Reflexos da paralisação dos caminhoneiros em Santos | Boqnews

Greve dos caminhoneiros

26 DE MAIO DE 2018

Reflexos da paralisação dos caminhoneiros em Santos

A greve dos caminhoneiros que paralisou o Brasil inteiro chega já no seu sexto dia de mobilizações, e a população tem sofrido dificuldades para se adaptar a situação

Por: Lucas Freire

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Os dias têm sido tensos para os brasileiros. A greve dos caminhoneiros iniciada na segunda-feira (21) ganhou projeção e praticamente parou o País. E isso trouxe milhões em prejuízos para a economia nacional.
Os sucessivos – e quase diários – aumentos de preços do diesel por parte da Petrobras – que desde o ano passado atrelou o reajuste dos preços dos combustíveis ao dólar e ao preço do barril no mercado internacional – foram o estopim da paralisação. Nos últimos 12 meses, o aumento foi de 15,45%, cinco vezes mais que a inflação. Nas manifestações, eles reivindicam isenção de PIS/Cofins sobre o diesel e também melhorias nas paradas de descansos obrigatórios.

Como resultado da paralisação, postos de combustíveis vazios, filas enormes, diminuição da frota no transporte coletivo e desabastecimento de produtos, cenas que remetiam aos anos 80, quando a inflação superava os 80% e faltavam produtos após os sucessivos planos econômicos, como o Cruzado e Collor.

Para a professora de Economia da UniSantos, Célia Ribeiro, a situação atual não se assemelha com este período. Ela explica o que se assemelha é a necessidade de consumir o máximo possível. Por exemplo, a pessoa que antes abastecia apenas R$ 10 ao ir para o posto, hoje enche o tanque temendo o desabastecimento.

Célia explicou que o cenário ainda não está bem desenhado, e é difícil especular sobre quais os próximos passos do governo (na sexta, o presidente Michel Temer determinou que tropas federais retirassem os caminhoneiros das estradas).

‘‘A princípio, o governo pensa em subsidiar o diesel, ou seja, quem vai pagar a conta será o contribuinte. Repassando esse subsídio para o consumidor, a renda do contribuinte será menor. Isso terá um efeito negativo a longo prazo’’, analisou.

De acordo com ela, a Petrobras também deu um péssimo sinal no mercado. Praticamente todo o ganho recebido nesta gestão foi perdido. ‘‘A Petrobras mostrou ao mercado que não tem independência de gestão e isso é grave, pois a derrubou na Bolsa de Valores’’. As ações da empresa caíram 19,68% desde o início da greve.

A professora acredita que os desdobramentos serão muitos e por isso é uma crise que não tem como saber os efeitos a curto e longo prazos. ‘‘No começo os efeitos não serão sentidos, mas haverá impacto futuro sobre a nossa renda’’, explicou.

Para ela, o desdobramento político será mais sério que o econômico, ‘‘O governo deu a sorte de a greve ocorrer em um momento em que a inflação esta controlada. Já os impactos e desgastes políticos serão inevitáveis’’, afirmou.

Reforma Tributária

A economista acredita que o governo deveria pautar a discussão sobre a reforma tributária no País. Em relação ao preço do combustível, ela disse que isso deveria ser administrado pela Petrobras. ‘‘Não é papel do governo. É errada essa intervenção governamental no preço praticado pela Petrobras’’, destaca.

Para ela, abaixar o preço do diesel será uma maneira de mascarar um custo que ainda será repassado ao consumidor final. E por esse motivo, a docente acredita que discutir os tributos no País é a melhor solução.

Inflação

A economista também abordou sobre os recentes casos divulgados de produtores de leite jogam milhares de litros fora. Para ela, além do primeiro impacto do desabastecimento de leite e seus derivados, os animais já estão sendo prejudicados. “Além do leite que não está sendo distribuído, os insumos necessários para a alimentação dos animais e para a produção dos derivados também foram afetados”, explicou.
Segundo a Associação Brasileira de Laticínios, o setor terá um prejuízo da ordem 180 milhões por dia, pela paralisação da coleta diária de 51 milhões de litros de leite.
Já o segundo impacto é a elevação dos preços do leite e derivados, além dos outros produtos do setor do agronegócios. E ressaltou “os alimentos têm um peso de 28,27% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE”.

