Advogado diz que juiz ‘induziu’ depoimento para confirmar acusações
Um dos advogados que atuam na Operação Lava Jato, Alberto Toron, defensor do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, disse ao juiz federal Sergio Moro que ele induziu respostas da testemunha Augusto Ribeiro de Mendonça Neto de modo a confirmar as acusações do Ministério Público Federal sobre o esquema de corrupção na Petrobras.
A afirmação foi feita nesta segunda-feira (2) durante o depoimento de Mendonça Neto, executivo da Toyo Setal, na ação penal contra executivos das empresas Camargo Corrêa e UTC, acusadas de formarem um cartel para ganhar licitações da Petrobras e pagarem propina para obter contratos.
Segundo Mendonça Neto, Pessoa era o presidente de um “clube” das empreiteiras e levava para a Petrobras uma lista de empresas que seriam convidadas para disputar determinadas licitações. Toron indagou ao depoente se ele já havia visto pessoalmente a suposta lista ser levada por seu cliente.
Mendonça Neto disse que nunca tinha visto, mas que as empresas convidadas “eram as que deviam ser convidadas”. Foi então questionado pelo juiz Moro: “Conferia então com o resultado da prévia definição entre as empreiteiras?”. A testemunha respondeu positivamente, dizendo que por isso podia “deduzir” que a lista era entregue.
O advogado tentou indagar como era feita essa dedução, momento em que foi interrompido por Moro.
Toron então rebateu o juiz: “Vossa Excelência vai responder por ele? Aliás eu queria lançar meu protesto aqui, com a devida e máxima vênia à pessoa de Vossa Excelência, registrado que todos nós respeitamos, mas as perguntas de Vossa Excelência, muitas delas já tinham as respostas e eram profundamente induzidas para confirmar, com a devida vênia, a hipótese acusatória”.
Moro afirmou que Mendonça Neto havia acabado de responder à pergunta e, após a breve discussão com o advogado, encerrou o depoimento. Moro não respondeu diretamente à dúvida levantada pelo advogado.
Toron chegou a dizer ainda que esse era “o sentimento de todos” e que quis deixar registrado o protesto para decidir se futuramente usará essa manifestação.
O juiz vem sendo alvo de críticas pelos advogados dos acusados na Operação Lava Jato, que já pediram sua suspeição para conduzir o caso. Até agora, porém, não obtiveram sucesso em afastá-lo dos processos.
Pessoa e outros empreiteiros estão presos em Curitiba desde novembro do ano passado. O juiz já recusou inúmeros pedidos de relaxamento das ordens de prisão.
Procurada, a Justiça Federal do Paraná informou que Moro não comentaria declarações dos advogados e que só se manifesta nos autos.