Entrevista com Washington Novaes, jornalista especializado na área ambiental | Boqnews
Entrevista com Washington Novaes, jornalista especializado na área ambiental
Foto: Divulgação
7 de janeiro de 2015

Entrevista com Washington Novaes, jornalista especializado na área ambiental

washington_novaesO Pentágono, Departamento de Defesa dos Estados Unidos, alerta para a desestabilização do planeta em função das mudanças climáticas. De acordo com  relatório divulgado neste ano, as pressões causadas por essas transformações influenciarão a competição por recursos e ocorrerão outros fatores de estresse, como a pobreza, a degradação ambiental, a instabilidade política e tensões sociais, condições que podem estimular atividades terroristas e outras formas de violência. Contraditoriamente, os americanos continuam no ranking mundial como os maiores desmatadores e exportam para o mundo o modo consumista de viver.

O desmatamento é fonte de emissão de gases do efeito estufa e causa a destruição da biodiversidade, empobrece os solos, diminui os índices pluviométricos e eleva as temperaturas, além de proliferar pragas e doenças. O aquecimento global eleva o nível do mar devido ao derretimento das calotas polares e pode provocar o desaparecimento de cidades litorâneas. Essas informações sobre mudanças climáticas são mais graves a cada dia.

Se as emissões de poluentes continuarem no mesmo ritmo, ao longo deste século a temperatura do planeta continuará a subir e haverá intensificação forte de mais secas, inundações e furacões, ondas de calor, nevascas, tsunamis e dificuldades no abastecimento de água, além das mudanças nos ecossistemas naturais. Sem contar ainda as causas naturais, como as alterações na radiação solar e os movimentos orbitais da terra, as atividades humanas provocam as mudanças climáticas.  As principais dessas atividades são a queima de combustíveis fósseis para a geração de energia, atividades industriais e transportes, descarte de resíduos sólidos, conversão do uso do solo e desmatamento, que emitem grande quantidade de CO² e de gases do efeito estufa.

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Washington Novaes diz que é preciso pensar em um novo padrão de vida. Foto: Divulgação

washington_novaeswashington_novaes Em entrevista exclusiva, o jornalista Washington Novaes diz que é preciso pensar em um novo padrão de vida, com novos formatos de produção e consumo para que se poupem os recursos naturais, que se reutilizem e que se reciclem os materiais, pois, hoje, estes estão além da capacidade de reposição do nosso planeta.

Até onde a degradação da natureza tem que chegar para que os governos tomem atitudes?
É preciso que mude a visão de governos, de empresas, de pessoas e da comunicação. Estamos em situações extremamente difíceis. Há poucos dias saiu um relatório do Departamento de Estado e do Pentágono, nos EUA, dizendo que a questão do clima é a ameaça mais forte que existe hoje no mundo. Não dá para continuar neste caminho. É preciso reduzir, até eliminar a emissão de poluentes, para que esse quadro não se agrave ainda mais. A previsão é de que, na tendência atual, chegaremos ao final deste século com um aumento de até quatro graus na temperatura planetária. Com um grau a mais já enfrentamos o que estamos vendo. E mesmo que façamos o melhor, o aumento da temperatura será de pelo menos dois graus Celsius até meados deste século. Isso terá consequências muito graves para todas as pessoas, em todos os lugares. É preciso pensar nas atuais gerações e nas futuras, que poderão sofrer mais ainda.

O Brasil tem perdido partes importantes da sua biodiversidade. Mesmo assim, o governo brasileiro não assinou as metas para redução do desmatamento numa reunião de 32 países em 2014, em Nova York…
Pela legislação brasileira, o proprietário na área privada não deve desmatar além de 20%, e ainda assim com autorização de órgãos competentes. Por isso, o governo decidiu que não pode impor desmatamento zero. Mas isso implica em vários problemas. O primeiro estaria em entender que o proprietário pode desmatar 20% do modo que quiser, quando, na verdade, mesmo na área privada, ele precisa de autorização para isso. E em segundo lugar, deveríamos perseguir a meta do desmatamento zero. A biodiversidade é uma das grandes possibilidades de agora e do futuro próximo. É de onde virão novos alimentos, novos medicamentos, novos materiais para substituir até os que se esgotarem – e esse consumo está numa escala inaceitável. O Brasil, que é um país rico nessa área, deveria trabalhar muito para preservar. Mas não tem feito o necessário.

