vida

Problema traumatizante

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago. Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago. Assim começa a música de Noel Rosa, que…

18 de junho de 2010 - 22:41

Da Redação

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Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago. Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago. Assim começa a música de Noel Rosa, que mostra a declaração de um gago apaixonado, que leva o nome da canção. Para muitos, esta  repetição de sílabas pode parecer até engraçado, mas não é, principalmente, para os que sofrem de gagueira e tem sérias dificuldades para se expressar. O problema, que começa geralmente na infância, pode atrapalhar desde o relacionamento social até afetar a auto-estima.


Segundo estudos, o distúrbio pode ser causado tanto por problemas físicos como por fatores emocionais e é muito mais comum do que se imagina. No site do Instituto Brasileiro de Fluência (www.gagueira.org.br), é possível ver diversos depoimentos de pessoas que passam ou já tiveram a disfluência na fala, como os atores Murilo Benício e Malvino Salvador.


Outro exemplo é o escritor José Saramago, que faleceu na última sexta-feira (18) e falou sobre o problema em uma entrevista:
– “Aqueles que gozam da sorte de uma palavra solta, de uma frase fluida, não podem imaginar o sofrimento dos outros, esses que no mesmo instante em que abrem a boca para  falar já sabem que irão ser objeto da estranheza ou, pior ainda, do riso do interlocutor. Com a passagem do tempo acabei por criar, sem ajuda, pequenos truques de elocução (…) A gagueira, no meu caso, passou a ser uma pálida sombra do que foi na infância e na adolescência. Aprendi à minha própria custa”.


O que é?
A gagueira, ou disfluência na fala, é caracterizada principalmente pelas repetições, prolongamentos ou bloqueios. “Existe também falha no ritmo, um grande esforço durante a fala e a grande possibilidade de frases incompletas. As pessoas  com esta dificuldade também podem apresentar medo das palavras, ter sempre conflito entre o falar e o não falar”, explica a fonoaudióloga Andréa Coelho.


Com todos estes sintomas, uma simples frase pode demorar minutos para ser dita.  Segundo a especialista, familiares e amigos não devem ajudar a completar a frase e muito mesmo tirar sarro da situação. “Isto faz com que a pessoa sinta cada vez mais vergonha e desenvolva outros problemas como depressão”, explica.


De acordo com Andréa, a maioria dos casos que aparece é devido a problemas psicológicos, por algum trauma ou um susto. “Quando criança, um dos meus pacientes, por exemplo, se escondia todos os dias quando ouvia o vendedor de ovos passando pela sua rua. Um dia o pai o levou a força para mostrar que não havia nada de errado. Desde então ele começou a gaguejar”, ressalta.


Ansiedade
A gagueira pode não aparecer em todo o tempo. Em muitos casos, o problema se desenvolve e tende a piorar em situações de tensão e ansiedade. “Tenho um paciente, por exemplo, que toda vez que o chefe fala com ele, a gagueira aumenta ainda mais”, explica.


Outro fato curioso é o de pessoas que quando sobem ao palco, cantam ou mesmo realizam palestras para um público grande, deixam imediatamente de gaguejar. Mas logo quando acabam a apresentação voltam a ter o distúrbio. “Estas ações utilizam o lado direito do cérebro, o que pode ser uma explicação para que isso ocorra. Na verdade, pouco se sabe sobre todas as causas do problema”, diz.


Cura
O tratamento é realizado por três profissionais que trabalham em conjunto. O psicólogo, que ajuda a descobrir se existe algum trauma que ocasionou o distúrbio, e trabalha também com a auto-estima do paciente. Por sua vez, o otorrinolaringologista tem o objetivo de detectar se existe algum problema físico que está acarretando a gagueira. E, por fim, o fonoaudiólogo, que ajuda na reabilitação da fala.


“Além das consultas semanais, a pessoa precisa fazer uma série de exercícios diários, por 15 a 20 minutos. Não é um tratamento fácil e nem rápido, mas com seis meses a diferença é notável”, explica a fonoaudióloga. Segundo Andréa, o tempo do tratamento depende também do grau de gagueira, que pode ser leve, moderada ou severa.


Outro fator que ajuda, de acordo com a fonoaudióloga, é procurar apoio o quanto antes. “Quando a criança começa a falar, os pais já podem ficar atentos para ver se não existe qualquer dificuldade na fala. Nesta idade é muito comum que não seja nada, mas depois dos sete anos o problema fica mais visível e o ideal é procurar um tratamento”.


Segundo Andréa, quanto mais tempo se fala errado, mais o cérebro associa a maneira de se expressar como se fosse a correta, o que dificulta muito a cura. “O ideal é sempre trabalharmos com a prevenção do problema, evitando com que a crianças passe por constrangimentos ainda maiores na escola”, explica. 

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