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Não há política

A historiadora Vera Lúcia Nagib Bittencourt é uma torcedora fanática do debate político, seja em sala de aula ou em…

17 de outubro de 2008 - 16:18

Da Redação

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A historiadora Vera Lúcia Nagib Bittencourt é uma torcedora fanática do debate político, seja em sala de aula ou em conversas informais. Ela reafirma  que uma Cidade se faz pelo choque de idéias, de interesses.

Observadora perspicaz do processo eleitoral, Vera lamenta que Santos tenha feito a opção inversa. Para ela, os santistas colocaram a inevitável discussão de propostas e programas para ‘debaixo do tapete’. O reflexo seria a preferência por um político com características de gestor para conduzir o município. O discurso envelhecido da oposição também teria contribuído, de acordo com a historiadora, para a falsa calmaria na campanha eleitoral.

Vera é doutora em História Política pela Universidade de São Paulo (USP), onde participa de um grupo de pesquisa sobre a Formação do Estado e da Nação. Atua também como pesquisadora do Museu do Ipiranga, em São Paulo. Além disso, é professora da UniSantos. Atualmente, trabalha com formandos em História nos Trabalhos de Conclusão de Curso.

Boqueirão: Qual a sua avaliação do processo eleitoral, principalmente entre os prefeitos que ganharam autorização para governar por outros quatro anos?
Vera Lúcia Nagib Bittencourt: Fico pensando qual é o perfil destes candidatos que se reelegeram. A ênfase é em cima do gestor. Parece, para mim, a anti-política. É a idéia da tecnocracia. Há 15 anos, a tecnocracia provocava brotoeja. Mudou-se o nome para gestão e a coisa ficou palatável. A idéia não é mais conflito, dissenso, mas eficiência, limpeza, suavidade. A política se esvazia no seu sentido.

Boqueirão: O prefeito João Paulo Tavares Papa se encaixa no papel de gestor?
Vera Bittencourt: Eu acho que sim. E ele investe nisso. Esse gestor tem que ser eficiente. O Lula dá esse exemplo, na segunda fase da política dele. O eleitor é bombardeado por essa idéia da gestão. Isso está dentro da escola, por exemplo. O discurso, em diferentes segmentos institucionais de políticas públicas, é de gestão. O que seria uma gestão eficiente? É aquela que não provoca atritos, sem ideologia. Isso significa provocar menos conflitos. De alguma forma, especialmente nas cidades médias e grandes, a competição está acirrada na vida privada das pessoas. Se algo aparece como um óleo nos trilhos, as pessoas vão buscar uma espécie de aconchego. O gestor é alguém que tem realizações e é capaz de fazer alianças. O que levou o Papa adiante foi esse arco de alianças partidárias em termos de tempo de televisão. A questão não é apenas dominar a televisão. É não permitir que outras propostas possam ser colocadas.

Boqueirão: Como fica então governar com 17 partidos, todos querendo um pedaço do bolo?
Vera Bittencourt: A questão não é o partido. É o gestor. Os partidos estão tão fragilizados que se ancoraram em uma pessoa, em um certo populismo. Trata-se de resolver problemas.

Boqueirão: E os partidos pequenos? Eles não podem exigir cargos, por exemplo?
Vera Bittencourt: Apenas se o prefeito deixar. A habilidade do Papa  se revela não apenas na gestão, mas em trabalhar com o arco do desejo. Deixar sempre tenso o arco da promessa. Ele não bate a porta para ninguém, tudo parece possível. O segundo mandato era um atrativo. Os partidos pequenos não têm força. O que parece precipitado, ainda mais em política, é pensar na sucessão agora.

Boqueirão: O PT teve, na totalidade, cerca de 65 mil votos. Por quê?
Vera Bittencourt: Só 65 mil votos. A velha cidade polarizada é apenas uma coisa de momento, um embalo. A primeira eleição da Telma de Souza, em 1989, foi um momento único. Depois disso, nunca mais. Teve apenas o David Capistrano, com uma visão interessante de políticas públicas, mas polêmico, amado e odiado ao mesmo tempo, às vezes pela mesma pessoa.

