djamila Ribeiro, a filósofa que deu voz às falas das minorias sociais

Quis o destino que a filósofa Djamila Ribeiro não fosse santista.

“Sou a única entre os meus irmãos que nasceu em São Paulo”, comentou perante os alunos e convidados da Unifesp – campus Baixada Santista em uma fria e chuvosa tarde de junho.

Mas durante toda sua infância, juventude e até na fase adulta morou em Santos, cidade do litoral paulista, sua “cidade do coração”, como gosta de falar.

Estudou no tradicional Colégio Moderno, unidade edificada pelos trabalhadores portuários, origem de sua família.

Cursou até o início do terceiro ano o curso de Jornalismo – fato pouco conhecido pelos seus milhares de leitores – na Universidade Santa Cecília, em Santos.

Porém, a descoberta da gravidez no meio do curso interrompeu seus planos de ser jornalista.

Por ironia, hoje, é uma das colunistas do prestigiado jornal Folha de S. Paulo, onde escreve semanalmente.

E seus textos e falas percorrem o mundo – abrindo espaço justamente para quem tem pouco espaço na sociedade.

No entanto, mesmo com uma filha pequena nascida em Santos (hoje com 21 anos), ela não interrompeu seus sonhos.

Matriculou-se anos depois em Filosofia, no campus Guarulhos da Unifesp.

E, entre idas e vindas de Guarulhos até Santos, onde morou até 2016, se formou, ganhou projeção e construiu sua carreira internacional.

Hoje, faz palestras e se tornou referência como filósofa e ativista fundamental na popularização do feminismo negro e na luta antirracista no Brasil.

Recentemente, lecionou em universidades dos Estados Unidos e na Europa para falar sobre o tema.

Em nova versão, livro Lugar de Fala teve lançamento no auditório da Unifesp, na Rua Carvalho de Mendonça. Foto: Fernando De Maria

Lugar de Fala

De volta a Santos, cidade a qual  considera como sua terra natal, ela participou de aula magna no campus da Unifesp da Baixada Santista.

Na ocasião,  lançou a nova edição do livro Lugar de Fala, um dos mais procurados na categoria Estudos sobre pessoas africanas e afrodescendentes na Amazon, plataforma digital de livros.

Confira trechos da entrevista coletiva concedida pela filósofa antes da sua fala na Aula Magna aos alunos, amigos e professores que a aguardavam no auditório da instituição na Vila Mathias, em Santos, em uma tarde/noite chuvosa em Santos, no litoral paulista, no final de junho.

Djamila Ribeiro contou sua trajetória aos alunos, professores e convidados que a prestigiaram no auditório da Unifesp. Foto: Fernando De Maria

O que representa a nova versão do seu livro e o que que mudou no seu modo de pensar em relação ao lugar de fala?

Djamila Ribeiro – A primeira edição foi em 2017 e o livro se tornou um best seller com a popularização.

Vieram muitas simplificações ao conceito, porque eu acho que isso faz parte também.

Por um lado, tem uma questão positiva.

Pelo menos sai do círculo acadêmico.

Lugares de fala não são o que você fala, mas de onde fala.

Até para que a gente possa entender a origem social da desigualdade, para a gente entender porque não existem tantas pessoas negras, por exemplo, como referências bibliográficas.

Quando a gente entende esse lugar social, porque parte de um lugar social marcado, assim a gente vai compreender por que que essas produções, por exemplo, não estão como deveriam estar.

Então, é importante para reconhecer tantas opressões, tantos privilégios para que a gente também não os naturalize.

Porque as pessoas que vão acreditar que os seus privilégios são naturais e não construídas à base de opressão a outros grupos.

É nessa nova edição, agora publicada pela Record, que eu trago estas análises.

Lugares de fala não são o que você fala, mas de onde fala.

Com capítulos novos, porque foram quase 10 anos desde a primeira publicação.

Assim, muitos debates surgiram.

Então,  ela encontra a autora de 2017 e a autora de agora mediada por essas transformações sociais que aconteceram nessa última década.