Por que os jornalistas não problematizam essas questões na mídia com mais profundidade?
São questões dos novos tempos; até há algumas décadas eram consideradas preocupações de pessoas apontadas como “profetas do apocalipse”, que cuidavam de temas irrelevantes em vez de cuidar do “progresso, do desenvolvimento”. Mas nas últimas duas décadas, principalmente, foram muitos os relatórios, inclusive da ONU, que mostram a gravidade da situação. Nós estamos consumindo recursos mais do que o planeta pode repor. Recursos físicos, por exemplo: há vários estudos de economistas como os de André Lara Resende, Eduardo Gianetti, entre outros, que mostram que hoje já temos no mundo um consumo anual de 7 toneladas de materiais físicos por pessoa. Isso significa 50 bilhões de toneladas anuais e já é muito mais do que o planeta pode suportar, como mostram esses estudos. E com o aumento da população, que já está previsto para 9 bilhões, pelo menos, vamos chegar a mais de 60 bilhões de toneladas. E isso é insustentável. Temos outros relatórios mostrando que os habitantes dos países industrializados, que são menos de 20% da população do mundo, consomem quase 80% dos recursos. Isso também é insuportável porque, hoje, temos ao mesmo tempo 800 milhões de pessoas que passam fome no mundo e 40% da humanidade vivendo abaixo da linha da pobreza. Tratar dessas questões exige enfrentar muitos problemas porque a reação é muito forte de empresas, de instituições financeiras e também dos países industrializados, que são os grandes beneficiários da situação. Mas, tratar disso é indispensável para cuidar da questão da sobrevivência da vida.

A imprensa de um modo geral se pauta em assuntos sobre o meio ambiente nos momentos de crise, de catástrofes, sem tratar sistematicamente dessa questão. Como o jornalista pode melhorar esse debate na mídia?
É preciso que jornalistas, comunicadores de modo geral, passem a tratar dessa questão com muita informação. Resistência sempre vai haver. Há interesses também do outro lado, com lógicas financeiras prevalecendo sobre as outras lógicas. E isso em praticamente todos os níveis – de governo, de empresas, de pessoas. Quando chega a hora de tomar decisões que contrariem essas lógicas financeiras, as empresas começam a fazer contas, quanto acham que vão perder; os governos, da mesma forma; e até as pessoas acreditam que podem perder o emprego, serem demitidas. Fácil não é, mas não há como fugir ao necessário.

Há espaços na mídia em que se divulgam apenas ideias de alguns cientistas que dizem que o ser humano não influencia na mudança do clima. Como você analisa a questão?
São os chamados “cientistas céticos do clima”, que durante décadas dominaram a comunicação. Qualquer notícia que aparecesse, a mídia ia ouvir um desses cientistas, que diziam que se tratava de “fantasia”, ou que era “terrorismo de ambientalista”. Hoje, não admitir que a atividade humana influencia o aumento da temperatura é o pensamento apenas de uma minoria muito reduzida e que já não tem o mesmo prestígio na comunicação. Acho que houve uma evolução muito grande na informação nestas últimas décadas. O que não houve ainda é uma mudança profunda, radical e rápida nos modos de viver. E isso precisa mudar.

Você acha que resolveria uma disciplina sobre Sustentabilidade já na graduação dos cursos de Jornalismo, para conscientizar os futuros profissionais na divulgação do tema?
Isso pode até gerar um problema sério, como acentuar a compartimentalização do tema e colocá-lo apenas como um assunto específico, à margem da questão do meio ambiente. Acho que essa questão tem que estar em todas as áreas. Tudo o que o ser humano faz tem consequências no meio físico; então é preciso ver tudo o que se faz e o que está acontecendo. Que o Jornalismo tenha de tratar dessas questões, não tenho qualquer dúvida. Mas, não sei se compartimentalizar essa questão numa disciplina específica não vai continuar marginalizando o noticiário ambiental. É algo a se estudar, porque é preciso, desde o Ensino Fundamental, mostrar o mundo em que vivemos e o que está acontecendo.

Exemplo Indígena

“Os índios vivem a democracia do consenso. Não é preciso que o chefe imponha a sua vontade. O índio tem o privilegio de nascer e morrer sem nunca receber uma ordem de ninguém”

Autor de vários livros sobre o Xingu, Washington Novaes explicou ainda que, no Brasil, as áreas indígenas estão preservadas e que o país deveria atentar para isso, e para muitos estudos que mostram que o melhor caminho para a conservação da biodiversidade está nas reservas indígenas.

Novaes disse que o modo de vida dos índios exige muito pouco do seu entorno e que eles ainda tem a sabedoria de não sobrecarregar o ambiente. Os indígenas mudam de lugar quando a terra mostra certo cansaço e dão tempo para que ela se recupere.  De acordo com ele, deveríamos pensar seriamente em ajudar o índio a conservar essas áreas. “Deveria ser o centro da estratégia brasileira, pois estamos caminhando para perder a biodiversidade”.

Washington Novaes é jornalista há 57 anos e documentarista, colunista semanal do jornal “O Estado de São Paulo” e de “O Popular”, de Goiânia. É autor de vários livros, entre eles “Xingu, uma flecha no coração”, “A quem pertence a informação” e  “A Terra pede água”. Também são de sua autoria duas séries de 10 documentários sobre o Parque Indígena do  Xingu. É ainda supervisor e comentarista do programa “Repórter Eco”, da TV Cultura; Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, turma de 1957; e foi consultor do “Primeiro Relatório Brasileiro para a Convenção da Diversidade Biológica”, dos “Relatórios sobre Desenvolvimento Humano no Brasil”, da ONU, de 1996 a 1998; e sistematizador da “Agenda 21 Brasileira – Bases para a Discussão”.

Da Redação
Wanda Schumann Racanicchi, Da Redação
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