Sindicato

O presidente da Sindisan – Sindicato das Empresas de Transporte, Roberto Varella, disse que o sindicato está orientando o movimento, “Estamos passando às nossas associadas para não movimentar suas frotas até o desfecho do problema. Desta forma, as transportadoras estarão evitando enfrentamentos e riscos aos colaboradores, bem como ao patrimônio”.

O presidente afirmou que além da redução nos tributos dos combustíveis, o movimento também está requerendo o fim da cobrança de pedágio para eixos suspensos. A questão teria sido aceita pelo Governo, mas os caminhoneiros querem garantias de que serão cumpridas na prática.

Serviços

Em razão da greve, serviços começam a ser paralisados. Na noite de segunda (21), a coleta de lixo realizada pela Terracom foi interrompida, pois o acesso à região da Alemoa, onde há a área de transbordo, esteve bloqueada pelos caminhoneiros autônomos.

De acordo com a Prefeitura de Santos, os veículos da Terracom, responsável pela coleta de lixo, foram impedidos de se deslocar até o local de descarte. Cerca de 450 toneladas de lixos deixaram de ser recolhidas das caçambas e das ruas. Com apoio da Polícia Militar, os caminhões puderam voltar a atuar . No entanto, na sexta (25), as operações do Cata-Treco foram interrompidas. A coleta de lixo nas ruas está mantida até sábado (26). A varrição nas ruas e praias prossegue, mas os sacos de lixo não serão recolhidos.

Se a coleta de lixo está, por enquanto, mantida, o mesmo não vale para as vacinas contra a gripe disponíveis. Na quinta-feira (24), as unidades da Alemoa, Martins Fontes, São Bento, Castelo e Vila Mathias já tinham seus estoques esgotados. O serviço de vacinação destinado aos acamados seria realizado neste sábado (26), mas foi adiado por causa da greve.

Dersa e catraias

Em nota, a Dersa informa que irá operar com capacidade reduzida, “poupando algumas embarcações para prolongar ao máximo o estoque de diesel”, destacou. As viagens irão ocorrer com taxa máxima de ocupação em ferryboats e lanchas. Isso significa mais tempo de espera tanto para carros, ciclistas e passageiros.

Já a empresa particular que opera a travessia entre Santos e Guarujá informa que estará funcionando normalmente no final de semana.

Nas catraias com ligação a Santa Cruz dos Navegantes, a operação será normal, mas as embarcações só sairão com a capacidade máxima para economizar combustível. Durante a madrugada, as saídas permanecem de 20 em 20 minutos.

Ônibus

O transporte metropolitano opera com 60% de sua capacidade, segundo a EMTU. Já o municipal, conforme a Prefeitura, está com 70% da frota, índice que será mantido neste sábado. No entanto, no horário de pico usuários se queixaram da demora nos pontos de ônibus. Em regiões pouco movimentadas o tempo de espera nem era previsto, conforme o aplicativo quantotempofalta.piracicabana.com.br.

Correios

A estatal também anunciou os prejuízos mediante ao cenário da semana. De acordo com a empresa, somente as postagens de SEDEX e PAC foram aceitas, já incluindo um acréscimo no prazo. Porem as demais opções foram temporariamente suspensas.

Escassez

Na sexta (25), apenas um posto ainda tinha combustível em Santos. Por volta das 11 horas, uma fila quilométrica se espalhava pelas ruas do Macuco. E isso fez com que fosse fechado um trecho da Rua Campos Mello. O posto ainda tinha 2 mil litros de álcool, volume que terminaria em definitivo por volta das 12 horas.

Assim como o combustível, os estoques de gás terminaram, deixando comerciantes temerosos com os riscos de deixarem de comercializar seus produtos, especialmente no setor alimentício. Apenas quem recebe gás encanado da rua consegue trabalhar.

Supermercados, como a unidade Dia do Embaré, já registram ausência de alimentos. Especialmente frutas e hortaliças, cujos preços ‘explodiram’ nas feiras-livres. A rede Carrefour limitou a compra de 5 unidades por produto por cliente.

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