Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Entre dois amores

22 de julho de 2011 - 17:32

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Essa é uma reflexão que mexe com nossos valores, crenças e hábitos, apesar de que intimamente quase a totalidade das pessoas já viveu esse conflito, na fantasia, no segredo de sua alma ou mesmo na culpa negra e pesada.


Amar duas pessoas não é, necessariamente, sufocar de amor e não viver sem, mas é principalmente a sensação de incompletude quando está com um e a mesma sensação quando se está com o outro. Mas, afinal, o que se quer?


Longe de mim fazer apologia de traição, adultério ou comportamentos antiéticos, porém não posso deixar de admitir que, no campo da psiché, os caminhos do coração são de maneira geral indeterminados por quem quer que seja.


Já que falei do coração. Vale à pena fazer o questionamento do que é amor? Sujeição? Dominação? Doação? Particularmente, tenho certa implicância com a palavra amor, utilizada de maneira explicitamente romântica, que tem no seu bojo inúmeras interpretações, desde a mais libertária até a mais repressiva.


Deixe-me tocar sua alma  com a superfície da palma da minha mão, diz uma musica que traduz instantes de amor, na qual a intimidade dos sentidos extrapola o concreto e chega à alma. Pensando assim esse sentimento pode aparecer em situações diversas e não apenas com aquela pessoa com quem fiz um contrato de vida.


Sim ou não. Essa questão envolve duas situações fortes e reais: a dos sentimentos e a das convenções sociais. Como se sabe, sem falsas idealizações, os casamentos, mesmo os mais felizes e completos, envolvem muitas razões para sustentá-los e não necessariamente o amor dos olhos nos olhos, eu diria, que existem diversos e qualitativamente iguais, tipos de amores.


Não me refiro ao amor universal, ao amor materno, fraterno ou filial e sim ao amor Eros, aos amores que ligam pessoas adultas, homens e mulheres, heteros ou não. Falo de casais, de desejo, atração.


A partir da idade média, o romantismo nos inspira a admitir apenas uma parceria amorosa. Isso não impede o desejo por outras pessoas, pois o desejo erótico escapa de nosso controle racional, mas a escolha do caminho a seguir, o comportamento diante do desejo, esse sim é de nossa escolha e total responsabilidade.


Então entender e se focar na verdade de que o sentimento não é construído, mas que a relação o é, torna-se fundamental para que, sem hipocrisia, possamos nos ver e entender o que sentimos, para fazermos nossa escolha. A verdade é que não existe ninguém no mundo capaz de satisfazer todas as nossas expectativas e conviver com algumas faltas faz-se mister em qualquer relação que se preze.


Entender que sexo, paixão e amor têm movimentos próprios e o grande esforço criativo para ser feliz é compreender esses movimentos e humildemente e com muita intimidade amorosa dividir isso com o parceiro para se equalizar as necessidades sem ferir ou ser ferido.