Amor é Bossa Nova. Sexo é Carnaval... Assim como descreve Rita Lee na canção Amor e Sexo, para muitos foliões o período do Carnaval é sinônimo de muito beijo na boca e por que não, sexo casual. No ritmo do samba, seguindo as bandas carnavalescas em todo o País, homens e mulheres aproveitam esta época para extrapolar. Muitos, porém, esquecem as consequências que atos inconsequentes podem ocasionar.
Uma prova disto - entre as mulheres - é o aumento na venda de testes de gravidez após o Carnaval. A Linha Confirme - produtora de autotestes - apresenta neste período do ano, por exemplo, um aumento de 15% nas vendas.
O consumo de bebidas alcoólicas - que pode ser considerado um dos motivos que levam as pessoas a agirem de forma espontânea - também aumenta nos dias de folia. Para se ter ideia, os prontos socorros de Santos apresentam - neste período - um aumento de atendimento em até 40% dos casos por conta do uso abusivo de álcool.
Para a educadora sexual e vice-presidente da Associação Brasileira de Educação Sexual (Abrades), Cláudia Bonfim, a liberalidade da vivência da sexualidade na época do Carnaval acontece devido sua origem histórica das festas pagãs da Grécia e da Roma Antiga.
Na época, se configuravam por celebrações que envolviam comida, bebida e a busca incessante de prazeres sexuais. "Podemos historicamente constatar que não é de hoje que o Carnaval está ligado ao deleite dos prazeres da carne marcado pela expressão carnis valles, que acabou por formar a palavra Carnaval, sendo que carnis em grego significa carne e valles, prazeres", explica.
"Seria natural que o Carnaval nos dias de hoje seja uma festa de apologia ao sexo e aos prazeres desmedidos em geral. Mas questiono: na antiguidade as pessoas não tinham acesso ao conhecimento. Não tinham acesso às informações ou orientações sobre a sexualidade. E hoje estamos em pleno século XXI, temos acesso ao conhecimento, temos liberdade ética de escolha, informações e algumas orientações. E ainda não desenvolvemos uma consciência ética sobre a vivência livre da nossa sexualidade", ressalta Cláudia.
Para a psicóloga Carla Ribeiro de Oliveira, no Brasil o Carnaval começa com a chegada dos portugueses. De lá para cá, a festa sofreu modificações, tornando-se cada vez mais apelativa sexualmente, com poucas roupas e a paquera cada vez maior. As pessoas utilizam esta época para se libertar, "mas é importante que quem gosta de se divertir e cair na folia, que jamais se esqueça das consequências para que a alegria de hoje não se transforme em um perigo - principalmente - para a saúde".
Exagerou? O que fazer?
De acordo com a chefe da seção de Prevenção de Doenças Infectocontagiosas de Santos, Andrea Lisboa Kowalski, o número de pessoas que procuram o serviço para tirar dúvidas aumenta consideravelmente nesta época. "Sempre que fazemos campanhas existe um aumento na procura, mas no Carnaval é ainda mais acentuado", esclarece.
Segundo Andrea, nos dias pós- Carnaval há uma maior procura para se fazer teste de HIV, porém "é importante que as pessoas lembrem que nos dias seguintes da folia a pessoa não pode fazer o teste, pois está na janela imunológica. Se a pessoa teve relação sexual sem proteção, ela precisa esperar três meses. Se fizer antes pode dar falso negativo", afirma Andrea. "No desespero, as pessoas acabam esquecendo este detalhe e aparecem para fazer o teste. É um dos principais erros dos jovens. Mas é importante que procurem fazer no período certo para um diagnóstico ", acrescenta.
O ideal, de acordo com Andrea, é entrar em contato com o serviço pelo telefone 3229-8797. "Pelo telefone mesmo tiramos as principais dúvidas da pessoa e se caso haja necessidade encaminhamos aos serviços de saúde", explica.
Segundo Andrea, as principais dúvidas que aparecem ainda é em relação ao beijo na boca, se pode passar HIV - algo que não é possível - e também ao sexo oral sem proteção. "O beijo não passa HIV, mas sem cautela pode transmitir outras doenças. Já quanto ao sexo oral, muitas pessoas esquecem, mas é importante que seja realizado também com proteção".
Visto por muitos como algo inofensivo, o beijo na boca - intensificado nesta época - traz o perigo da transmissão de várias doenças, inclusive sexualmente transmissíveis. como o vírus do papiloma humano (HPV), que infecta a pele ou mucosas e possui mais de 200 variações diferentes.
Trânsito
Além de tomar cuidado com o próprio corpo, os foliões também precisam redobrar a atenção no trânsito. Por todo o País, muitas pessoas optam em passar o Carnaval em outras cidades. Neste sentido, as entradas registram um aumento expressivo de veículos. Somente no ano passado foram registrados 4.165 acidentes de trânsito, 28,7% a mais que no mesmo período de 2010. Deste total, em 2011, o número de feridos foi de 2.441.
Campanha distribui 65 mil preservativos
Com o slogan Tá pintando um lance? Neste Carnaval, proteja-se, use camisinha!, a Secretaria de Saúde de Santos vai distribuir 65 mil preservativos e 10 mil ventarolas alusivas à prevenção ao vírus da Aids (HIV) em eventos carnavalescos. A entrega já teve início no útimo sábado (4), durante o desfile da banda White Day. O material também será distribuído no Carnabanda, Carnabonde (Centro Histórico), 13° Baile da Mais Bela Idade, bailes nas tendas montadas na praia e no desfile das escolas de samba.
Tanto no Carnaval, como nos demais dias do ano, é possível pegar preservativos, de segunda a sexta-feira, nas unidades Básicas de Saúde e de Saúde da Família, além do Centro de Testagem e Aconselhamento (Rua Silva Jardim, 94, Vila Mathias).
De acordo com Andrea Kowalski, chefe da seção de Prevenção de Doenças Infectocontagiosas de Santos, a intenção das campanhas é oferecer a proteção para as pessoas que já estão na folia. "É também uma forma de conscientização e estímulo ao uso do preservativo", acredita.
Campanha funciona?
Para a vice-presidente da Abrades, Cláudia Bonfim, as campanhas deveriam ser reavaliadas. "Fico indignada como o Carnaval cada vez mais se consolida como época de estímulo ao sexo quantitativo e banal. Com a chegada do Carnaval, a mídia é tomada por campanhas especialmente governamentais de combate a DST´s e AIDS, embora também é importante sabermos que a distribuição de preservativos por si só são insuficientes para formar consciências. Afinal temos que nos questionar até que ponto essas campanhas estilo Liberou Geral contribuem positivamente para um educação afetivo-sexual emancipatória?", indaga.
"É ótimo que, de certo modo, pelo menos as pessoas terão acesso aos preservativos, mas nós que atuamos como educadores sexuais nas escolas e na sociedade sabemos pelos relatos que ouvimos que a maioria dos jovens e adultos não usam preservativos. Não por falta de acesso, mas de consciência mesmo. Portanto, falta educação, orientação e conscientização. A distribuição de preservativos é uma medida que pode ajudar, mas é paliativa", acrescenta.