Alta de casos e mortes já era esperada, explica ex-presidente da Anvisa | Boqnews
17 de junho de 2022

Alta de casos e mortes já era esperada, explica ex-presidente da Anvisa

A alta de casos e mortes pela Covid-19 não surpreende o médico e professor universitário Gonzalo Vecina Neto.

Afinal, aos poucos, os leitos hospitalares destinados à doença começam a ganhar mais pacientes – ainda que em um número inferior em relação às ondas anteriores.

Reflexo, aliás, das vacinas, que mantêm um papel preponderante no combate à gravidade da doença, a despeito das mutações do vírus.

E da descrença e críticas de alguns.

Para se ter ideia, no momento, 51,7% dos leitos de UTIs Covid no Estado estão ocupados e 48% dos leitos de enfermaria.

Na Grande São Paulo, o índice é de 63,4% em UTIs e 62,4% em enfermarias, segundo dados do governo paulista.

Índices abaixo dos períodos críticos da pandemia, mas que voltam a preocupar em razão do crescente aumento de casos e mortes no Brasil.

Na última quarta (15), foram 339 mortes – 636% a mais que um mês antes (46 falecimentos pela doença)

Ex-presidente da Anvisa, um dos precursores do SUS, ex-secretário de Saúde de São Paulo e professor da USP, Vecina Neto diz que a elevação de casos em uma nova onda tem relação direta com as baixas temperaturas – onde os locais ficam mais fechados -, a ausência do uso de máscaras em ambientes restritos, aglomerações e a negação de muitos em tomar a terceira e quarta doses da vacina.

Sem contar que pelo menos 6% dos paulistas em idade apta sequer tomaram uma dose da vacina.

Ou seja, indicadores que promovem uma ‘tempestade perfeita’ para o cenário de casos em ascensão.

Ainda que os números de leitos estejam dentro de um patamar melhor que outras ondas, há uma preocupação com a alta de casos e mortes, que atingem especialmente quem não está com a vacinação completa. Foto: Divulgação

Em alta

Conforme dados do Ministério da Saúde, o total de casos confirmados subiu de 6.296 em 15 de maio para 70.290 um mês depois (dados mais atualizados).

“Existem quatro variantes em circulação no momento: as BA1, BA2, BA 4 e BA5, sendo que estas duas últimas representam quase 45% dos casos”, salienta.

Além disso, a infectividade destas variáveis é bem superior que as anteriores (BA1 e BA2 da Ômicron).

“Estima-se que entre os pacientes com vacinação completa a taxa é de 13 mortes/100 mil. Entre não vacinados ou sem a vacinação completa sobe para 330/100 mil”.

Assim, ele alerta: idosos e portadores de comorbidades devem ficar ainda mais atentos.

“Estes grupos precisam se cuidar ainda mais”, salienta.

Gonzalo Vecina participou do Jornal Enfoque – Manhã de Notícias de hoje (17), onde falou sobre o avanço dos casos da Covid, varíola dos macacos (na realidade decorrente dos ratos africanos), campanhas de vacinação, futuro da saúde pública no País e temas correlatos.

Segundo ele, a situação não está mais grave nos hospitais em razão das vacinas, ainda que somente em São Paulo mais de 11 milhões de pessoas ainda não tenham tomado nem a terceira nem a quarta dose (voltada para quem tem mais de 50 anos), segundo dados da Secretária de Saúde.

Vecina Neto salientou a necessidade de maior envolvimento dos governos em campanhas para divulgação da necessidade de vacinação pelas pessoas. Foto: Reprodução/Jornal Enfoque

Crianças

Uma das preocupações também incide nas crianças.

Em Santos, todos os três leitos infantis de UTIs públicos, localizados no Hospital Guilherme Álvaro, estão ocupados no momento.

Assim, ao todo, dos 212 leitos clínicos no geral, 56 estão ocupados na atualidade.

Dessa forma, na UTI, dos 133 leitos, 19 estão com pacientes internados nos hospitais públicos e particulares de Santos.

Na entrevista, ele também comentou sobre os medicamentos contra a Covid-19, que podem ser usados para tratamento precoce especialmente em grupos de alto risco, como idosos e pessoas com comorbidades.

No entanto,  lamentou que o SUS não priorizou a compra para prover de um estoque estratégico, algo que está sendo feito pela iniciativa privada, por meio de uma rede de hospitais de alto padrão.

Desafios SUS

Como um dos mentores do SUS e tendo ficado à frente da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Vecina Neto diz que – caso haja mudança na equipe do Ministério da Saúde – vai encontrar “uma terra arrasada”.

“Houve destruição da PNI – Plano Nacional de Imunizações. O primeiro ano será de realocação e refazer o que está errado”, salienta.

O médico acrescenta também o desafio de voltar a fortalecer o programa Saúde da Família.

“Ele foi destruído pelo Ministério da Saúde”, lamenta.

Além disso, o médico analisou o atual estágio da Butanvac, do Instituto Butantan, que está na terceira fase com serão escolhidos 4 mil pacientes já vacinados contra a Covid.

“A questão é o valor desta fase 3. Serão necessários R$ 400 milhões”.

Gonzalo Vecina também se mostrou preocupado com os riscos das mudanças tributárias com o ICMS, via impostos dos combustíveis que irão tirar pelo menos R$ 1 bilhão da Fapesp – Fundo de Amparo à Ciência do Estado de São Paulo e das universidades públicas paulistas.

“A Ciência está de joelhos por falta de recursos”, lamenta.

Além disso, ele lamentou a redução dos recursos destinadas às campanhas de vacinação, algo iniciado no Governo Temer.

“Isso tem impactado diretamente na redução da procura pelas vacinas”, lamentou.

Varíola do macaco

Além disso, Gonzalo Neto  também falou do avanço da varíola do macaco, originalmente passado do rato gigante africano para o macaco e deste para o homem.

Não bastasse, ele explica que a contaminação ocorre com contato próximo e íntimo muitas vezes, já tendo sido encontrado no sêmen de um paciente.

De qualquer forma, o médico salientou a necessidade de monitoramento dos casos e principalmente dos riscos de surgimento de novos pacientes que sejam contaminados dentro do próprio País.

“Este é o grande temor”, salientou.

Assim, até o momento, todos os casos confirmados foram de pacientes que pegaram a doença durante viagem na Europa e outros continentes.

 

Confira o programa completo

 

 

 

Fernando De Maria
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