-Você mudaria o conceito sobre o que é lugar de fala a partir de saber toda essa vivência que você teve neste período?

Djamila Ribeiro – Eu acho que eu ampliei, né?

Eu estou pensando no lugar de fala no jornalismo, no marketing de influência, na teoria feminista.

Então eu acho que não é uma revisão pontual, mas uma ampliação substancial de como é possível pensar o lugar de fala também em outras frentes e não só naquelas presentes na publicação original.

– Você teve  uma experiência acadêmica nos Estados Unidos e Europa recentemente? Quais as principais diferenças?

Djamila Ribeiro –   Por que que as produções ainda legitimam como centralidade o pensamento hegemônico europeu? Isso é discutir lugares de fala, né?

Por que a gente não tem as produções nossas aqui, mostrando nossas experiências?

A nossa formação é excelente no Brasil, mas nós, como brasileiros, desmerecemos o nosso próprio País. Afinal, a nossa formação educacional não deve nada?

Eu cheguei lá para dar aula e muitas vezes eu me sentia um pouco que uma produção nos Estados Unidos muito centrada no próprios Estados Unidos.

E na Europa também é uma produção muito centrada na Europa.

Assim, no nosso País devemos também pensar e valorizar as produções daqui.

Assim, eles desconhecem as produções que vêm na América Latina, de África, dos países asiáticos…

Já a gente chega com uma visão muito mais rica de mundo, de entendimento do mundo, porque no Brasil a gente tem mais acesso a essas visões.

É claro que lá tem uma estrutura fantástica.

Tive acessos importantes, o que infelizmente no Brasil não tem, como maior investimento em pesquisas.

São bibliotecas com produções.

Assim, você acaba tendo acesso e este é um lado positivo, mas eu acho que nós, no Brasil, com a nossa formação, ela não deve nada.

Assim, no nosso País devemos também pensar e valorizar as produções daqui.

Acho que eu estudei Filosofia, não só estudei o pensamento europeu, né?

Quando eu quis estudar o pensamento africano, eu ouvia de professores que não existia.

Então, eu acho que o Brasil também acaba reproduzindo isso e precisa também ampliar e trazer mais as produções do Hemisfério Sul e do mundo.

– Mas muitas vezes são usadas referências do exterior…

Djamila Ribeiro – Sim, eu sempre falo aqui.

Eu adoro os filósofos europeus, mas não podemos invisibilizar os outros.

Este é o grande problema.

Quando a Ângela Davis (ativista americana) faz esse questionamento, não  para gente deixar de ler, mas também deveríamos estar lendo Lélia Gonzalez, Luiza Helena de Bairros, e autoras que estão produzindo aqui.

-Como você analisa o episódio que ocorreu em São Paulo, com a presença de policiais dentro de uma escola por questionamento de um pai sobre o ensino de matizes africanas? (leia mais aqui)

Djamila Ribeiro – Quando você  chama a polícia para dentro da escola para questionar uma diretora por conta de uma representação de Iansã, a gente percebe o quanto ocorre a violência em relação às produções negras,  daquilo que é produzido pela população negra, que é demonizada.

As religiões afrobrasileiras são demonizadas no Brasil.

Então as pessoas não questionam os estudos da mitologia grega, da mitologia romana, mas quando estudam a mitologia iorubá, eles colocam nesse lugar da demonização, a ponto de chamar vários policiais para dentro da escola, sendo que a diretora simplesmente estava seguindo a Lei 10.639

(Nota da Redação: Lei que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira).

Isso é uma lei que inclui a história africana, a África brasileira nas escolas, em um País como nosso que faz parte da nossa história.

Então, a gente percebe que a gente avança, mas o quanto a gente retrocede ao mesmo tempo ao ver ações absolutamente violentas como essa.

As religiões afrobrasileiras são demonizadas no Brasil.

Que bom que a diretora teve uma postura ali muito interessante.

Dizer ‘não, eu estou seguindo o que a lei diz’.

Mas a gente percebe o quanto a gente ainda tem para avançar quando esse tipo de ação acontece em um ambiente escolar.

