Conquista histórica
Se as perspectivas do prefeito João Paulo Tavares Papa (PMDB) para 2010 se confirmarem, Santos já deverá ficar muito perto do que lhe é desenhado para um futuro a longo prazo. A aprovação de projetos como o Santos Novos Tempos, que deverá enfim sair do papel, o início das obras do Museu Pelé, além da chegada efetiva dos efeitos do pré-sal com a revitalização do Valongo — onde serão edificadas as três torres da Petrobras e a implantação do Parque Tecnológico —, que tendem a impulsionar a economia na Cidade, estão entre os ingredientes que motivam Papa a crer em 2010 como um ano-marco para o Município.
Em entrevista exclusiva concedida ao jornal Boqueirão, o prefeito fez um balanço sobre a governabilidade no ano que passou, discorreu sobre perspectivas para o que se inicia, e falou também sobre pontos que, ao longo de 2009, ganharam ares polêmicos, como o choque constante com a base aliada na Câmara dos Vereadores e a recente não-inclusão de projetos como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e a ponte Santos-Guarujá no Orçamento do Governo do Estado.
Boqueirão – Qual o balanço que pode ser feito da administração nesse primeiro ano de segundo mandato?
Papa – É um balanço positivo. A cidade reagiu bem à crise. Tomamos algumas medidas que ajudaram, como quando adiamos a reforma administrativa e uma ação mais efetiva no trabalho de pavimentação. Foram medidas que, hoje, analisamos que tiveram algum ônus político, mas, do ponto de vista administrativo, foram acertadas. Um exemplo é a reforma administrativa, que adiamos por um ano. Seguramos a ansiedade. E foi bom, porque nesse período pudemos amadurecer alguns aspectos e conceitos, que a deixaram melhor. Até politicamente, pois havia uma cobrança. Na infraestrutura, seguramos alguns investimentos. 
Um exemplo é o trabalho de pavimentação, que costuma exigir até R$ 1,5 milhão por mês. Praticamente não atuamos nisso. Fizemos o mais pontual. Priorizamos o distrito industrial da Alemoa, por uma questão de compromisso e segurança. Isso tem um ônus, mas julgamos ter sido uma decisão acertada, visando um equilíbrio orçamentário. Com essas medidas e outras que tomamos, como segurar um pouco as horas extras e ampliar os controles no consumo de água e energia, conseguimos terminar o ano bem.
Boqueirão – Mesmo com essa retenção, houve ganhos do ponto de vista de resultados?
Papa – Tivemos conquistas estratégicas, sem custos elevados, mas históricas. Há a aprovação no Senado do Santos Novos Tempos na última semana. A solução definitiva para o Museu Pelé, uma ação fundamental, que não exigiu grandes recursos, mas muito trabalho, e que para 2010, já teremos iniciadas as obras para que o museu seja inaugurado em 2012. Há o nosso Parque Tecnológico, que exigiu trabalho, mas sem necessidade de abrir os cofres. 
A conclusão do projeto de Lei, atualmente na Câmara Municipal, que vai fazer uma transformação radical na área central, no campo da habitação. Não é um investimento direto de recursos públicos, mas de trabalho. Há ainda a preparação da cidade para os Jogos Abertos do Interior, em outubro próximo, com a construção de novos equipamentos e todo o trabalho político para trazer a competição. Há a reforma de escolas e construção de novas, como no Macuco e no Morro da Nova Cintra. Na saúde, entregamos farmácias populares, e o Pronto Socorro Central foi modificado, abrigando hoje uma UTI com nove leitos. Os programas de Saúde da Família se estenderam e atendem hoje até 38 mil pessoas.
Adiamos alguns outros investimentos para não prejudicar as áreas de saúde e educação.
Boqueirão – 2009 foi um ano em que, por diversas oportunidades, como no caso do remanejamento orçamentário, a Prefeitura e a base aliada da Câmara, que é maioria, não se entenderam. Como o sr. avalia isso?
Papa – Acho que foi positivo. Vivemos numa cidade que se diferencia no País por sua combatividade política e pela diversidade. A relação do Executivo com o Legislativo tem que ser respeitosa e independente, mas não de submissão. Choques que aconteceram esse ano são naturais, mostram que tanto o Governo como o Legislativo têm personalidade, e que nem sempre as nossas visões coincidem. E quando isso acontece, divergimos publicamente, como é da natureza da democracia. Isso não abalou em nada minha relação de respeito com o Legislativo, e não abalou, certamente, a relação de respeito deles com o Governo. Agora, não somos cordeiros, nem aqui, nem os vereadores. Diga-se de passagem, os vereadores sofrem pressões de grupos diversificados. E o prefeito, em alguns momentos, tem que tomar uma decisão que não é a mais agradável, mas é a final. Não é fácil ter a palavra final. Há bonus e ônus, há desgastes, muitas vezes. Mas nunca deixei de receber e receber muito bem os vereadores, muitas vezes para dizer não.
Boqueirão – Recentemente houve a aprovação do projeto Santos Novos Tempos no Senado. Quando começarão as primeiras ações práticas?
