Saúde Mental

Rotina de isolamento requer adaptação para garantir o bem-estar

Atenção na saúde mental é primordial durante pandemia. Profissionais oferecem atendimento online para amenizar os sintomas de angústia

11 de abril de 2020 - 09:19

Ana Carol

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O isolamento social, uma das principais recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para conter a pandemia de Covid-19, é realidade no Brasil e na maior parte do mundo.

Tal medida, apesar de preventiva para a saúde física, pode acabar prejudicando a parte mental dos indivíduos.

Os seres humanos são sociáveis por natureza, desde o momento da fecundação o indivíduo precisa do contato com o outro.

O professor Hélio Alves, doutor em Psicologia Clínica e docente do curso de Psicologia na Unisantos, explica que essas relações com família, amigos e comunidade proporcionam prazer.

Com isso, o isolamento representa o distanciamento dessas relações físicas – especialmente o afeto.

Além disso, o docente enfatiza que o isolamento remete à prisão que, por sua vez, consiste na punição por um crime, assim como castigo, muito aplicado na infância. Dessa maneira, essas associações podem gerar medo.

O medo, por sua vez, está diretamente ligado a algo desconhecido ou a uma experiência que deixou marcas significativas associadas ao desprazer e ao sofrimento.

Em uma pandemia, contudo, o perigo aumenta, pois a situação é coletiva e não individual, e requer aceitação.

Segundo ele, o medo é generalizado e impulsionado pela impotência, pois ainda não existem informações completas sobre o novo coronavírus, além das formas de contágio, prevenção e grupo de risco.

Dessa forma, a incerteza torna-se extremamente prejudicial:

“O não está muito presente. Não pode sair, não temos muito conhecimento sobre o vírus, não podemos nos relacionar… Isso provoca uma angústia e medo grande”, pontua Alves.

Uma forma de vencer o sentimento de medo é por meio da apropriação do conhecimento. Mas, conforme pontua o professor, ainda há pouco conhecimento sobre a doença.

Portanto, a orientação primordial é seguir as recomendações dos profissionais de saúde em relação a cuidados com higiene e contato físico.

Atenção

O ócio total do isolamento também pode provocar patologias – físicas e psicológicas.

Isso acontece, explica Alves, porque o ser humano precisa sentir-se útil de alguma forma.

Portanto, é essencial colocar planos em prática, sejam eles objetivos ou subjetivos.

“Estar isolado não significa que não há algo [para fazer]. A pessoa deve se ocupar com leitura, filmes…” exemplifica o psicólogo, citando a importância de medidas para minimizar os efeitos da mudança repentina no cotidiano, pois não há como fugir da realidade transformada pela pandemia.

O professor sugere realizar todas aquelas tarefas prazerosas que foram deixadas de lado com a correria da rotina.

Além do mais, também é um ótimo momento para descobrir novos hobbies.

Adaptação

O isolamento desconstrói a rotina do indivíduo, e “adaptação” é a palavra-chave para continuar da melhor maneira possível, construindo novas formas de viver com o outro e consigo mesmo.

Dentro dessa necessidade de encontrar algo para passar o tempo, encontra-se a solidariedade.

Nesse período, ajudar o próximo é de grande valia, seja apenas conversando ou oferecendo uma palavra de apoio.

As redes sociais são as principais ferramentas para manter contato com o outro, por meio de aplicativos como o WhatsApp (que permite também chamadas de áudio e vídeo em grupo), Hangouts, Skype, Zoom, Instagram, Facebook, entre outros, com suas diversas funções.

Junto a isso, aplicativos de jogos coletivos também estão em alta (jogos de cartas, stop ou adedonha, e muito mais), permitindo maior interação online.

Cuidados com excessos

Todavia, da mesma forma que a internet pode ser uma grande aliada, o uso dela requer cautela.

A quantidade de informações disponíveis é proporcional ao tamanho da pandemia, e a tecnologia é um grande instrumento para levar notícias.

Por outro lado, as redes sociais fomentam o sensacionalismo e as fake news, podendo alarmar e causar pânico na população.

O docente enfatiza que ficar na frente da televisão ou em portais de notícias o dia inteiro não diminui o medo e a angústia, podendo levar à uma sensação de impotência.

Além disso, o indivíduo pode começar a questionar se realmente está fazendo o certo para evitar a doença, buscando formas de descobrir uma “saída mágica” para a situação, algo inexistente.

Assim, a indicação é ter bom senso em relação ao consumo de notícias, mas evitá-las por completo também não é o ideal.

Uma recomendação médica fundamental dentro do isolamento é estabelecer uma rotina.

Mesmo sem sair de casa, é importante adotar horários para acordar, tomar banho, fazer refeições e demais tarefas diárias – expediente em home office, estudar, ver televisão ou streaming, entre outras.

Vale lembrar que essa adaptação requer tolerância, e o indivíduo deve buscar formas de ter prazer mesmo sem sair de casa.

Filtro de notícias

Tendo em vista as fake news, ou notícias falsas, o Ministério da Saúde disponibiliza um número de WhatsApp para envio de mensagens que serão apuradas e respondidas oficialmente se são verdadeiras ou não.

A pasta enfatiza que o número não é um tira dúvidas ou SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor), mas sim um canal para verificar a veracidade de informações, a fim de evitar a propagação de fake news.

