A justificativa apresentada pela Sabesp, hoje controlada pela Equatorial, para explicar os sucessivos problemas no abastecimento de água e no tratamento de esgoto após a privatização, ocorrida em julho de 2024, não corresponde à realidade vivida pela população da Baixada Santista.
A empresa atribui as falhas a uma suposta “política de mercado”, ao aumento da demanda sazonal e a fatores climáticos.
No entanto, é importante destacar que a influência climática sempre existiu — períodos de estiagem, chuvas intensas e aumento populacional em épocas de temporada nunca foram novidade.
A diferença é que, quando a Sabesp era uma empresa pública, essas variáveis eram tratadas com planejamento, investimentos preventivos e programas estruturantes coordenados pelo Estado.
O que se observa após a privatização é a redução da capacidade de resposta operacional, agravada por demissões, saídas voluntárias de trabalhadores experientes, falta de reposição qualificada e uma terceirização que não consegue atender à complexidade do sistema.
O resultado foi um cenário inédito em mais de 40 anos: bairros inteiros de Santos e de outros municípios da região ficaram sem abastecimento de água, mesmo com o principal reservatório da América Latina, o Santa Teresa, operando em níveis críticos.
Ao mesmo tempo, a população passou a conviver com reajustes tarifários significativos, sem que isso se traduza em melhoria dos serviços.
Ou seja, o usuário paga mais e recebe menos, enfrentando interrupções no abastecimento, falhas no tratamento de esgoto e riscos à saúde pública.
Os impactos vão além do cotidiano das famílias. A crise afetou diretamente a economia regional.
Durante o período de Natal e Ano-Novo, quando a população da Baixada Santista chega a quadruplicar com o turismo, muitos visitantes foram obrigados a interromper suas férias por falta de água e de condições básicas de infraestrutura, prejudicando o comércio, os empregos e a arrecadação municipal.
Essa não é uma discussão corporativa. É um problema social, ambiental e econômico, que exige posicionamento dos prefeitos, vereadores, deputados e dos órgãos reguladores.
O saneamento é um serviço essencial e não pode ser tratado apenas sob a lógica do lucro. Sem gestão, investimento interno e responsabilidade social, o risco é comprometer, inclusive, as próprias metas de universalização previstas para 2029 e 2033.

Tanivaldo Monteiro Dantas é presidente do Sindicato dos Urbanitários da Baixada Santista e do Vale do Ribeira (Sintius)
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