Dia Internacional das Mulheres

Feminismo: Histórias de muitas lutas

Mudar hábitos e conceitos de uma sociedade não é tarefa fácil. Algumas lutas duraram séculos até que os primeiros resultados…

08 de março de 2015 - 07:00

Nara Assunção

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Mudar hábitos e conceitos de uma sociedade não é tarefa fácil. Algumas lutas duraram séculos até que os primeiros resultados e conquistas fossem alcançados. Assim é com o movimento feminista em todo o mundo. Realidade que muda em cada país e até mesmo entre cidades do mesmo território. 

O movimento feminista se divide em três ondas. A primeira se refere principalmente ao sufrágio feminino, movimentos do século XIX e início do XX. A segunda se refere às ideias e ações associadas com os movimentos de liberação feminina iniciados na década de 1960, que lutavam pela igualdade legal e social. Já a terceira é identificada a partir da década de 1990 e representa uma redefinição das estratégias da fase anterior.

E se cada conquista feminista é motivo de comemoração logo se inicia – ou melhor – se dá continuidade a outras reivindicações ou mesmo a real aplicação dos direitos já alcançados. No Brasil, um passo importante politicamente foi dado em 1933, quando elas conquistaram o direito de votar para a Assembleia Nacional Constituinte. Hoje, entretanto, a principal bandeira levantada neste sentido é o aumento do número de mulheres na política. A presidenta – como gosta que a refiram com a palavra no feminino – Dilma Rousseff – está no comando do Paíss, porém conforme ranking divulgado pela União Interparlamentar (UIP) no começo deste ano, o Brasil ocupava o 117° lugar em participação feminina na política. Dos 513 deputados federais, apenas 51 são mulheres (10%).

Já a liberdade pela sexualidade, sem julgamentos, é uma luta antiga. “Ainda saímos na rua e somos vistas como objetos. Além disso, estamos sempre sendo rotuladas. Se saímos com muitos homens, somos putas. Se não queremos casar ou ter filhos, somos mulheres mal amadas”, comenta a jornalista Fernanda Vicente, ativista na Baixada Santista.

Nesta mesma linha, o direito ao aborto – que não criminalize a mulher ou a torne vítima de clínicas clandestinas – está sendo debatido e cobrado pelas ativistas. No outro lado, o parto humanizado, sem violência obstétrica, também tem ganhado cada vez mais destaque e importância na sociedade, fazendo com que o sistema respeite as decisões da mulher na hora do parto seja ele natural ou cesariana.

Na região

Divulgação/ Marcha das Vadias BS

Divulgação/ Marcha das Vadias BS

Na Baixada Santista, duas iniciativas importantes levantam a causa das feministas: a primeira é a Marcha das Vadias BS, que surgiu em 2012 e que acontece uma vez por ano, normalmente no segundo semestre já reunindo mais de 300 pessoas; a segunda, que surgiu logo após a Marcha é o Coletivo Feminista Pagu BS – nome que não poderia ser mais representativo pela história política e ativista de Patrícia Galvão.

De acordo com Fernanda Vicente, participante de ambas as iniciativas, a intenção é expor o tema e trazer as pessoas para refletir e mudar suas posturas. “A violência contra nós ainda é muito grande. A cada 12 segundos, por exemplo, uma mulher é assassinada no Brasil. Precisamos sair nas ruas para falar sobre isso. Queremos ter o direito de ir e vir, com segurança. Queremos ser respeitadas. Nosso corpo não é público”, ressalta.

Aos 34 anos, a jornalista – casada e mãe de um menino – comenta que sempre questionou muito a opressão que a mulher sofre. “Fui descobrindo que o motivo é por conta de um sistema patriarcal onde a mulher é educada a servir o homem. Aprendemos desde cedo a competir com outra mulheres, nos vendo como rivais. A educação para os meninos e meninas precisa ser repensada”, conta.