Boqueirão: Por que o PT e o PSDB, dois grandes partidos nacionais, não têm bom desempenho na região? Por que os dois partidos são exceção à regra?
Vera Bittencourt: Os demais partidos, em cenário nacional, fazem alianças. A política em Santos é marcada pela tradição. Quando surge uma liderança, ela permanece até virar bagaço de laranja. Aqui, curiosamente, o PMDB elege Antonieta  Brito, em Guarujá, uma dissidente do PT, e o Papa, em Santos, além do Tércio Garcia, que tem um jeito de PMDB, mas está em outro partido. Outro ponto é que a liderança tenta gerar continuidade. Desta velha cepa e que continua dominando a brincadeira é o ex-deputado Oswaldo Justo, mesmo morto. As idéias dele têm influência. Ele foi um político articulador, preparador de longo prazo. A eleição do Papa é um projeto do Justo. Olhe para trás, é aquele partido de Centrão, uma característica da Cidade que parece confortável para o eleitor.

Boqueirão: Santos é uma cidade conservadora?
Vera Bittencourt: Esta história de passado envolve a Cidade. A competição entre municípios, uma característica pós-moderna, faz com que elas busquem uma forma de distinção para atrair investimentos. Há algum tempo, Santos fez a opção pelo turismo. Até aparecer a Petrobrás e o pré-sal, não se falava em outra coisa. Há três anos, as lideranças, inclusive universitárias, discutiam a indústria do turismo e seu desenvolvimento. O turismo com o Centro Histórico. Isso me parece uma grande criação na memória e no imaginário. São valores positivos no passado histórico. A Cidade foi grande na época do café e isso a diferencia e nos torna aristocratas. Sem fundamento. Assim, a história da esquerda proletária vai se apagando. A grande habilidade do Papa é transformar todos em cidadãos, mas não a plebe. É a inclusão pelo consumo e não pela política. Nossa inclusão seria pela história, pelo passado. Só teríamos cidadãos. A plebe é jogada fora, não existe, não aparece e não tem voz. O PT não conseguiu encontrar um tema para contestar essa visão. É tudo bonito, cenográfico. O símbolo de Santos é o bonde. Interessante e emblemático. 

Boqueirão: A Câmara  mudou oito das 17 cadeiras, mas continuam apenas três vereadores na oposição, mesmo cenário da primeira gestão do Papa. Qual é a sua avaliação?
Vera Bittencourt:  De certa forma, as principais raposas ficaram. Mantovani Calejon, que não se elegeu, teve um problema partidário. Ele é personalista.

Boqueirão: E o papel da ex-prefeita Telma de Souza?
Vera Bittencourt: A Telma foi a grande liderança de esquerda, a maior estrela. Ela gerou figuras políticas, mas que viveram um embate muito violento entre si.

Boqueirão:  E os 20 mil votos dela para vereadora? O que significam?
Vera Bittencourt: Significam um desgaste. Eu esperava mais.

Boqueirão: O que se comenta no meio político é que ela fará uma oposição ferrenha ao prefeito, pensando na sucessão em 2012. A senhora concorda?
Vera Bittencourt:  Não. Fico pensando, seriamente, se a Câmara vai dar a presidência para ela. Será um jogo pesado. Teoricamente, como a mais votada, ela teria direito à presidência. Não sabemos! A possibilidade maior é a continuidade do Marcus de Rosis por causa dos outros quatro vereadores do PMDB e dos três do PSDB. Telma está desgastada, esvaziada dentro do próprio partido. O PT parece  envelhecido.

Boqueirão: Qual será o impacto desta eleição em 2010 e em 2012?
Vera Bittencourt: É uma chance para quem perdeu. Em 2010, será uma eleição plural, mas as pessoas estão cansadas disso. Os próximos dois anos serão densos em termos políticos. A política é móvel, volátil. Nada está calmo. Os acontecimentos significam novas estratégias, alertas e possibilidades. Não acredito que Mariângela Duarte, Maria Lúcia Prandi e Telma de Souza enfiem a viola no saco. O papel delas deverá ser de articuladoras e não de cabeças de chapa. Espero que elas tenham a fineza de perceber isso. Há também novas lideranças chegando, como Paulo Alexandre Barbosa e Bruno Covas. De certa forma, Márcia Rosa e Antonieta de Brito são uma renovação, mais novas, menos marcadas por disputas internas dos próprios partidos.

(*) Com colaboração de  Luiz Nascimento.

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