Conheça histórias de casais homoafetivos que constituíram família
“Família é quem a gente quer estar junto”. Esta frase, dita pela estudante de Relações Internacionais Rose Lapa, durante a entrevista, resume os relatos nestas páginas. Casos reais de amor e cumplicidade.
Mulheres que assumiram sua orientação sexual e ao lado de sua parceira lutaram pelo direito de ter uma família. Algumas, ainda estão no início do sonho de serem mães.Já outras conseguiram passar os melhores ensinamentos aos seus filhos, mesmo com as dificuldades e preconceitos.
De acordo com a advogada e Membro da Comissão de Direito Homoafetivo e Diversidade Sexual da OAB/Santos, Patricia Gorisch, os homossexuais têm menos 87 direitos que os heterosexuais, mesmo pagando os mesmos impostos.
“Temos que mostrar a realidade para que o mundo comece a enxergar de outra forma. Todos têm o direito de ser feliz!”, enfatiza.

O jovem casal Bárbara e Tainara estão juntas há seis anos. A sinceridade e felicidade no olhar ao falar da família constituída é imbatível.
Tainara, desde a adolescência, sonhava em gerar um bebê para sentir todos as etapas da gravidez. Já Bárbara tinha a vontade de ser mãe.
A primeira tentativa de inseminação para Tainara engravidar não deu certo. E isto foi frustrante para o casal. “Seguimos todas as recomendações, mas não foi o resultado que esperávamos. Durante uns dois dias nos isolamos em casa e não conseguíamos conversar”, lembram.
Mas a união e amizade existentes entre as duas foi mais forte. Juntas, elas superaram e decidiram tentar mais uma vez. Por sinal, Bárbara e Tainara se consideram um casal à moda antiga, já que sempre conversam antes de qualquer decisão.
A segunda tentativa, elas resolveram manter em segredo. “Eu não estava muito confiante. Tanto que subi escada, dançamos, fiz tudo que não era para ter feito”, conta Tainara. “A menstruação atrasou um dia e a Bárbara disse para eu fazer o teste de gravidez”. Depois do exame, uma grande surpresa: o bebê estava a caminho.
Já com nove meses de vida, Sebastian, de fácil sorriso e uma covinha na bochecha esquerda, encanta a todos. Nos olhos, brilho intenso ao observar as mães.
“Ele é um encanto. Uma paz! É um amor que transcende. Inexplicável. Independente da Ciência, nada acontece se Deus não quer”, ressaltam.
Na última terça-feira (5), o casal participou da primeira festinha escolar em homenagem ao Dia das Mães. Para elas, uma emoção sem tamanho. “Perguntaram se alguém nos olhou torto. Se sim, não notamos. Afinal, isso não importa, pois estávamos lá para ele”, contam.
Com os olhos marejados, Rose Lapa conta sua história ao lado de duas grandes heroínas: Terezinha Cândido de Barros, já falecida, e Maria Lúcia Sérgio.
Terezinha, sua avó, era casada e tinha três filhos. Na época, o casamento ocorreu por questões econômicas, mas depois de anos, ela resolveu se separar. Durante o processo de separação, conheceu Maria Lúcia por quem se apaixonou e viveu uma linda história por 35 anos.
Como a mãe biológica da Rose não tinha condições de criá-la, Terezinha lutou pela sua guarda definitiva, criando-a desde os primeiros meses de vida. Desde então, Rose se sentia privilegiada com as duas mães. Contudo, ela assume que enquanto criança não desconfiava que suas mães eram um casal. Até porque ela nunca tinha visto nenhuma manifestação pública de carinho.
Ela conta que sofreu bullying na escola por ser filha de um casal homoafetivo, mas que isto nunca a magoou diretamente. Para Rose, a sua família era igual a das outras crianças. “Sempre recebi muito amor. Isto bastava”.
Atualmente, Maria Lúcia mora com Rose, que é casada e tem uma filha de quatro anos. Alguns sonhos de Terezinha e Maria não foram realizados, como, por exemplo, uma viagem de cruzeiro. “Levei minha tia (Maria) para a viagem. Consegui realizar, em parte, este sonho”, diz, orgulhosa.
Outro desejo de sua avó era vê-la formada em uma universidade. “Nunca tivemos coisas materiais. Morávamos na Vila Telma, em palafitas. Nossa vida foi difícil, mas com muito amor. Minha avó sempre quis que eu estudasse e daqui a um ano vou me formar. Estou muito feliz”, conta com lágrimas no olhar.
O grande desejo de Rose é repassar todo o aprendizado que teve ao lado de suas guerreiras à filha. “Ela será livre para o amor. Livre para ser feliz”, conclui.
Bruna Salatiel, de 24 anos, gosta de ressaltar que suas mães são exemplo de luta e motivos não lhe faltam! Mas elege um como o principal: assumir a homossexualidade em pleno anos 90. “Elas enfrentaram a época, a família e a sociedade para serem como são”, diz.
Rosangela, a mãe biológica da Bruna, era noiva e faltando um mês para o casamento, foi morar sozinha e viveu uma aventura. Já Cida casou-se, teve dois filhos e separou-se. Tempos depois, o ex-marido faleceu.
“Em 1995, quando se conheceram, enfrentaram muito preconceito, principalmente por parte da família da Cida, que já havia se casado antes”, conta. “Elas uniram forças para lutar e criaram três crianças”. Além disso, batalharam para se formar em Direito. E conseguiram.
No dia 2 de fevereiro de 2013, Rosangela e Cida oficializaram a união de 18 anos. Em um artigo na internet, Bruna diz que “algumas pessoas acharam um absurdo fazer cerimônia de casamento. Mas o importante é nunca ceder, porque nós temos o direito de amar quem quisermos!”.
Demonstrando muito orgulho de suas mães, Bruna diz que se sente privilegiada pela família que tem, livre de preconceitos e com muita união. “Uma mãe já é muito bom. E eu tenho a sorte de ter duas! Tudo o que uma mãe dá para um filho, eu tenho em dobro”, destaca. “E eu também dou presente em dobro. No Dia das Mães o presente é duplo. E no Dia dos Pais também!”, brinca.
Marisa e Carla, ambas professoras, se conheceram na escola onde lecionavam. Carla, viúva e doze anos mais velha que Marisa, têm três filhos do seu casamento heterossexual.
Como Carla já havia experimentado o prazer de passar pelo processo da gravidez foi Marisa quem gerou a pequena Carolina.
“Decidimos fazer por processo de fertilização in vitro, pois as chances eram maiores e como precisaríamos de sêmem, compraríamos apenas uma vez. E assim foi feito”, contam.
A primeira tentativa não deu certo e elas sofreram bastante por isso. Mas decidiram que tentariam novamente. “Fizemos vários exames para saber o porquê não ter dado certo. Utilizamos novos meios e a nossa princesa veio!”.
Juntas há quase 10 anos, ambas tem uma página no facebook chamada Duas Mães Para Uma Vida, com mais de mil seguidores. No espaço, elas trocam experiências com outros casais homoafetivos e promovem encontros, cujo objetivo é mostrar que é possível duas mães ou dois pais constituírem uma família para uma criança, sem qualquer preconceito.