Mães de Maio relembram mortes na Baixada Santista
As Mães de Maio, grupo que foi criado em Santos logo após a série de
ataques, programaram uma série de atos para este final de semana no
litoral paulista. Neste sábado (12) ocorreram shows de rap
e de música popular, intervenções culturais, saraus e uma homenagem aos
mortos na Praça da Paz Celestial, em Santos.
Para domingo (13), foi marcada uma missa na Igreja Santa Margarida Maria,
às 7h da manhã, em Santos.
Segundo Rodolfo Valente, militante da Rede 02 de Outubro, uma das
entidades organizadoras do evento, a ideia do ato é resgatar a luta
contra o extermínio da população jovem, negra e pobre do Brasil, maiores
vítimas da criminalidade no país. “Isso já acontecia antes dos crimes
de maio, teve esse grande ápice nos ataques de maio (de 2006) e continua
até hoje. A ideia é rememorar essa luta e continuá-la”, disse.
“Temos um grande problema no Brasil que é com a verdade. O Brasil vira a
página sem esclarecer sua história. Desde a ditadura, os crimes
cometidos pelo Estado não foram esclarecidos. Há também o Massacre do
Carandiru, que faz 20 anos este ano (que resultou na morte de pelo menos
111 presos), e os próprios crimes de maio. São todos crimes cometidos
por agentes de Estado que não foram punidos. Não há responsabilização.
Isso perpetua uma cultura que existe desde sempre no Brasil: de massacre
às populações mais vulneráveis”, disse Valente.
Uma das vítimas desses ataques foi Edson Rogério Silva dos Santos, de
29 anos, gari e filho de Débora Maria da Silva, uma das fundadoras da
organização Mães de Maio. Segundo Débora, seu filho foi morto por
policiais no dia 15 de maio de 2006, na Baixada Santista, depois de
tentar abastecer sua moto num posto. Em novembro do ano passado, o
Tribunal de Justiça responsabilizou o governo de São Paulo a pagar uma
indenização para Débora pela morte de seu filho.
Débora disse
que, passados seis anos dos ataques de maio, os crimes ainda continuam
impunes. “Esperamos ainda que aconteça justiça para podermos construir a
paz”, disse Débora. Segundo ela, após a onda de ataques, muitas outras
mortes, envolvendo principalmente jovens pobres, continuam ocorrendo na
Baixada Santista. “É a faxina da pobreza que acontece, não só na Baixada
Santista, como no Brasil como um todo”, falou.
Essas mortes, segundo Débora, poderiam ser evitadas se houvesse
investimento em políticas sociais. “Não se investe em políticas sociais.
Por isso continua existindo desigualdade. O governo precisa investir na
parte humana das instituições policiais e desmilitarizar a polícia. Só
vamos ter êxito contra as execuções sumárias quando se desmilitarizar a
polícia. Basta de coronelismo”, disse.
“Estamos gritando há seis anos. Isso não é uma página virada. É uma
página virada para ele (o Estado), que não tem filhos que morreram. Mas
para as mães não é uma página virada”, protestou Débora, reforçando que o
movimento continuará lutando pela condenação dos culpados pelos crimes.
Nos ataques de 2006, ocorridos entre os dias 12 e 20 de maio, 493
pessoas foram mortas, entre elas, 43 agentes públicos. Um estudo feito
pela Justiça Global, divulgado no ano passado, apontou que, em 71 casos,
houve fortes indícios de evolvimento de policiais membros de grupos de
extermínio.