Memória Santista
Sergio Willians

É jornalista e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras. Também é membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

A cerveja em Santos I

Santos já foi a terra de cervejarias no final do século XIX

29 de dezembro de 2015 - 08:00

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Basta o Verão se instalar e o calor tomar conta do dia a dia santista para que as mesas de barzinhos e restaurantes da cidade ganhem um tom amarelo ouro na forma de copos suados e refrescantes. Considerada uma das bebidas mais consumidas no Brasil, a cerveja desembarcou por aqui junto com a família real portuguesa, em 1808. De lá pra cá, a bebida fermentada, existente desde os tempos do antigo Egito, ganhou o país de norte a sul, incluindo Santos, que chegou a ter muitas pequenas fábricas de cerveja, como veremos adiante.

A história da cervejaria santista acompanhou o processo de abertura dos portos. O fato de ser um dos destinos portuários mais importantes da Colônia contribuiu para que as novidades chegassem aqui primeiro. Durante muitos anos as cervejas importadas eram descarregadas nos trapiches do Porto de Santos e tinham como destino várias cidades da província paulista. Mas, antes de “molhar o bico” dos consumidores do interior e da capital, as cervejas que aqui desembarcavam matavam a vontade de muita gente curiosa com a nova bebida.

O sucesso da cerveja atiçou os paladares locais e a mente comercial de alguns homens da terra santista. Tanto que, em 1879, o empresário Eugênio Feder investia suas economias na compra de equipamentos e apetrechos para montar uma fábrica de cerveja nas proximidades do Morro São Bento, onde havia uma boa nascente d´água para a feitura da bebida com qualidade. A Cervejaria São Bento foi a primeira a se estabelecer em Santos e chegou a ser considerada a mais importante da província de S. Paulo na década de 1880. A marca local São Bento imperou absoluta na cidade por alguns anos. Outras surgiram, mas vinham de fora, importadas por várias casas comerciais.

Mesmo nadando contra a corrente dos importados, em 1890 surgia a segunda fábrica de cerveja da cidade, a “Recreio Santista”, cuja sede ficava na Travessa Mauá (atual Rua Cidade de Toledo), ocupando os n° 2 e 3. O estabelecimento oferecia aos fregueses e amigos, conforme anúncio publicado na imprensa da época, “por preços iguais aos de seus colegas, um esplendido e variado sortimento não só de sua acreditada cerveja, de excelente paladar, e a mais cristalina que hoje se encontra neste mercado, como também um lindo sortimento de licores, xaropes de todas as qualidades, finos de 1ª qualidade e de 2ª muito superiores”.

Na virada do século XIX para o XX, o café já dominava a atividade econômica da cidade. Pelas ruas XV de Novembro, do Comércio e Frei Gaspar, corretores e outros profissionais ligados ao ramo cafeeiro andavam freneticamente de um lado para o outro a fim de concretizar seus negócios de exportação. O povo suava muito e precisava repor a energia perdida durante o dia. Assim, eram os comerciantes de café os principais consumidores das cervejas santistas. Em 1902 mais um estabelecimento se especializou na fabricação da bebida. Era a Cerveja União, cuja sede se localizava na Rua XV de Novembro, 48. Entre os cervejeiros da época, Schmit e Trost, seus proprietários, eram os mais modestos e anunciavam apenas em poucas e baratas linhas dos jornais locais. Aliás, a cerveja que ofereciam era também a de menor custo. Isso não pode ser comprovado, mas acredita-se que o preço estava à altura da qualidade.

Em 1908 uma cerveja “pau pra toda obra” começava a ser fabricada na cidade. Pelo menos era o que anunciavam, de maneira um pouco exagerada, os empresários da Pinho & Figueiredo, donos da Cervejaria Penha, que ficava na rua Marquês de Herval, 54, Valongo. Talvez pela proximidade da Igreja de Santo Antonio, os cervejeiros acreditavam realmente no poder curativo milagroso de sua versão “pretinha”, feita a partir de uma fórmula secreta, exclusiva, “motivo pelo qual não houve nenhum outro fabricante capaz de imitá-la”. Segundo os donos da Penha, em texto publicado na imprensa santista na primeira década do século XX, a cerveja que fabricavam tinha propriedades benéficas pra tudo. “A cerveja da Penha não tem ácido de qualidade alguma que prejudique a saúde. Para provar o que afirmamos, fica a nossa cerveja à disposição da digna Commissão Sanitária para que a mande analisá-la no Laboratório do Estado. Portanto, pode-se tomar a nossa cerveja com toda a confiança, sem receios de fazer dores de cabeça, como acontece com as outras cervejas. A cerveja preta da Penha dá extraordinário vigor e purifica o sangue, tendo um paladar agradável por excelência. As pessoas que fizerem uso da nossa cerveja, diariamente, mesmo às refeições, nunca podem sofrer do estomago, tal a forma por que ajuda a digestão. Para as senhoras que amamentam, o seu uso dá excelentes resultados. Há muito tempo deveríamos ter dito ao publico a razão por que a cerveja da Penha é superior a todas as outras congêneres. Hoje cumprimos esse dever. Não confundir a Cerveja da Penha fabricada em Santos, com outra de igual nome fabricada em S. Paulo, que está se vendendo em Santos. Assinado: Pinto & Figueiredo”. Nada modestos os meninos!

A cerveja do fundador
Instalada no dia 19 de junho de 1904, a linha de produção de cervejas do Centro dos Varejistas de Santos, montada em sistema de cooperativa, iniciava a fabricação de uma bebida forte e refrescante, que prometia conquistar o coração e o paladar dos santistas menos abastados, ou pelo menos daqueles que não tinham condições de consumir as marcas importadas e as forasteiras vindas de outros cantos do Brasil. Produzida na versão escura (preta), a bebida precisava de um nome forte para se consolidar na cidade. Foi aí que surgiu a ideia de homenagear o fundador santista, o fidalgo “Braz Cubas”, fazendo nascer uma marca que participou do cotidiano dos santistas até meados dos anos 30. Em 1934, a cooperativa, que também fabricava a cerveja clara Mercúrio, anunciava uma série especial da Braz Cubas, trazendo no rótulo a clássica imagem do monumento da Praça da República.

Nesta década a fábrica funcionava com sua linha de produção na Vila Mathias, mais precisamente na Rua Senador Feijó, 415, e já produzia, além das cervejas, licores, limonadas, laranjadas, vinhos de fruta, xaropes e até vinagres. A cooperativa, porém, não durou muito mais tempo. O curioso é que seu endereço, a partir dos anos 70, passou a abrigar a linha de produção da Skol Caracú.

Falaremos mais de cerveja numa próxima oportunidade. Há muito copo para encher nesse assunto!

*Texto reproduzido do site Memória Santista