Papa – Penso que, para 2010, já teremos obras, mas as ações, na prática, já começaram bem antes. Há anos estamos elaborando projetos e buscando parceiros. O Banco Mundial não é um parceiro fácil de se conquistar. Além disso, o Santos Novos Tempos vai além do financiamento. Ele engloba parcerias com os governos Federal e do Estado, com órgãos ambientais e com o Porto — há um componente dentro do programa que está relacionado com a revitalização da área portuária do Valongo. Então é um grande plano de desenvolvimento com inclusão social. O que ocorre é que, para os próximos anos, e o marco é 2010, estaremos começando ações mais práticas, intervenções, ou seja: obras. Prevejo uma conclusão em um prazo de cinco e, dependendo do tema, até talvez dez anos. Estamos falando de uma gigantesca transformação. E que fique claro a todos que essa ação exigirá discussão e paciência.
Boqueirão – Outra questão que deverá ter continuidade em 2010 é a pretensão de Santos ser uma subsede da Copa do Mundo em 2014. Como está a questão?
Papa – É uma meta nossa, um objetivo e uma prioridade. Santos tem tudo para ser uma subsede, ainda que a decisão dependa da FIFA e das seleções. Agora, é preciso lutar por isso, construir esse caminho. Além do fato de termos o maior porto do hemisfério sul, da revitalização do Valongo e da proximidade com São Paulo, é preciso uma cooperação muito forte entre o Santos Futebol Clube e as prefeituras da região. Nós estamos caminhando. Demos os primeiros passos na Administração Marcelo Teixeira e vamos continuar com o presidente Luís Álvaro. É uma parceria institucional. A Prefeitura age porque é desejo do povo de Santos e o Santos Futebol Clube também agirá da mesma forma. É uma grande oportunidade
Boqueirão – Ainda na alçada esportiva, o que está em vista para os próximos tempos, até levando em consideração a preparação de atletas para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro?
Papa – O ano de 2010 será especial para o esporte santista, a começar com a realização dos Jogos Abertos do Interior. Por conta disso, estamos construindo equipamentos que a Cidade nunca teve, como a arena multiuso na Vila Mathias, para 5 mil pessoas, e instalações de apoio a atletas e imprensa. Também vamos tentar construir, com parcerias, uma pista de atletismo que a Cidade não tem. Temos também o objetivo de aperfeiçoar o complexo M.Nascimento, na Zona Noroeste, e investir na preparação das nossas equipes, no que diz respeito ao esporte de alto rendimento. Ao mesmo tempo, o projeto Escola Total está ampliando o estímulo das crianças ao esporte na rede pública. No Colégio Santista (atual Marista), inclusive, será implantado um centro de atividades integradas, com esporte, cultura, saúde e lazer. Com isso, garimpam-se talentos para o esporte de alto rendimento. E venho conversando com o governador (José) Serra (PSDB) sobre a possibilidade de transformar Santos em um centro de referência e excelência esportiva que o Estado está pretendendo estimular, voltado às Olimpíadas de 2016. Isso já está em discussão.
Boqueirão – Por falar nisso, o Orçamento para 2010 do Governo do Estado causou surpresa ao deixar de fora das previsões gastos com a ponte Santos-Guarujá e com o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), obras há muito comentadas para a Cidade e região. O que o sr. pensa a respeito disso?
Papa – A possível futura ligação Santos-Guarujá, como já vinha dizendo o governador, será uma ponte pedagiada, como a balsa. Por isso, não é o indicador, no orçamento, que será um impedimento. Não depende de orçamento. No momento, estamos dependendo de um bom projeto. Do lado de Santos, ele está razoavelmente bem resolvido. Há hoje uma dificuldade em relação a Guarujá,e esperamos que possa ser técnica e politicamente superada. Se for superada, esse Governo vai tomar as providências para formatar a licitação e aí o setor privado construirá e será remunerado pelo pedágio. A questão agora é de superação dos problemas técnicos. Com o VLT, a mesma coisa. O projeto está bem avançado, e a implantação será na forma de uma PPP (Parcerias Público-Privadas). Portanto, não é um problema orçamentário, não é uma questão limitadora.
Boqueirão – A Baixada Santista, e principalmente Santos, vem sendo muito comentada e visada ultimamente, especialmente em virtude dos avanços decorrentes do pré-sal. A partir de 2010, como se mostra o cenário que se desenha para a Cidade?
Papa – Santos tem para os próximos anos, mais precisamente, para as próximas duas décadas, grandes perspectivas, bem otimistas, e que precisam ser trabalhadas nesse momento. A juventude santista precisa se preparar porque, ao mesmo tempo que o mercado, a economia e as descobertas apontam para um futuro promissor, mostram também para exigências maiores na qualificação e no planejamento da Cidade.
Precisamos cuidar para que a nossa população se insira no projeto, para que não venham jovens e profissionais de outras localidades para aproveitar esse mercado. Neste ponto há um desafio coletivo: o de criar um ambiente de planejamento sério e responsável, e o individual, que é o de se capacitar para esse bom momento.