O volume de casos de dengue no Estado de São Paulo nas quatro primeiras semanas de 2025 já suplantou em 93% a quantidade de registros no mesmo período do ano passado.
Na ocasião, o País registrou o maior volume desde que iniciou a série de notificações na segunda metade do século passado.
Dados do Ministério da Saúde mostram que foram 48.827 casos no Estado de São Paulo em 2024 somente neste período.
Já neste início de 2025, chegaram a 94.354 dentro da mesma semana epidemiológica (que difere da semana que se inicia a cada domingo).
Se levarmos em consideração o total de casos até o momento, conforme dados da Secretaria Estadual de Saúde, o Estado registrou números ainda maiores (a diferença ocorra em razão do envio das informações dos estados ao Ministério).
Dados
Conforme dados da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde, São Paulo já registrou 95.898 casos prováveis.
Além de 23 óbitos – de um total de 33 no Brasil até o momento.
Assim, outros 137 encontram-se em investigação.
O alerta é do médico epidemiologista, Fábio Mesquita, que atuou durante 12 anos na Organização Mundial de Saúde (OMS) e hoje ocupa o cargo de secretário-adjunto de Saúde de Guarujá.
Mesquita participou do Jornal Enfoque desta quarta (29), quando enfatizou a necessidade do Poder Público e a população estarem unidas na luta contra o mosquito da dengue.
Somente nas primeiras semanas de 2025, São Paulo já registrou 2/3 das mortes da doença no Brasil, com 716 pacientes em estado grave.
O coeficiente é de 205,2 casos por 100 mil habitantes.
O Acre lidera em termos proporcionais.
“É um desafio. Temos que estar preparados”, destaca o médico preocupado com o cenário que se aproxima.

Secretário-adjunto de Saúde de Guarujá, Fábio Mesquita, mostrou sua preocupação com a elevação de casos de dengue nas primeiras semanas de 2025. Foto: Carla Nascimento
Tipo 3
Levantamento da Secretaria de Saúde de São Paulo (veja o pdf), com base no documento Plano de Contingência das Arborviroses Urbanas Dengue, Chikungunya e Zika 2025/2026 alerta que 644 dos 645 municípios paulistas (exceto Campos do Jordão) tiveram larvas do mosquito encontradas.
No entanto, o cenário é mais preocupante, pois cresce a presença do sorotipo tipo 3, que até recentemente até recentemente não era encontrado no Estado.
Apenas os tipos 1 e 2 circulavam.
“Agora temos também o 3”, alerta.
Isso significa que mesmo quem já foi acometido pela dengue dos tipos 1 e/ou 2, pode ser infectado pela terceira vez, se for picado pelo mosquito com o sorotipo 3 (existe ainda um quarto, mas de pouca circulação no Brasil. Por enquanto).
“Isso pode vir com força”, salienta o médico a respeito do subtipo 3.
Interior
Atualmente, o subtipo 3 já se encontra presente em Campinas, no interior paulista, e na Grande São Paulo e Vale do Paraíba, além da região norte do estado.
No entanto, tanto a Baixada Santista como o Vale do Ribeira têm apenas os vetores 1 e 2.
No entanto, com o vai-e-vem das pessoas ao litoral, há um real risco da presença deste novo sorotipo, o que pode provocar mais problemas à retaguarda ambulatorial e hospitalar.
De forma geral, a região de Araçatuba está em alerta vermelho, com 905,35 casos/100 mil habitantes.
Já a Baixada Santista tem situação relativamente tranquila até o momento, com 2,98/100 mil habitantes.
Mas isso pode mudar em poucas semanas caso nada seja feito para evitar a proliferação de focos do mosquito, destaca o profissional.
Sobram vacinas
Não é à toa que as secretarias de saúde da região se mobilizam para minimizar o cenário preocupante que se aproxima.
Em Guarujá, ações integradas com outras pastas têm sido realizadas.
Cerca de 90 agentes de controle de endemias, além de agentes comunitários das unidades de Saúde, percorrem ruas e casas da cidade.
“Estamos distribuindo repelentes para gestantes”, enfatiza Mesquita.
Ele lamenta, porém, que menos de 30% das crianças e adolescentes do município, entre 10 a 14 anos, já tomaram a vacina contra a dengue – aplicada em duas doses.
A vacina contra a dengue Qdenga, produzida pelo laboratório japonês Takeda Pharma e aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), começou sua distribuição no país em fevereiro de 2024.
A situação é semelhante em outros municípios brasileiros.
Enquanto isso, a Anvisa analisa a vacina do Instituto Butantã – de dose única – destinada a todas as faixas etárias.
Segundo Mesquita, a expectativa é que ela esteja disponível apenas no segundo semestre – ou seja, quando o boom de casos, mais frequentes nos meses quentes, como verão e primavera, cresce.
“Esperamos que para o verão de 2026 muitas pessoas já estejam vacinadas”, destaca.

Junto com funcionários da Terracom, equipes procuram focos do mosquito em ruas da Cidade. Atualmente, trabalho ocorre no Gonzaga. Foto: Divulgação/PMS
Santos
Por sua vez, Santos instalou barraca informativa e 65 agentes de combate a endemias vistoriando casa a casa.
Nesta quarta-feira (29), ocorreu a primeira parte do mutirão de combate ao Aedes aegypti no Gonzaga.
Identificaram e eliminaram 59 focos com larvas em 1.888 imóveis visitados.
Até o momento, 155 focos foram eliminados neste ano.
A segunda parte ocorrerá nesta quinta-feira (30).
Dessa forma, o mutirão terá retorno no sábado (1°) para pendências em 888 imóveis fechados no bairro.
A iniciativa pode sofrer alterações devido às condições climáticas
Alerta
Nesta terça, a secretaria de Saúde do Estado lançou alerta sobre o sorotipo 3, que tinha baixa circulação desde 2016.
Vale lembrar que a pessoa infectada só fica imune ao sorotipo que adquiriu.
A Dengue tipo 3 é uma das quatro categorias de dengue em circulação no Brasil.
Estudos apoiados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) não sugerem que a dengue tipo 3 seja mais grave.
No entanto, quando o indivíduo infecta-se por outros sorotipos, como o DENV-1, e logo depois pelo DENV-3, a gravidade do caso pode aumentar.
Os sintomas da dengue tipo 3 são iguais aos demais: febre alta, dor atrás dos olhos, dor no corpo, manchas avermelhadas na pele, coceira, náuseas e dores musculares e articulares. Com o retorno do sorotipo 3, aumentam as chances de reinfecção pela doença.
Dados nacionais
Dados do Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde mostram que o país registrou, ao longo de 2024, um total de 6.484.890 casos prováveis de dengue e 5.972 mortes provocadas pela doença – média de 16 mortes por dia.
Para se ter ideia, o total de mortes por dengue em 2024 foi semelhante ao total de vítimas da Covid-19 no mesmo período.
Até o início deste ano, ainda existiam 908 óbitos em investigação.
O coeficiente de incidência da dengue, até o dia 28 de dezembro, era de 3.193,5 casos para cada 100 mil habitantes.
Entrevista
Durante o Jornal Enfoque, Fábio Mesquita, falou também sobre a decisão do presidente americano Donald Trump em tirar o apoio dos EUA à Organização Mundial de Saúde e, em especial, aos órgãos humanitários, que já começam a enfrentar sérias dificuldades.
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