Sociedade

Post nas redes sociais viraliza e casal octogenário vende todo estoque de flores

Há décadas, o casal vende flores, vasos e plantas, mas pandemia acabou afetando as vendas. Post de jovem viralizou e atrai público. Novo lote de flores e plantas já chegou para vendas ao público.

12 de agosto de 2020 - 14:53

Fernando De Maria

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A casa não tem placa para informar que ali funciona uma floricultura.

Porém, no seu interior, não faltam vasos, plantas, flores, materiais para jardinagem e outros acessórios.

Ali, um casal octogenário faz do amor pelas plantas um exemplo para muitos que costumam reclamar da vida.

Não é à toa que o próprio nome do local resume o sentimento – e boa parte da vida – de ambos: Chácara e Floricultura Hanaê.

Para quem não sabe, hanaê significa flor em japonês.

Nada mais apropriado.

Provenientes de Sumaré, no interior paulista, chegaram a Santos há décadas (não lembram quando) tendo morado inicialmente Morro da Nova Cintra e depois na Ponta da Praia – “onde era tudo mangue”, relembram.

Casados há 58 anos, o japonês Sumio Igari, 86 anos, o ‘seo ‘ Paulo, e a brasileira descendente de nipônicos, Hanae Muraoka Igari, 80 anos, fazem da vida com uma leveza ímpar, sempre com um sorriso no rosto, a despeito de todas as dificuldades enfrentadas no cotidiano.

Ainda mais nos tempos atuais, pois com a pandemia os clientes ‘desapareceram’.

Eles, que não têm redes sociais, foram surpreendidos com uma avalanche de novos e antigos clientes que se sensibilizaram com um post publicado por uma jovem que conheceu o espaço em seu Facebook.

Foram mais de 1 mil curtidas, quase 700 comentários e mais de 6,4 mil compartilhamentos. (vide abaixo)

 

Procura 

“Nosso estoque acabou. Veio muita gente aqui”, explica Hanae, nascida em Mirandópolis, no interior paulista, surpresa com a repercussão da publicação a qual ele nem viu, pois não tem acesso nem sabe ‘lidar com isso’.

O sucesso foi tanto que ela e o marido saíram na capa do jornal A Tribuna na edição desta quarta.

Um vizinho já havia passado por lá logo cedo para mostrar a foto e prometeu recortá-la para eles guardarem como lembrança.

Outro, deu um exemplar do dia para eles.

Quem passa pelo pequeno estabelecimento – na realidade a garagem da casa – se depara com preços bem convidativos e menores que em outras floriculturas, chácaras e supermercados da cidade.

Com cinco reais é possível sair com um vaso de flores, por exemplo.

Mas precisa pagar em dinheiro.

A floricultura não tem maquininha de cartão de débito ou crédito.

“Amanhã (quinta) vai chegar o caminhão do Ceasa”, destaca Hanae aos clientes que chegavam.

Foi o caso da empresária Lilian Yamauchi, que veio de São Vicente para adquirir as tão famosas plantas na casa do casal até chegar à Ponta da Praia.

“Vi nas redes sociais e vim comprar para mim e minha família. Pena que acabaram”, lamentou.

 

Na entrada, ‘dona’ Hanae guarda os mais variados objetos que chamam a atenção de quem entra. Fotos: Nando Santos

Até cestas básicas

 

A corrente de solidariedade foi tanta que até cestas básicas o casal recebeu – três ao total -, lembra a senhora que tem nas plantas a forma do sustento do casal  para pagar as despesas básicas.

Além do aluguel de R$ 1.700,00 mensais pelo chalé de dois quartos.

Na frente do imóvel, onde seria a garagem, ‘seo’ Paulo fez uma cobertura ‘improvisada’ para evitar a chuva, com ripas de madeira, plásticos, lonas e outros acessórios para fugir do pinga-pinga.

Mas, apesar do esforço, os pingos são inevitáveis.

Especialmente em dias quando São Pedro está mais ‘nervoso’.

Em um canto na entrada do imóvel, Hanae tem dezenas de objetos formando prateleiras que chamam a atenção de quem entra.

O colorido especial dos objetos atrai a curiosidade das pessoas em razão dos mais variados itens na prateleira.

 

 

Aos 86 anos, ‘seo’ Paulo ainda cuida dos jardins de dezenas de prédios em Santos. Na sua casa, flores e plantas se espalham por todos os cantos.  Fotos: Nando Santos

 

Homenagem ao príncipe

 

Vindo do Japão aos 2 anos, ‘seo’ Paulo impressiona pela vitalidade e memória.

Lembra que em 1952 chegou a Santos para trabalhar no Mercado Municipal, onde ficou até 1974.

Teve floriculturas, ajudou muita gente e fez diversos serviços de graça.

Apesar de nunca mais ter retornado ao Japão (sua esposa esteve lá em 1995), lembra, com orgulho, do trabalho realizado no Estrela de Ouro quando da vinda do príncipe do Japão, Naruhito.

Em 2008, o então príncipe esteve em Santos nas comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil, onde almoçou no clube da Ponta da Praia.

Desde maio do ano passado, ele é o novo Imperador japonês.

Para garantir o sustento, ‘seo’ Paulo não fica parado.

Nem pode. Mesmo aos 86 anos.

Apesar da dificuldade de audição, tem uma memória impecável.

Lembra de nomes de políticos e ex-políticos para quem já fez paisagismo e jardinagem.

Além de inúmeros clientes famosos e não tão famosos assim.

E de locais onde atuou, como prédios e 14 agências bancárias e outros estabelecimentos “até Registro”, lembra.

Hoje, faz a manutenção dos jardins de 42 edifícios “da Ponta da Praia até o Gonzaga”, ressalta.

 

Uno ainda transporta as plantas e adubos que Sumio Igari carrega para a manutenção dos jardins dos prédios

 

Para tal, ainda dirige seu velho Uno verde, muitas vezes acompanhado do ajudante José Arnaldo dos Santos.

Mas quando ele não está, é capaz de carregar os pesados sacos de 20 quilos de terra vegetal, fundamentais para revitalizar os jardins dos prédios onde atua.

 

Como flores

Apesar do casal morar sozinho no velho imóvel à Praça Domingues Martins, 37 – no cruzamento das avenidas Afonso Pena e Joaquim Montenegro (Canal 6), no Estuário, em Santos, eles fizeram como as plantas.

Germinaram e deram flores, como o próprio nome da ‘dona’ Hanae.

No caso, 4 filhos, 7 netos e 2 bisnetos.

E como lembra – e ressalta à Reportagem -, nesta quinta chegará um novo lote de flores e plantas.

Para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer o simpático casal, vale a pena passar por lá para fazer uma visita, conhecê-los e comprar as plantas e flores que sempre recebem um carinho especial.

Ali mesmo, na antiga casa sem placa, mas cheia de amor, vasos e flores.

Quem quiser, pode ligar para 3271-8414.

Lembrando: a floricultura não tem site, nem redes sociais.

Como nos velhos tempos…

 

 

 

 

 

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