Batalha sem trégua

Muitas são as mulheres que se destacam na história da militância feminista, por direitos iguais, sem discriminalização de gênero. Luta que começou lá atrás. De 1748 a 1793, por exemplo, viveu Olympe de Gouges, pseudônimo de Marie Gouze, que foi uma feminista, revolucionária, historiadora, jornalista, escritora e autora de peças de teatro francesa. Devido aos escritos e atitudes pioneiras, foi executada. A mexicana Frida Kahlo e a brasileira Patrícia Galvão eram artistas em diferentes vertentes, mas também militantes, com lado revolucionário forte, quebrando paradigmas e lutando politicamente. 

Para Chimamanda Adichie, jovem africana, escritora, negra e que vive em um país onde as diferenças ainda são bem gritantes – em palestra que realizou no TED Talks (fundação americana que dissemina videos nas redes sociais), denominada Sejamos todos Feministas – “o problema de gênero é prescrever como devemos ser, em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para ser quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero”.

Em sua fala, assistida por mais de 1 milhão de pessoas no youtube e que se tornou livro, Chimamanda descreve: “Minha bisavó, pelas histórias que ouvi, era feminista. Fugiu da casa do sujeito com quem não queria casar e casou com o homem que escolheu. Ela resistiu, protestou, falou alto quando se viu privada de espaço e acesso por pertencer ao sexo feminino. Ela não conhecia a palavra “feminista”. Mas nem por isso não era. Mais mulheres deveriam reivindicar essa palavra. O melhor exemplo de feminista que conheço é meu irmão Kene (…) A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: ´Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos de resolver’. Todos nós, mulheres e homens, podemos fazer melhor”.

Protesto artístico

Com reivindicações que ultrapassam décadas, mesmo com direitos conquistados, as diferenças de gênero ainda são visíveis. Ao subir ao palco para receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante pela atuação em Boyhood, a atriz Patricia Arquette – por exemplo – já tinha escrito o que ia dizer e utilizou seu tempo num dos mais prestigiados eventos para dar voz à luta feminista: “é nossa hora de ter igualdade de salários de uma vez por todas e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos”.

Divulgação/ Dino Menezes

Divulgação/ Dino Menezes

E é comum o meio artístico – seja nas falas ou nas produções literárias, teatrais, musicais- abordar o tema como forma de protesto. A rapper e professora Preta Rara faz isso na região há 10 anos e cada vez mais fora daqui nos palcos pelo Brasil. De suas letras, Preta destaca Filha de Dandara: “Filha de Dandara. Sobrevivi (…) Estou batalhando, provando que lugar de mulher não é só na cozinha”. A “luta” de Preta é pelas mulheres, mas também pelas questões raciais. Duas palavras que quando juntas formam uma realidade ainda mais cruel.

No rap, Preta Rara acredita que as conquistas das mulheres já avançaram bastante. “Lembro que quando comecei era preciso me vestir como homem para que ao subir no palco pudesse conquistar o respeito da plateia. Era calça larga, blusão. Hoje eu e muitas outras rappers já conseguimos nos vestir da maneira como queremos, pois conquistamos nosso espaço, sem ser desrespeitadas de acordo com o que vestimos, mas a luta pela igualdade e respeito está longe de terminar”, ressalta. Os movimentos feministas, segundo Preta, são fundamentais e devem chegar cada vez mais nas periferias onde muitas mulheres ainda são vítimas de seus parceiros física e psicologicamente. “Elas precisam de informação. Nosso sistema de proteção também precisa ser melhor organizado para dar assistência”, acredita.

Salas de aula
Além dos palcos, as salas de aulas também são utilizadas por Preta Rara. Aos 29 anos e há quatro lecionando História, Preta tenta sempre valorizar e apresentar aos alunos personagens femininas.  “Tenho muita dificuldade, pois o material didático dificilmente mostra tanto a luta feminista como mulheres importantes das histórias mundial e nacional”, conta. Para elaborar as aulas, as pesquisas são extensas e a cada livro que retrata esta realidade, a motivação aumenta na mesma proporção.