Rotina

Motoristas transportam e salvam vidas percorrendo mais de 200 km por dia

Vindos de locais distantes do litoral e Vale do Ribeira, motoristas viajam centenas de quilômetros transportando pacientes

03 de agosto de 2019 - 19:35

Fernando De Maria

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Diariamente, milhares de pessoas se dirigem ao Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, maior unidade hospitalar do Estado que atende pacientes da Baixada Santista e Vale do Ribeira, além do Litoral Norte.

Em razão da ausência de opções públicas de saúde mais próximas, são comuns vans, carros e outros veículos com placas das mais variadas cidades: Juquiá, Itariri, Pedro de Toledo, Registro, entre outras localidades.

Em alguns casos, as viagens superam 200 quilômetros – só de ida.

E o mesmo na volta.

Desgaste natural para todos. Afinal, o Vale do Ribeira, onde concentra 20% de toda a Mata Atlântica, é tão extenso que atinge os estados de São Paulo e Paraná.
São 31 municípios dos dois estados, com 22 e 9, respectivamente.

Trata-se da região mais pobre do estado e esquecida pelos governantes ao longo de décadas, pois sequer um hospital público de referência existe por lá.

Resta, portanto, se locomover até Santos, principal cidade da Baixada Santista e do litoral paulista.

No início da manhã (quando ainda é noite, muitas vezes), as vans, peruas e carros começam a parar em frente ao hospital, especialmente no trecho junto à arborizada Avenida Siqueira Campos (Canal 4).

Em silêncio, os pacientes aguardam serem chamados em busca do tratamento para suas doenças.

Se a viagem já é cansativa aos pacientes, quiçá aos motoristas que levam vidas na esperança de tratamento e solução para suas dores e enfermidades.

 

Enquanto aguardam o atendimento e tratamento, pacientes precisam sentar nas muretas do canal 4. Por sorte, a arborização ajuda a minimizar os transtornos. Foto: Nando Santos

 

Longo caminho

Caíque Victor Gonçalves Vilarin, de Miracatu, Francisco Fábio, de Juquiá e Vanessa Santana Pereira Batista, de Jacupiranga, são alguns dos motoristas anônimos, funcionários das respectivas prefeituras, que transportam as esperanças das pessoas que buscam tratamento e cura das mais variadas doenças.

A distância – em alguns casos superior a 400 quilômetros entre ida e volta – é suprida pelas amizades feitas.

Há mais de uma década na profissão, Vanessa, às vezes, precisa sair de casa por volta da meia-noite de Registro, onde mora, para pegar as chaves da ambulância em Jacupiranga, distante 32 quilômetros.

De lá, começa a recolher os pacientes e se dirigir aos hospitais, na Capital, como a Santa Casa, Hospital das Clínicas e Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Após isso, segue ao litoral, para os hospitais de Cubatão e Guilherme Álvaro, em Santos, por exemplo.

“Chegamos por volta das 5 horas da manhã em São Paulo e depois descemos para os hospitais daqui”, relata o que ocorre em boa parte das viagens que faz em sua jornada de trabalho.

Mas já precisou sair às 22 horas para uma paciente ser atendida no Corujão da Saúde, programa do governo paulista, às 2 horas da madrugada. Uma verdadeira peregrinação.

Na maioria das vezes, no entanto, ela acorda às 1h30 e só retorna por volta das 17h30/19 horas.

“Durmo de 4 a 5 horas. Se dormir muito, a gente vem bocejando. Assim dá para viajar bem”, garante.

Relação de amizade

Acompanhar os casos dos pacientes – evolução ou não do quadro de saúde – faz parte da rotina dos profissionais.

“É como se fossem parentes”, reconhece Vanessa. Ela sorri ao saber sobre a melhora no quadro de saúde de um paciente, mas também se arrasa ao descobrir a piora e até morte de um passageiro.

Recentemente, sofreu um baque com a morte de uma moça de 32 anos, que costumava transportar para tratamento contra um câncer de mama.

Com metástase, a jovem perdeu a batalha contra a doença. Deixou duas filhas pequenas.

“Já vi muitos falecerem. A gente fica chocada, pois pega amizade com as pessoas e familiares”, lamenta.

Apesar da distância menor, o motorista Francisco Fábio também acorda cedo: por volta das 3 horas já está de pé.

Uma hora depois, começa a passar nas casas dos passageiros em Juquiá e enfrentar os mais de 150 quilômetros de estrada, especialmente a neblina – comum nesta época do ano – na BR 116, sem contar os buracos, chuva e outros riscos colocados no caminho.

Mais novo do trio, Caíque, de 24 anos, já está acostumado com o trânsito: foi motorista de táxi, caminhão e ambulância.

Em abril, foi chamado no concurso da prefeitura de Miracatu, distante 133 quilômetros de Santos.

A experiência, ainda que recente, tem sido gratificante. “Muda a nossa forma de olhar o mundo. Uma vontade maior de querer ajudar as pessoas”, acrescenta.

 

 

Envolvimento: Mais do que conduzir veículos, os motoristas acompanham os tratamentos dos passageiros. Foto: Nando Santos

 

Problemas

Apesar de morarem em cidades distantes, eles se encontram no HGA com frequência – dependendo das escalas – aguardando o atendimento dos pacientes com horários marcados.

Assim, compartilham os mesmos problemas, como a falta de estrutura para que pacientes possam aguardar – muitas vezes, a mureta de concreto do canal é o único banco de descanso.

Por sorte, o trecho é bem arborizado.

E os banheiros? Precisam recorrer ao hospital – mas nem sempre apresentam condições mínimas de higiene. Aqui, pelo menos, eles não multados por estacionar.

Apesar do pouco espaço oferecido pelo HGA.

“Em São Paulo não tem lugar para estacionar nos hospitais. É uma briga com a CET, sob o risco constante de multas”, enfatiza Caíque. Sem contar os desafios diários na BR-116 e na Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, que liga o litoral sul à Baixada.

Além dos sempre onerosos pedágios (são três em direção à Capital e um ao litoral).

Outro problema é o custo de vida em Santos. “Sai muito caro comer aqui”, enfatizam, em coro.

Afinal, se em suas cidades é possível comer com apenas R$ 8,00 (“valor de uma marmita”, dizem), aqui um prato feito não sai por menos de R$ 17,00.

E sem grandes atrativos no paladar.

Assim, quando o último paciente é atendido e chega ao veículo, eles se preparam para retornar aos seus respectivos lares.

E esperar no dia seguinte – ou no próximo – por uma nova viagem, transportando mais vidas e esperanças.