Estudo

Pesquisa atribui urbanização a estresse em mexilhões no litoral paulista

Os animais foram coletados nas praias de Guaiúba, Astúrias, Morro do Maluf, Mar Casado, Sorocotuba e Iporanga, todas em Guarujá.

23 de dezembro de 2019 - 16:00

André Julião

Agencia Fapesp

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Um estudo realizado em seis praias do Guarujá (SP) sugere que a urbanização pode ser um fator indutor de estresse não apenas para os humanos, mas também para os mexilhões.

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Santos, e da University of New South Wales, na Austrália, encontraram uma correlação direta entre o grau de urbanização, a contaminação do mar por metais e o possível estresse metabólico que esses contaminantes causam em mexilhões que vivem nessas praias.

O estudo, apoiado pela FAPESP, foi publicado no Marine Pollution Bulletin.

O grupo coletou, em seis praias do Guarujá, mexilhões da espécie Mytilaster solisianus, que vive em grandes aglomerados fixada nos costões rochosos.

O molusco não é consumido por humanos, mas tem uma característica semelhante à de outras espécies de interesse econômico: filtra a água ao redor para absorver as partículas presentes, que servem de alimento.

Por isso, é bastante vulnerável à contaminação.

 

Aumenta a filtração

O experimento mostrou, como esperado, que os animais aumentam a filtração quando a concentração de partículas na água é alta.

Diferentemente de estudos feitos por outros grupos, porém, a atividade se manteve alta quando havia poucas partículas (pouco alimento), mas uma concentração alta do chamado grupo cobre, níquel e zinco.

Como são quimicamente bastante parecidos, não há como distinguir esses três metais nas análises.

Sabe-se, porém, que o cobre tem efeitos nocivos em diferentes organismos, por isso o interesse no grupo.

O comportamento dos moluscos não foi alterado quando expostos a partículas de ferro e manganês.

Os animais foram coletados nas praias de Guaiúba, Astúrias, Morro do Maluf, Mar Casado, Sorocotuba e Iporanga.

“Eles podem estar sob um estresse metabólico, buscando mais alimentos e fazendo mais trocas gasosas em uma tentativa de recuperar energia, perdida ao tentar eliminar os poluentes”, disse Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar (IMar) da Unifesp e supervisor do estudo.

 

 

Mediação ambiental

 

A pesquisa integra o projeto “Força de interações ecológicas e a mediação ambiental em sistemas costeiros”, apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio Regular.

O artigo tem como primeira autora Aline Sbizera Martinez, que realiza pós-doutorado no IMar-Unifesp com bolsa da FAPESP.

Para confirmar a hipótese de um maior estresse metabólico, Martinez realiza agora novos testes que incluem, além da taxa de filtração, medidas de excreção e respiração.

“Quando estão mais estressados, além de filtrar mais, esses animais tendem a excretar e a respirar com mais intensidade. Com essas três medidas, vamos calcular o chamado índice de espaço para crescimento [scope for growth]. Basicamente, ele indica quanto de energia sobra para o animal crescer. Faremos essas medições para detectar se realmente o grupo cobre, níquel e zinco está gerando um efeito fisiológico nos mexilhões”, disse Martinez.

Os pesquisadores mediram ainda a biomassa da fauna associada a essas colônias, formada por animais que se alimentam dos dejetos dos mexilhões. Apesar de os moluscos excretarem mais quando expostos aos metais – afinal, estão se alimentando de forma mais intensa –, a contaminação não alterou a quantidade de animais que normalmente acompanha os mexilhões. Agora, os pesquisadores querem medir se a contaminação afeta a diversidade de espécies dessa fauna associada.

 

Diferenças na medição

 

Uma das diferenças do trabalho publicado agora para os realizados anteriormente por outros grupos foi a forma de fazer os experimentos para medir a filtração.

Os anteriores, que observaram diminuição quando o ambiente tinha partículas de metais, foram feitos em laboratório, com animais provenientes de áreas relativamente limpas e submetidos a diferentes quantidades de partículas de metais.

Portanto, os experimentos da Unifesp, por sua vez, foram realizados no próprio local da coleta.

“Esses estudos nos davam um pressuposto de que, quando aumenta a quantidade de poluentes, a filtração diminui. Mas quando fizemos o experimento em campo, no ambiente em que esses animais vivem, a filtração aumentou mesmo com a contaminação alta”, disse Christofoletti.

Assim, o experimento consistia em colocar em um balde com quatro litros de água do local de coleta vários mexilhões – 100 cm2, mais ou menos, retirados dos indivíduos presos às rochas.

Dessa forma, os pesquisadores mediam, então, a quantidade de partículas presentes na água imediatamente após os moluscos serem depositados e uma hora depois.

A diferença entre as duas medições equivalia à quantidade de partículas retidas pelos mexilhões.

“Em nosso experimento, analisamos animais que estão naquele ambiente, usando a mesma água em que vivem. Eles estão adaptados a uma quantidade maior de partículas desses metais. Coletá-los de uma área prístina para depois acrescentar os metais pode ser um grande choque para os mexilhões. É de se esperar que eles parem de filtrar em um primeiro momento”, explicou.

 

Conforme o estudo, o porto também contribui para a degradação ambiental dos mexilhões. Foto: Divulgação/Porto de Santos

 

Efeitos da proximidade do porto

 

Por sua vez, bastante presente nas águas da Baía de Santos, o grupo de metais formado pelo cobre, níquel e zinco está diretamente ligado à presença do porto naquela área, o maior da América Latina.

Parte da composição de tintas anti-incrustantes usadas em navios, esses metais também são encontrados em produtos de uso corrente, como xampu, óleos de carro e mesmo na poluição atmosférica, que se mistura na chuva e chega às galerias de águas pluviais que deságuam nas praias.

Portanto, a Baixada Santista tem ainda um dos maiores complexos industriais do país e uma grande área urbanizada, com nove cidades altamente populosas e um total de 1,85 milhão de habitantes.

Assim, não por acaso, os pesquisadores encontraram uma relação direta entre o grau de urbanização e os níveis desses metais nos moluscos.

Usando imagens do Google Earth, os pesquisadores verificaram quais bairros escoavam suas águas pluviais em cada uma das seis praias analisadas. Em seguida, mediram a taxa de cobertura urbana usando um software especial.

Dessa forma, quanto mais urbanizada a área, maior a contaminação na praia correspondente.

“Há uma relação direta entre urbanização e a contaminação dos organismos. Era algo esperado, mas agora temos evidência para o nosso litoral”, disse Martinez.

Assim, os pesquisadores esperam que as pesquisas sirvam como subsídios para políticas públicas na região, a fim de diminuir o impacto da atividade humana nos ecossistemas costeiros e marinhos.

 

Artigo

 

O artigo Functional responses of filter feeders increase with elevated metal contamination: Are these good or bad signs of environmental health? (doi: 10.1016/j.marpolbul.2019.110571), de Aline S. Martinez, Mariana Mayer-Pinto e Ronaldo A. Christofoletti, pode ser lido neste link

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