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Guindaste flutuante Porto de Santos Foto: Divulgação/ Memória Santista Guindaste flutuante Porto de Santos

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01 DE FEVEREIRO DE 2026

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O gigante “bíblico” do Porto de Santos

Porto de Santos, 10 de junho de 1951. A expectativa pairava no ar e a curiosidade dos presentes ao longo do cais era visível enquanto aguardavam ansiosamente o momento de testemunhar o desempenho do monumental monstro metálico. A Companhia Docas dava as boas-vindas a um guindaste flutuante incomum, especialmente em termos funcionais. Embora equipamentos similares […]

Por: Sergio Willians
Da Redação

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Porto de Santos, 10 de junho de 1951. A expectativa pairava no ar e a curiosidade dos presentes ao longo do cais era visível enquanto aguardavam ansiosamente o momento de testemunhar o desempenho do monumental monstro metálico. A Companhia Docas dava as boas-vindas a um guindaste flutuante incomum, especialmente em termos funcionais. Embora equipamentos similares (cábreas*) já estivessem em operação há alguns anos ao longo dos berços de atracação, realizando tarefas relacionadas à carga e descarga, bem como no processo de expansão do cais santista, as dimensões e capacidades excepcionais do novo equipamento eram algo inusitado (34 metros de comprimento, 18,5 de largura e 50 metros de altura). Não havia outro de tamanho comparável operando nos portos sul-americanos, o que tornava o gigante de Santos um verdadeiro pioneiro.

Seu teste inaugural consistia em erguer uma locomotiva de 80 toneladas e posicioná-la no convés de um cargueiro argentino. Operações como aquela eram altamente arriscadas, mas se intensificariam quando do incremento das exportações de trens e ônibus para outros países latino-americanos. O Porto de Santos, desse modo, desempenharia um papel crucial como o principal ponto de escoamento daquele tipo de produção industrial, bem como atuaria como a grande porta de entrada do país para cargas extraordinariamente pesadas. Por essa razão, o reforço titânico foi considerado de vital importância.

Aliás, Titan era o nome do único guindaste de elevada capacidade de carga que até então atuava no cais santista, mas era incapaz de enfrentar os desafios que se avizinhavam . Afinal, o novo guindaste mostrou a que veio, tornando o que seria dificultoso em algo completamente tranquilo. Em sua primeira ação, o “novato” ergueu a locomotiva como se fosse um brinquedo. Estupefatos, as testemunhas do fato aplaudiram a operação.

Batismo bíblico

O novo equipamento flutuante precisava de um nome de registro para o controle do Tribunal Marítimo Administrativo. Em vez de buscar inspiração na mitologia grega, como fez com o Titan, o porto santista batizou o guindaste com o nome da famosa figura bíblica de força extraordinária: Sansão.

A escolha não foi por acaso: em 1951, quando o guindaste foi encomendado à Industricelle Handels Combinatie Holland por 1,62 milhão de florins, o público se encantava com a superprodução hollywoodiana de Cecil DeMille, Sansão e Dalila, estrelada por Hedy Lamarr e Victor Mature. A força impressionante do personagem se refletia no “Sansão” de metal, que recebeu oficialmente o nome em 26 de junho de 1951.

Capacidades

A cábrea Sansão atuou no porto de Santos entre 1951 e 199, operando com uma equipe de 12 tripulantes, entre operadores, marinheiros e comando. Durante os anos 1950 e 1960, suas atividades principais eram a movimentação de cargas pesadas. Com a introdução do uso de contêineres na década de 60, ela passou a ser utilizada na movimentação de unidades de 20 e 40 pés. Só a partir dos anos 1970 é que suas tarefas foram diminuindo, quando da chegada de guindastes terrestres de grande capacidade e alcance (de braço), encomendados pelas Docas para atender a demanda cada vez maior de tráfego e operações de carga e descarga.

Sansão “salva-vidas”

Em 1976, a Companhia Docas trouxe a cábrea “Pará”, com capacidade para 250 toneladas, tornado a Sansão a segunda em força. Foi o primeiro passo para a ressignificação de sua função. Nos anos 1980, a Companhia Docas do Estado de São Paulo, já sob comando federal, acionava a cábrea Sansão com menos frequência. Especialmente nas operações de carga. Mas uma outra necessidade pareceu encaixar-se como uma luva às qualidades ímpares do gigante santista: as operações de salvamento.

Em junho de 1981, o guindaste resgatou do fundo do canal, junto ao cais do armazém 5, a barcaça do navio Delta Norte, que havia sofrido um incêndio em 22 de maio. Em setembro do mesmo ano, ele retirou do fundo da água um lash — navio que transporta barcaças em seu interior — que afundou durante o reboque do cais privativo da Cosipa para o armazém 35. Neste resgate, a Sansão teve problemas, com os cabos se arrebentando muitas vezes. Era como se os “cabelos” do Sansão santistas o fizessem perder as forças.

Foram necessários três meses de trabalho para concluir a operação. Outro resgate enigmático foi o do rebocador Minuano, que afundou no canal próximo ao cais do Armazém 7 em fevereiro de 1986. Portanto, com o auxílio de mergulhadores e quatro cabos de aço, a Sansão conseguiu içar a embarcação de impressionantes 110 toneladas, em uma operação arriscada devido à força da maré vazante. E assim se deu a vida do gigante santista nos anos 1980/1990, como “salva-vidas” de pesqueiros, lanchas particulares, barcaças, navios, batelões e barcas.

O fim

Nos anos 1990, a Sansão já não era nem a sombra do que fora trinta anos antes, e acabou sendo gradualmente deixada de lado, encostada no cais da Mortona (antigo nome do Cais da Marinha, onde está a sede da Capitania dos Portos de São Paulo, entre os armazéns 27 e 29). E dali não mais sairia.

Em 22 de julho de 1994, o leilão retirou a cábrea do inventário, estabelecendo valor mínimo de R$ 42 mil. Mas a venda fracassou. Somente em outubro de 1997, é que o guindaste foi arrematado, pela empresa Lígiamar Comércio e Serviços Marítimos. O velho gigante foi, então, desmontado no cais do Armazém 5, determinando o fim de uma era épica, quase bíblica, na história portuária.

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