O número está apto a receber mensagens de texto, áudio e vídeos de forma gratuita.

Interessados devem entrar em contato pelo (61) 99289-4640.

Além disso, notícias são esclarecidas também no portal do Ministério da Saúde: saude.gov.br/fakenews.

Em tratamento

Para quem possui algum transtorno como ansiedade e depressão, o momento pode potencializar crises.

Em primeiro lugar, o terapeuta responsável pelo acompanhamento deve ser mantido para que possa analisar qual a melhor providência.

Em caso do uso de medicamentos, o profissional avaliará a profilaxia – e é o único apto para tal.

Não é necessário, por exemplo, entrar em desespero e querer garantir mais caixas de remédio do que o necessário.

É importante lembrar que, independentemente da situação, o paciente ansioso ou deprimido já sofria, então o tratamento deve seguir.

Além do apoio do especialista, é essencial manter contato – mesmo que virtual – com as pessoas que gosta.

Para quem não se sente bem no momento, mas não faz acompanhamento psicológico, também não há motivo para desespero.

Muitos profissionais adotaram o atendimento online.

 

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Estabelecer rotina para as tarefas cotidianas é essencial, pois a quarentena não corresponde a um período de férias. Foto: Pixabay

Nova forma

É o caso de Yvellize Moraes, psicóloga clínica que realizava somente atendimentos presenciais em Santos e Praia Grande.

Antes de migrar para a internet, a profissional buscou orientações junto ao Conselho Regional de Psicologia e colegas de profissão a respeito dos cuidados éticos durante o atendimento. Apesar de certo receio, ela não enfrentou dificuldades na adaptação.

Sobre os acompanhamentos, a psicóloga relata que 40% dos pacientes não aderiram ao processo remoto.

Um dos principais fatores, segundo Yvellize, foi pela falta de privacidade em casa, o que pode gerar desconforto na sessão.

A profissional ressalta a importância de continuar a terapia para minimizar a ansiedade e outros sentimentos.

Além disso, a psicóloga registrou maior procura pelo serviço oferecido.

Atendendo online desde o dia 18 de março, ela já recebeu oito novos pacientes desde então.

De acordo com a profissional, há muitos relatos de pânico, ansiedade e angústia, além de algumas manifestações físicas, o que é chamado de somatização.

Sentimentos de preocupação, estresse, entre outros, provocam reações no corpo do paciente, e a terapia visa trabalhar a mente para promover saúde mental e física.

Informações com Yvellize pelo (13) 98805-7244 – também no WhatsApp.

Jovens

O jornalista Wilker Damasceno, de 23 anos, possui experiências em acompanhamento das duas formas.

Antes da pandemia e quarentena, ele estava no modo presencial.

“Ter contato humano é, sem dúvida, melhor e surte muito mais efeito. Mas não anula a terapia pela internet, mesmo assim”, pontua o comunicador.

Segundo Damasceno, a facilidade do atendimento virtual é, sobretudo, o conforto por estar em casa.

Porém, aponta os imprevistos técnicos como maior dificuldade. Durante as sessões, a internet pode apresentar falhas, os aplicativos utilizados podem ficar instáveis, entre outras situações.

Apesar disso, o jovem ressalta que, independente da forma escolhida, o incentivo pelo bem-estar sempre apresenta bons resultados.

Para a psicóloga santista Taluia Souza dos Santos, especializada em adolescentes, o atendimento remoto não apresenta tanta desvantagem em relação ao feito em consultório, mas apenas requer adaptação.

“Entendo que o ambiente do consultório é algo que faz muita diferença. Alguns não conseguem ter um espaço apropriado, porque existem outras pessoas na casa e assim não conseguem ter tanta privacidade. Mas quando essas situações podem ser ajustadas, o atendimento online é super válido e não perde para o atendimento presencial”, afirma.

Com consultório em São Paulo, Taluia também aproveita as redes sociais para espalhar informações a respeito de saúde mental.

Na página instagram.com/taluia a profissional publica dicas para administrar melhor o próprio tempo, técnicas para amenizar a ansiedade, entre outros tópicos.

De Santos, a psicanalista Luíza Canato oferece atendimento online e gratuito.

O contato pode ser feito pelo instagram.com/luizacanato ou WhatsApp (13) 99738-1716.

Redes de apoio

Pensando nos profissionais de saúde, o Projeto Psicologia Solidária Covid-19 reúne psicólogos de todo o País para realizar atendimento voluntário aos trabalhadores que estão na linha de frente no combate ao novo coronavírus (médicos, enfermeiros, recepcionistas, além de responsáveis pela limpeza e segurança das unidades de saúde), bem como aqueles que estão fora do Brasil e estão impossibilitados de retornar.

Interessados podem entrar em contato pelo abre.ai/psicosolidaria-atendimento.

O grupo Escuta 60+, formado por terapeutas, realiza acolhimento por telefone a pessoas com mais de 60 anos que precisam conversar com alguém fora de seu círculo social.

Não há cobrança pelo atendimento, e o serviço está disponível de domingo a sexta (domingo das 19h às 22h; segunda-feira das 15h às 18h; terça-feira das 9h às 20h; quarta-feira das 9h às 22h; quinta-feira das 9h às 17h; sexta-feira das 9h às 12h).

O telefone é (11) 3280-8537, e o grupo está como @escuta60mais no Facebook e Instagram.

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