Foto: Divulgação/Agência Brasil

Brasil

19 DE NOVEMBRO DE 2021

Dia da Consciência Negra marca luta pela igualdade racial

Celebrado neste sábado (20), data marca a luta pela igualdade racial no Brasil e expõe desafios na história

Por: João Pedro Bezerra

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“Não lutamos por integração ou por separação. Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos”. A frase dita pelo ativista afro-americano Malcom X, assassinado em 1965, continua tendo um forte impacto, mesmo após tanto tempo.

Infelizmente, o Brasil ainda presencia cenas de racismo diariamente e a população negra continua sofrendo, sobretudo nos grandes centros urbanos.

O Dia da Consciência Negra (20) foi instituído oficialmente em todo território nacional no ano de 2011.

A data faz alusão à morte de Zumbi dos Palmares, líder do quilombo Palmares.

Apesar do dia especial, não há nada para comemorar no País, porque estamos longe de uma igualdade racial. Não bastasse, a pandemia contribuiu para avançar esta discrepância. É importante frisar que a questão do racismo é muito mais complexa do que nós imaginamos.

Por sua vez, é fundamental presenciar o engajamento e o posicionamento das pessoas que tem aumentado nos últimos anos.

Questão histórica

O doutor em Antropologia Social pela Universidade do Texas, em Austin (EUA), Jaime de Amparo Alves, ressaltou em entrevista ao Jornal Enfoque/Manhã de Notícias desta sexta-feira (19), que a escravidão do Brasil foi abolida ‘ontem’.

“O Brasil foi o último país da América do Sul que aboliu a escravatura no ano de 1888. Meu bisavô viveu o fim da escravidão. É tudo recente”, ressaltou. Vale destacar que não houve um projeto para incluir os negros na sociedade daquela época.

Com a criação da Lei Áurea pela Princesa Isabel, grande parte dos afrodescendentes foram para locais mais afastados, dando espaço para o surgimento das periferias.

Outros resolveram ficar trabalhando para os escravocratas. Após 133 anos, as cicatrizes deixadas pela escravidão, são evidentes nas cinco regiões do País.

“O Dia da Consciência Negra é uma data de luta, uma data de pedido para que o Brasil se encontre consigo mesmo. Necessitamos saldar uma dívida com a nossa história”, destacou Jaime.

Panorama atual

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 54% da população do Brasil é negra, justamente a que sofre mais desigualdades.

De acordo com dados do Atlas da Violência, o negro tem 2,6 vezes mais chances de ser assassinado.

No ano de 2019, os negros representaram 77% no número de vítimas fatais por homicídio no País.

Um dos fatores que contribuem para este triste cenário é a violência urbana e ação policial nas periferias.

“A polícia brasileira mata mais negros do que a da África do Sul durante o regime do apartheid”, frisou Jaime.

Em 2006, por exemplo uma facção criminosa cometeu uma série de crimes no Estado de São Paulo e a ação da Polícia Militar foi imediata.

O resultado foi a morte de 493 pessoas no Estado, das quais mais de 400 jovens negros, afro-indígena-descendentes e pobres.

Até hoje, não se sabe a razão dessas mortes.

A ativista dos Direitos Humanos e fundadora do movimento Mães de Maio, Débora Silva Maria, salienta a luta pelo direito à vida da população negra e pobre.

“Muitas mães da Zona Noroeste perderam seus filhos. Nós temos que lutar, a maior parte da população de rua é negra”, salientou Débora, que em razão do assassinato do filho se tornou referência internacional de luta pela causa.

Um memorial – a despeito de posição contrária de alguns vereadores – será finalmente entregue no dia 10 de dezembro para deixar marcada está tragédia que atingiu centenas de famílias – e cerca de 70 na Baixada Santista em maio de 2006.

Racismo

Na última quinta-feira (18), o Senado Federal aprovou um projeto que equipara crimes de racismo e injúria racial.

Dessa forma, a pena para quem cometer injúria racial será aumentada. O texto agora segue para a Câmara dos Deputados.

O projeto de lei é um avanço para acabar com a impunidade de muitos casos de injúria.

 

Confira o programa completo

Jaime e Débora participaram hoje do programa Jornal Enfoque – Manhã de Notícias.

Confira o programa completo

Outras formas

O racismo vai muito além da ofensa a uma pessoa negra.

Existem também outras formas de preconceito, como o racismo estrutural e velado.

