Prós e contras do uso das canetas emagrecedoras
O mercado farmacêutico vive uma revolução com as famosas “canetas emagrecedoras”.
Contudo, o uso desses medicamentos tem gerado dúvidas e debates sobre a banalização estética e os riscos da automedicação.
Para entender o papel das canetas, especialistas explicam os cuidados, necessidade do acompanhamento médico e a importância da alimentação saudável.
Aliás, segundo dados do Conselho Federal de Farmácia, o uso das canetas emagrecedoras no Brasil em 2025 saltou 88% em relação a 2024.
Cuidados
Segundo o cirurgião do Aparelho Digestivo, Michel Bastouly, o uso de “canetas emagrecedoras” deve estar vinculado à indicação por parte de profissional médico familiarizado com a área.
“Não devem ser empregadas com finalidade estética e devem ser adquiridas em farmácias regularizadas. A dose da medicação só deverá ser aumentada por recomendação do médico responsável e nunca por conta própria”, salienta.
“O paciente deve estar ciente das principais manifestações adversas relacionadas ao uso do medicamento, tais como náuseas, vômitos, diarréia, obstipação, refluxo/regurgitação, e estar atento aos sinais de alerta como dor abdominal, redução do volume de urina, manifestações alérgicas e comunicar prontamente ao seu médico.”
Além disso, ele cita que diabéticos em uso de insulina e hipoglicemiantes de uso oral merecem atenção especial frente ao risco de hipoglicemia. Assim como, risco maior para o desenvolvimento de retinopatia.
Também está contraindicado o uso em pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide. Assim como, cautela para pacientes que têm antecedente de pancreatite prévia, insuficiência renal e pedras na vesícula biliar.
Aliás, ele destaca que não se deve engravidar durante o tratamento e que há influência da medicação sobre a absorção de contraceptivos orais. Diante de necessidade de realização de endoscopia ou cirurgia de qualquer natureza, o médico deverá ser avisado com antecedência a fim de tomar as medidas necessárias de segurança.
Obesidade
O médico afirma que esses medicamentos estão mudando o tratamento da obesidade. A posição conjunta da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica e Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia de 2024 já trata a farmacoterapia da obesidade como parte central do manejo desta doença. “Isso acompanha o movimento de sair de um modelo centrado só em dieta e exercício para um manejo crônico, medicamentoso e individualizado. A Anvisa já posicionou a semaglutida como uma opção formal para controle de peso no país e revisões brasileiras recentes descrevem as “canetas emagrecedoras” como um avanço relevante, embora limitado por custo, acesso e necessidade de seguimento de longo prazo.”
Casos indicados
Contudo, é importante saber em quais casos esses medicamentes são indicados. Bastouly informa que visando controle ponderal, o emprego deles está indicado para pacientes portadores de IMC entre 27 e 29,9 kg/m2 associado à comorbidades e para aqueles com IMC igual ou superior a 30 kg/m2. Para o paciente com indicação cirúrgica, as “canetas” poderão ser empregadas como “terapia ponte”, no pré-operatório, quando se recomenda redução do peso a fim de otimizar as condições clínicas do paciente para cirurgia.
Um outro cenário inclui indicação diante da recusa do paciente para cirurgia ou quando há contraindicação absoluta / definitiva para sua realização. Também estão indicadas no pós- operatório, em casos selecionados, diante de perda insuficiente ou reganho de peso.
Banalização
Ele ressalta que percebe uma banalização do uso dessas medicações por pessoas que não têm obesidade. “É lamentável e preocupante. Tenho observado, com crescente frequência, o uso destes medicamentos com finalidade apenas estética, o que remete à conclusão de que se trata de uma iniciativa tomada pelo próprio paciente e não de indicação médica criteriosa e responsável.”
Riscos
Ele cita ainda os riscos do uso sem acompanhamento médico. “Como todo e qualquer medicamento, o seu uso não está isento da ocorrência de efeitos adversos. Alguns responsáveis por complicações potencialmente graves como pancreatite aguda, que pode ser necrotizante e até fatal, além de insuficiência renal aguda decorrente de desidratação severa desencadeada por náuseas/vômitos, diarreia, pedras na vesícula, hipoglicemia e outras manifestações imprevisíveis diante do emprego de medicação falsa ou de procedência duvidosa”, explica.
“O acompanhamento de um médico especializado é fundamental para que tais eventos possam ser identificados precocemente e tratados de forma adequada”, enfatiza.
Aquisição
Com o aumento da venda ilegal, Bastouly aborda que conforme recomendação da Anvisa, o medicamento deve ser adquirido completo, ou seja, dentro de sua embalagem, em farmácias regularizadas junto à Vigilância Sanitária, mediante emissão de nota fiscal. “Jamais se utilizar de fontes clandestinas ou redes sociais em busca de menor preço.”
Nutricionista
A nutricionista Rita Cassia de Castro informa que a obesidade vai muito além do peso. Dessa forma, é uma doença que promove o surgimento de outras doenças e as canetas emagrecedoras revolucionaram o tratamento da obesidade, pois controlam processos fisiológicos, metabólicos e imunológicos.
“São medicamentos que podem desencadear efeitos colaterais importantes, como náusea, enjoo, desnutrição, perda excessiva de massa muscular, pancreatite, nódulo pancreático e disfunções tireoidianas. Portanto, é necessária a avaliação médica para indicação de uso e acompanhamento durante todo o tratamento”.
Dessa maneira, trata-se de um tratamento a longo prazo, com elevado custo financeiro e para ser efetivo, necessita de mudança de estilo de vida, que compreende alteração de mentalidade, padrão alimentar e atividade física.
Sobre o acompanhamento nutricional, ela aborda que consiste em educação alimentar, planejamento dietético e estratégias nutricionais para desinflamação, equilíbrio metabólico e resposta ao emagrecimento. Essas estratégias são aplicadas do início até o desmame da medicação, ou seja, em cada fase do tratamento realizado por etapas.
“O planejamento nutricional vai priorizar o consumo de água, proteínas, vegetais, frutas e suplementação nutricional individualizada. Entre os alimentos, prefira proteínas de fácil digestibilidade, tais como peixes, frangos, carne bovina com pouca gordura, as frutas laxativas, mamão, laranja com bagaço, manga, ameixa, abacate, kiwi e entre outros. Os vegetais podem ser consumidos crus, cozidos ou refogados.”
Consumo
É importante evitar o consumo de gorduras, açúcares e bebidas alcoólicas. Um erro comum que ocorre em indivíduos que não possuem acompanhamento profissional é a redução extrema na ingestão de água e alimentos. Isso vai potencializar os efeitos colaterais da medicação.
“É necessário o desenvolvimento de políticas públicas para que a população tenha acesso à medicação e acompanhamento profissional”, acrescenta a nutricionista.
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