A filósofa Djamila Ribeiro esteve recentemente no campus da Unifesp – Baixada Santista. Foto: Fernando De Maria

– Você esteve recentemente lecionando nos Estados Unidos. Como você vê o crescimento de movimentos contrários às minorias, aumento do racismo e ataques às universidades públicas?

Djamila Ribeiro – Eu acho que acontece justamente porque nós avançamos.

Porque são recentes essas mudanças no Brasil,  tanto da ampliação de políticas públicas, da expansão das universidades públicas, como da adoção de políticas afirmativas.

Isso mudou a cara da universidade.

Trouxe pessoas e grupos que historicamente não tinham acesso e, é claro, quem estava no poder se incomoda com isso.

Então, a gente está tendo nenhuma reação aos avanços que existiram nos últimos anos.

Eu mesmo só fruto dessas políticas de expansão nas universidades públicas.

Eu estudei num campus da Unifesp,  onde me graduei.

Fiz o meu mestrado e já mais velha, com 27, 28 anos, estava na faculdade.

– Neste sentido, por qual razão existem tantos ataques às universidades públicas?

Djamila Ribeiro – Fui a primeira da minha família ter acesso à universidade por conta de políticas públicas. Então, é claro, quem sempre esteve nesse lugar do privilégio acaba fazendo esses ataques.

Mas eu acho importante de reconhecer que esses ataques só estão acontecendo porque nós avançamos.

Que a universidade começou a mudar de carro e cabe a nós seguir lutando, não tem outro jeito.

– Você tem tentado quebrar essas esse tipo de barreira e sempre impõe um lugar de fala a pessoa negra…

Djamila Ribeiro – Eu acho que existe essa questão de fixar as pessoas negras em determinados lugares, né?

E achar que por ser uma autora negra necessariamente tem que abordar determinados temas, mas pra mim é uma escolha política também como feminista que sou de falar também de várias autoras.

Desses temas, eu não me canso, porque eu também falo de outros assuntos em outros espaços, mas eu acho que excluir a discussão racial, por exemplo, da questão educacional, não me faz sentido porque eu acho que não tem como a gente falar de educação no nosso País sem falar da produção das pessoas negras.

Matar a sua cultura é matar a sua história, então ela deve se manter viva.

Eu acho que quando a gente fala de raça e de gênero como coisas específicas e a gente não entende que falar desses temas é falar de estruturas, então, para mim, quando eu estou falando de habitação, eu estou falando da questão racial.

Por exemplo, quando se coloca a escritura de um imóvel em projeto habitacional na mão das mulheres, muitos tratam como algo identitário, uma  visão equivocada, e não percebe que a gente tá falando de projetos. Então, eu acho que talvez seja essa diferença.

Chaguinhas é reverenciado até hoje em pequena capela no bairro da Liberdade, em São Paulo. Aqui, Santos não reconheceu sua história. Foto: Reprodução

-Recentemente, a Câmara de Santos rejeitou proposta de mudança de nome da Rua Tiro 11 para Chaguinhas, um líder negro do início do século 19. Por que até hoje isso ocorre?

Djamila Ribeiro – A história ainda é contada pela perspectiva única, né?

Há um filósofo austríaco, Walter Benjamin, que dizia que é a história contada pelo ponto de vista dos vencedores e se a gente não enfrentar a história tradicional, os vencedores nunca desistirão de vencer.

Então a gente percebe que os vencedores seguem vencendo quando, por exemplo, a gente não consegue nomear uma rua.

A gente mata a história de um povo. De matar um povo também.

Matar a sua cultura é matar a sua história, então ela deve se manter viva.

A memória dessas pessoas é uma maneira de contar a história pela perspectiva da população negra que construiu também essa cidade.

Se nós construímos, por que que nós não somos lembrados? São sempre os mesmos grupos lembrados.

Então, às vezes, acho que falta isso para as pessoas entenderem.

Que não é um debate identitário.

É é um debate por justiça, por memória, por reparação, por reconhecimento.

 

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(*) Entrevista feita em conjunto com o jornalista Marcos Ferreira, do Jornal da Orla

Fernando De Maria
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