O coordenador de igualdade racial e ética da Prefeitura de Santos, Ivo Miguel salienta que o racismo estrutural impede a entrada de negros em diversos setores da sociedade.

Por exemplo, apesar da população negra ser maioria do Brasil, são poucos os que têm a oportunidade de cursar uma faculdade de Medicina.

“Quando olhamos os pilares das empresas, política, universidades, vemos uma disparidade muito grande entre brancos e negros. É preciso mudar este cenário, um dos meios é a Educação”. Para se ter uma ideia, o número de deputados negros na Câmara Federal não chega a 25%.

Outro fator que escancara a desigualdade e o preconceito é o racismo velado. Ivo Miguel cita o próprio exemplo.

“Eu tenho costume de correr na praia e toda vez que uma senhora me vê, esconde a bolsa. É uma situação que incomoda, pois parece que o branco correndo é atleta e o negro, ladrão”, finalizou.

Infelizmente, o racismo velado faz parte do cotidiano. Afinal quase todos já presenciaram uma cena assim.

Episódios

A morte de George Floyd, que foi sufocado por um policial branco nos Estados Unidos em março de 2020, acendeu um alerta muito importante em toda sociedade sobre o racismo.

As imagens gravadas da ação do policial repercutiram no mundo e mobilizaram grande parte da população norte-americana que fez protestos em diversas cidades por mais de uma semana. O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) ganhou destaque em outros países.

Grandes personalidades mundiais, como o piloto de Fórmula 1, heptacampeão mundial Lewis Hamilton, único atleta negro na categoria, foi um deles. Na parte esportiva, atletas do futebol mundial, NBA, NFL também se engajaram na causa.

Apesar disso, o racismo ainda aparece com frequência em eventos culturais e esportivos. Na última segunda-feira (15), o Corinthians goleou o Nacional-URU em Assunção, por 8 x 0 e garantiu vaga para a final da Copa Libertadores Feminina.

Entretanto, o jogo não foi só lembrado pelo placar. As atletas do Corinthians ressaltaram que foram ofendidas de forma racista por jogadoras do clube uruguaio.

Na rede social, o Corinthians informou em sua rede social que após o gol, a jogadora Adriana foi chamada de “macaca”.

À luz do dia

Nesta sexta-feira, um jovem foi assassinado à queima-roupa em Heliópolis, na Capital paulista.

Ele estava junto com outros três rapazes que tentavam roubar os veículos que desciam pelo viaduto Cmt Taylor.

Filmagens de populares mostram dois policiais correndo atrás dos quatro rapazes, sendo que um deles foi capturado.

Segundos depois, dois tiros foram disparados.  Um corpo caiu.

Aparentemente, a vítima não reagiu, a despeito de um dos policiais ter tido que ele tentou atacá-lo.

O jovem era negro.

No boletim de ocorrência, a seguinte descrição:

“PARA CONHECIMENTO, EQUIPE EM PATRULHAMENTO A PÉ PELA RUA SILVA BUENO, CRUZAMENTO COM A RUA CMT TAYLOR, QUANDO FORAM ACIONADOS POR POPULARES QUE INFORMARAM ROUBO EM ANDAMENTO SOBRE O VIADUTO CMT TAYLOR.

OS POLICIAIS SE DESLOCARAM PARA O LOCAL E SE DEPARARAM COM 4 INDIVÍDUOS QUE ESTAVAM ABORDANDO VEÍCULOS NA VIA, MOMENTO EM QUE 3 DELES SE EVADIRAM, SENDO DETIDO UM NO LOCAL, PORÉM ESTE RESISTIU À ABORDAGEM E SACOU UMA PISTOLA DE COR PRETA, MOMENTO EM QUE O SD PM EFETUOU DOIS DISPAROS CONTRA O INDIVÍDUO QUE CAIU AO SOLO.

O INDIVÍDUO FOI SOCORRIDO PELA UR 01111 AO HOSPITAL HELIOPOLIS, LOCAL SEGUE SENDO PRESERVADO PELA EQUIPE DA ATIVIDADE DELEGADA

OCORRÊNCIA EM ANDAMENTO PELO 95 DP”

Confira as imagens gravadas por populares.

Não se sabe se os policiais tinham câmeras para filmar, algo prometido pelo governador João Doria, em julho do ano passado.

Assim, será possível saber efetivamente o que ocorreu neste caso.

 

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